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sábado, 7 de janeiro de 2017

Assim como - Vinha de Luz - capítulo 165

"Assim como o Pai me enviou, também eu vos envio a vós."
(Jesus - João, 20: 21)"


Todo cristão sincero sabe como o Senhor supremo enviou à Terra o Embaixador divino.

Fê-lo nascer na manjedoura singela.

Deu-lhe trabalho construtivo na infância.

Conferiu-lhe deveres pesados, na preparação, com prece e jejum no deserto.

Inspirou-lhe vida frugal e simples.

Não lhe permitiu o estacionamento em alegrias artificiais.

Conduziu-o ao serviço ativo no bem de todos.

Inclinou-lhe o coração para os doentes e necessitados.

Induziu-o a banquetear-se com pessoas consideradas de má vida, para que o seu amor não fosse uma joia de luxo e sim o clima abençoado para a salvação de muitos.

Fê-lo ensinar o bem e praticá-lo entre os paralíticos e cegos, leprosos e loucos, de modo a beneficiá-los.

E, ao término de sua missão sublime, deu-lhe a morte na cruz, entre ladrões, com o abandono dos amigos, sob perseguição e desprezo, para que as criaturas aprendessem o processo de sacrifício pessoal, como garantia de felicidade, a caminho da ressurreição do homem interior na vida eterna.

Foi assim que o supremo Pai enviou à Terra o Filho divino e, nesse, padrão, podemos entender o que Jesus desejava dizer quando asseverou que expediria mensageiros ao mundo nas mesmas normas.

Assim, pois, o cristão que aspira a movimentar-se entre facilidades terrestres, certamente ainda não acordou para a verdade.

(Vinha de Luz, de Chico Xavier/Emmanuel. 1a edição. 2014. Federação Espírita Brasileira)

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Esteve Jesus entre os Essênios?



Uma questão que convida à reflexão: Jesus esteve ou não no meio da fraternidade Essênia, com o objetivo de preparar-se para os dias de seu apostolado de Amor Universal?

Se esteve, e com essa finalidade, podemos entrever duas possibilidades:

- a primeira nos ditaria que, mesmo um espírito puro e poderoso, condutor do planeta Terra desde os remotos tempos de sua formação (como nos dão a entender Ramatis e Hercílio Maes em, "O Sublime Peregrino"), mesmo um espírito desse gabarito, uma vez imerso na matéria, seria submetido a tal entorpecimento de sua memória e de suas faculdades psíquicas, que necessitaria de auxílio para que despertasse seu magnífico potencial. O entendimento, nesse caso, é que as cortinas de obscuridade que se antepõe ao espírito encarnado são de tal natureza vigorosas que, mesmo os espíritos da mais alta estirpe, não se furtam ao amortecimento das próprias faculdades espirituais, quando no mundo da carne.

- por outro lado, podemos supor o inverso, ou seja, que a imersão no mundo físico não teria tal capacidade de entorpecimento, se o espírito tivesse estatura espiritual suficiente para permanecer desperto, independente de auxílio externo. Segundo essa hipótese, se Jesus buscou a fraternidade essênia com o objetivo de preparar-se para os seus dias de messianismo terrestre, isto só poderia acontecer se Ele ainda não fosse um espírito de tal estatura espiritual! Por isso necessitaria dos essênios: para auxiliá-lo a fazer o que, por si só, Ele próprio não conseguiria. Nesse caso, teríamos de admitir um Jesus bem menos adiantado espiritualmente do que a alma sublime rememorada por Ramatis e Hercílio Maes.

Por outro lado, se admitirmos que Jesus não esteve entre os Essênios, o raciocínio mais simples, nos dirá, então, que se assim o foi, é porque Jesus não precisou desse auxílio. Que guardou em si, desde a juventude, a majestade daquele Reino que proclamava e que não era deste mundo.

Algumas fontes afirmam, no entanto, que os Essênios eram depositários de uma coleção de documentos originais, repletos da antiga sabedoria, inclusive textos escritos por Moisés, livres das adulterações posteriores, introduzidas pelos interesses materiais da classe sacerdotal hebreia. Achados arqueológicos recentes põem a descoberto manuscritos encontrados em grutas nas proximidades do mar morto, de certa forma, corroborando essa hipótese.

Se Jesus esteve entre os essênios para consultar manuscritos originais antes de defrontar-se com a enraizada intransigência farisaica de seu tempo, é algo que não lhe diminui em nada a grandeza espiritual.

Duas fontes psicográficas muito conhecidas apresentam versões diametralmente opostas sobre a interferência essênia na vida de Jesus. Vejamo-las:

O Cristo e os Essênios

(Em "A Caminho da Luz", por Emmanuel/Chico Xavier. Federação Espírita Brasileira. 37a edição. 2008)

Muitos séculos depois da sua exemplificação incompreendida, há quem veja entre os essênios, aprendendo as suas doutrinas, antes do seu messianismo de amor e de redenção. As próprias  esferas mais próximas da Terra, que pela força das circunstâncias se acercam mais das controvérsias dos homens que do sincero aprendizado dos espíritos estudiosos e desprendidos do orbe, refletem as opiniões contraditórias da Humanidade, a respeito do Salvador de todas as criaturas.

O Mestre, porém, não obstante a elevada cultura das escolas essênias, não necessitou da sua contribuição. Desde os seus primeiros dias na Terra, mostrou-se tal qual era, com a superioridade que o planeta lhe conheceu desde os tempos longínquos do princípio.

Harpas Eternas

(por Hilarión de Monte Nebo/Josefa Rosalía Luque Alvarez. Editora Pensamento. Volume I. 6a edição, 2000; Volume II. 1a edição, 1996; Volume III. 1a edição, 1993; Volume IV. 1a edição, 1993.)

Harpas Eternas (para detalhes, CLIQUE AQUI), trata da vida do Homem-Luz e trata a fraternidade essênia como organização que efetivamente teria cumprido a tarefa de auxiliar o Mestre a despertar suas faculdades psíquicas, além, é claro, de dar-lhe amplo acesso à documentação da qual era depositária.

Mas, que posição tomar?

Ser espírita, como ser Cristão, inclui - para bem como para conhecer a Verdade - livrar-se de dogmas e de conceitos que não coadunam com o raciocínio transparente.

Ser espírita, como ser Cristão, muita vez nos impulsiona a ler, a estudar, a pesquisar e não aceitar nenhuma obra como Santa ou Sagrada apenas porque esta ou aquela personalidade eminente assim o diz, ou porque esta ou aquela religião assim o estabelece.

Ser espírita, como ser Cristão, é, sob o burilamento incessante da razão, trazer a pedra bruta dos dogmas ancestrais à conformação esplêndida do diamante lapidado da Verdade.

No entanto, a Verdade nem sempre está ao alcance do nosso buril.

Mesmo assim, ser Espírita, como ser Cristão, é, ao lado de tantas bênçãos, a felicidade de não ter de aceitar nenhuma ideia pré-concebida que nos fuja ao crivo da razão; é a possibilidade de pensar paralelamente às escrituras do mundo, inclusive aos mais ilustres textos do espiritismo e do cristianismo, a par de que Jesus não ensinou com nenhum livro de dogmas sob suas mãos...




sábado, 4 de julho de 2015

Harpas Eternas

Harpas Eternas:



Entre as crônicas a respeito da vida de Jesus, existem aquelas que adquiriram maior notoriedade por haverem sido incluídas entre os textos ditos "canônicos" na coleção que conhecemos por "Bíblia".

Esses textos, no entanto, deixam lacunas consideráveis sobre a personalidade, os ensinamentos, a vida, o contexto histórico, a família e as demais personagens que secundaram a passagem do Divino Mestre por nosso planeta. Chega a nós, através desses relatos, algo a respeito de seu nascimento, uma ou duas breves passagens sobre sua infância e, depois, há uma lacuna de duas décadas, quando, então, o "Filho de Deus" ressurge para uma curta permanência entre os hebreus até o término de seus dias de espírito encarnado, no alto do monte "Gólgota", que todos conhecemos.

"Harpas Eternas" é uma obra que pretende preencher diversas dessas lacunas. Sua narrativa detalhada aborda fatos sucedidos desde antes do nascimento do Profeta Nazareno até os 40 dias após o martírio e o sacrifício, no Calvário.

Nessa coleção de quatro volumes, a personalidade luminosa do Homem-Amor é apresentada ao leitor como se este estivesse assistindo a um artista, à medida que ele pinta uma tela. A alma alegre, amorosa e iluminada do enviado de Deus, vai, do nascimento ao desencarne, tomando posse gradativa de todas as suas incomparáveis faculdades psíquicas, como se ornasse, aos poucos, com novas cores e novos tons, a pintura de beleza inefável que foi sua passagem por entre nós, ainda, em nossa maioria, aparentemente distantes de o haver compreendido.

Não tenho dúvidas de que o maior tesouro que nos oferece a obra, é o estreitamento de nossa relação com essa alma sublime que se entregou à imolação por amor à humanidade.

Em "Harpas Eternas" vemos claramente a dedicação da vida messiânica de Jesus a dois objetivos que são, na verdade, um só:

1) colocar à luz do sol as inúmeras adulterações que, no correr dos séculos e na escuridão das trevas, a classe sacerdotal farisaica, cega pela cobiça e pelo poder, havia introduzido como ervas daninhas no terreno aprazível em que deveria frutificar a "lei" de Moisés, verdadeira e simples, resumida no decálogo do Sinai e;

2) substituir essa montanha de prescrições dogmáticas cultuadas até hoje, mas que não visavam, senão, encher de ouro e poder os representantes do Sinédrio judaico, por um único e poderoso ensinamento:

- AMA A DEUS ACIMA DE TODAS AS COISAS E AO PRÓXIMO COMO A TI MESMO.

Mas, como se isso não bastasse, a narrativa é recheada, ainda, de numerosas informações que são como presentes para o espírito investigativo: adentra-se, em pormenores, no mundo da fraternidade Essênia; são tecidas, em minúcias, as relações de afeto entre o Homem-Deus, seus familiares e as pessoas que o amaram e que Ele amava mais ainda, bem como o papel decisivo dessas pessoas no desenrolar dos fatos que chegaram até nós através dos relatos canônicos; é desembaralhado, ante nossos olhos, o intricado panorama político-religioso que resultava na opressão do povo hebreu pelo invasor romano de um lado, mas também pelo seu próprio poder religioso, corrompido, ganancioso e hipócrita, de outro; aclara-se a paisagem dos humores e da perspectiva histórica do povo oprimido que desejava um Messias-Rei, que o libertasse dos poderes tiranos que o dominavam, sem conseguir alcançar as palavras do Mestre, que repetidamente afirmava não ser o Seu reino deste mundo; desvenda, com absoluta clareza, os interesses vis e mundanos responsáveis pelos fatos que culminaram com a crucificação do Filho de Deus...

Harpas Eternas, além de procurar descerrar o véu que de certa forma encobre de mistério os acontecimentos da vida do Homem-Luz, também nos oferece uma visão muito mais próxima e humanizada de personagens que povoam como de relance os evangelhos canônicos. Esse é caso das personalidades de Maria de Nazaré e José, seu esposo, de José de Arimatéia, de Nicodemos, dos chamados "reis magos" (Melchior, Gaspar e Baltazar), de Maria de Mágdalo, a castelã (ou Maria Madalena), entre muitos outros.

Tudo isso e muito mais nos é dado como instrumento para a reflexão.

Agora podemos perguntar de onde virá tanta informação "não oficial"? Por que não nos foi revelada antes? Ela é confiável?

O espírito Hilaríón de Monte Nebo, que psicografa através da médium Josefa Rosalía Luque Alvarez, responde. Sua fonte, afirma, são os "Arquivos da Luz Eterna". Essa é uma referência que o espírito faz ao que, no oriente, no esoterismo e na teosofia é conhecido como "Akasha" ou "Akasa". Esses termos referem-se a registros vivos de tudo que acontece em toda parte. Cada folha que cai, cada ação humana, cada pensamento emitido, tudo isso seria gravado a fogo nesse arquivo intangível que os espíritos que chegaram a um nível de evolução compatível poderiam acessar. E esses arquivos não são lidos, mas, sim, vivenciados pelo consulente, que, então, conhece tudo o que se passou, bem como cada pensamento e cada sentimento envolvidos.

Cabe a nós leitores, somando essas a outras informações das quais disponhamos, analisar e refletir, meditar e buscar, através do Filho, o reencontro com o Pai.

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Edições utilizadas neste blogue:

Harpas Eternas - Volume I
Editora Pensamento
pelo espírito Hilarión de Monte Nebo, psicografada por Josefa Rosalía Luque Alvarez
6a edição, 2000.

Harpas Eternas - Volume II
Editora Pensamento
pelo espírito Hilarión de Monte Nebo, psicografada por Josefa Rosalía Luque Alvarez
1a edição, 1996.

Harpas Eternas - Volume III
Editora Pensamento
pelo espírito Hilarión de Monte Nebo, psicografada por Josefa Rosalía Luque Alvarez
1a edição, 1993.

Harpas Eternas - Volume IV
Editora Pensamento
pelo espírito Hilarión de Monte Nebo, psicografada por Josefa Rosalía Luque Alvarez
1a edição, 1993.




terça-feira, 26 de maio de 2015

Reconstruir


"Reconstruir, através  da fraternidade e do amor, tudo o que o homem destrói, é e será sempre a obra que salvará a humanidade."

(Jesus, em "Harpas Eternas", de Hilarión do Monte Nebo/Josefa Rosalía Luque Alvarez, Volume III. Editora Pensamento. São Paulo. 9a edição. 2012)

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Jesus anuncia a vinda do Espírito da Verdade


(Jesus aos apóstolos. João 16: 12-15. Bíblia de Jerusalém. Editora Paulus. 1a edição. 9a reimpressão. 2002.)

12 Tenho ainda muito que vos dizer, mas não podeis agora suportar.
13 Quando vier o Espírito da verdade, ele vos guiará na verdade plena, pois não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido e vos anunciará as coisas futuras.
14 Ele me glorificará porque receberá do que é meu e vos anunciará.
15 Tudo o que o Pai tem é meu. Por isso vos disse: "ele receberá do que é meu e vos anunciará."


quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

O Sublime Peregrino

O Sublime Peregrino:


Quis Deus enviar seu filho para nascer da carne, viver como um homem e exemplificar, com seus passos luminosos, o caminho da redenção. Eis aí uma assertiva simples, mas que apela profundamento à razão. De que serviria um exemplo que só pudesse ser trilhado por um ser etéreo, que pairasse acima da humanidade, dotado de poderes sobrenaturais? Que ser humano poderia trilhar esse caminho?

Para que seu exemplo pudesse ser seguido, quis o Pai Celestial que seu filho amado vivesse como um homem entre os homens. Quis Ele, que seu filho nascesse de uma família pobre, e fosse acolhido numa manjedoura, crescesse como um menino bom, entre os demais meninos de Nazareth, trabalhasse como carpinteiro e, depois, nos ensinasse coisas tão simples que qualquer homem poderia aprender, como amar, perdoar, e abandonar o egoísmo e o orgulho.

O Sublime Peregrino é o livro que faz dessa assertiva uma narração inspirada. O espírito Ramatis, através do médium Hercilio Maes, conta, num texto estruturado na forma de perguntas e respostas, como foi esse acontecimento inesquecível na história da humanidade. Desde os milênios de preparação que antecederam o nascimento do filho de José e Maria, passando pelos motivos que elegeram o cenário e o povo galileu como seu berço escolhido e as considerações espirituais que envolveram essa escolha, discorrendo detalhadamente sobre a infância do Divino Mestre, sobre os personagens importantes em sua vida, sua mãe, seu pai, Maria de Madalena, os Apóstolos, sobre sua permanência entre os Essênios, até o momento em que Jesus se tornou o mensageiro do Cristo e iniciou suas pregações, seus feitos e, finalmente, passou pelo drama de seus últimos dias.

É um livro que instrui, que apela para a singeleza e a inviolabilidade da lei de Deus na vida de todas as pessoas e revela aos corações atentos que o caminho está disponível para ser seguido, que as leis Divinas trabalham a favor do homem, e que a Angelitude é um destino inexorável.

Mas é também, acima de tudo, um livro que tira de sob o alqueire a lâmpada que ilumina o que havia de obscuro a respeito da vida da mais Sublime alma humana que já pisou na superfície da Terra. Somente por isso, é um livro capaz de inspirar os corações desejosos de encontrar a Verdade.

Confira AQUI algumas passagens desse livro.

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Uma edição sugerida:

O Sublime Peregrino
Editora do Conhecimento
Ramatís. Psicografado por Hercílio Maes.
17a edição. 2006



terça-feira, 2 de abril de 2013

OSP - Capítulo XXX - Jesus e Pôncio Pilatos


(O Sublime Peregrino - pelo Espírito Ramatís - Psicografado por Hercílio Maes)

PERGUNTA: - Que nos dizeis a respeito de Pôncio Pilatos?

RAMATÍS: - Pôncio Pilatos, como todos os procônsules seus predecessores, era também detestado pelos judeus, embora se mostrasse mais tolerante com os assuntos religiosos de tal povo. No princípio, ao assumir o comando da Judéia, ele agiu com demasiada violência, reprimindo qualquer indício de revolta ou conspiração com o suplício atemorizante da cruz. Mas, em face da política adotada por Tibério, de não enfraquecer a autoridade religiosa dos povos vencidos, e governá-los mais facilmente através do poder e da astúcia do sacerdócio organizado, Pilatos convenceu-se de que seria muito difícil domar aquele povo irrequieto, fanático, obstinado e, ao mesmo tempo, audacioso. Além disso, o Sumo Sacerdote gozava de credenciais que o favoreciam de influir até quanto à permanência e ao prestígio do procônsul, dependendo dos seus relatórios enviados a Roma. Vergílio Gaba, procurador que precedera Pilatos, gozara de poderes absolutos, pois derribava sumos sacerdotes conforme lhe apetecia; mas a política de Tibério obrigava o seu sucessor a viver em boas relações com Caifás, o Sumo Sacerdote em vigência, que era habitualmente orientado pelo seu sogro Hanan, a quem sucedera naquele cargo prestigioso na organização sacerdotal judaica. Em face disso, Pôncio Pilatos moderou a sua irascibilidade e muitas vezes teve de se curvar ao sacerdócio hebreu, para não se desprestigiar em Roma.

Pôncio Pilatos era um homem com cerca de quarenta e dois anos; era robusto, de estatura média, corado, cuja fisionomia traía um forte recalque pela vida sensual. Era calvo e procurava disfarçar a calvície no arranjo de um saldo de cabelos ao nível das orelhas, ou com enfeites próprios da época. Apesar de se mostrar afável e atencioso, quando isso lhe convinha, chegando a gargalhar muito tempo em face das tolices religiosas dos judeus, o bom fisionomista lhe identificaria alguns traços duros de despotismo e insensibilidade. Não era ríspido, mas atemorizava os que necessitavam dos seus préstimos, pois se encolerizava com facilidade quando contrariado. Enfim, traía aquela índole da fauna de políticos de Roma, em que os ambiciosos curvavam a cerviz para os mais poderosos, para depois extrair-lhes o máximo de proventos ou esmagá-los sob o tacão da bota ferrada, quando isso aprouvesse! Sumamente ambicioso, Pilatos era prudente no jogo dos seus interesses e temeroso do seu prestígio junto a Tibério, que lhe dera o cargo. Apesar de sua arrogância e repulsa contra os judeus, ele não se animava de abrir luta frontal com o Sumo Sacerdote, que era um inimigo implacável e perigoso pela sua astúcia. Hanan, o sogro de Caifás, quando em atividade no Templo, já o havia indiciado junto a Roma, através de algumas comunicações com certo fundamento, amparadas por ricos presentes à corte romana. Graças a Sejano, seu particular amigo e ministro favorito de Tibério, pilatos conseguira manter o cobiçado cargo de procurador da Judéia e doravante seria mais cauteloso quando se tratasse de decidir sobre os interesses sacerdotais. Além disso, Caifás fizera-lhe saber, indiretamente, que possuía provas de algumas negociatas inescrupulosas feitas com judeus gananciosos capazes de vender a própria alma, que faziam transações fabulosas no fornecimento de víveres e suprimentos para as embarcações e para os exércitos romanos. Através do beneplácito de Pôncio Pilatos, que assim arreava fartura de moedas para os seus cofres  particulares, esses negociantes hebreus eram livres em suas especulações. Aliás, ultimamente ele se achava  em boas graças com o Sumo Sacerdote, o qual lhe enviava, diariamente, os mais gordos faisões recebidos da província da Gália, assim como figos, tâmaras e damascos secos ou cristalizados, da mais fina qualidade, além de dezenas de caixas de excelente vinho de Chipre, que ele mais apreciava.

PERGUNTA: - Quais foram os acontecimentos sucedidos com Jesus, após ser conduzido a Pôncio Pilatos?

RAMATÍS: - O Pretório Romano funcionava no antigo palácio de Herodes, contíguo à Torre Antônia, onde sediavam-se também duas legiões romanas sob o comando de Quinto Cornélio, o centurião de confiança do procônsul. Ficava perto do Templo e distava algumas quadras da casa do Sumo Sacerdote, pois todos os edifícios principais ficavam na cidade alta. Seguindo o velho costume romano, Pôncio Pilatos iniciava a sua audiência habitualmente às nove horas da manhã, enquanto os seus assessores civis e o juízo comum, de poderes para resoluções e sentenças sumárias, que apenas lhe pediam a confirmação, funcionavam na ante-sala que se abria para o terraço ou plataforma, onde era costume dar-se conhecimento ao povo dos editos do César.

Jesus foi introduzido nessa ante-sala sob a custódia de dez esbirros do Sinédrio, enquanto a Pilatos era comunicado que se tratava de um prisioneiro já condenado pelo Tribunal Sagrado e sob recomendação particular do Sumo Sacerdote para imediato interrogatório. O Procurador de Roma surpreendeu-se diante de um homem palidíssimo, febril e abatido por visíveis sofrimentos, quando as provas e os testemunhos em seu poder o acusavam de perigoso facínora e obstinado rebelde. Esperava defrontar-se com um homem hirsuto, brutal, destemido e cínico, em vez de uma criatura humilhada, de aspecto delicado e cambaleante de fraqueza, como se mostrava Jesus de Nazaré. Provavelmente, o seu mau estado de saúde provinha de excessivos interrogatórios e da insônia; pois custava a reconhecer, debaixo daquela aparência inofensiva e atribulada, o galileu fanático e perigoso das provas criminais em seu poder. Era seu dever fazer cumprir a lei contra os infratores e manter a harmonia nas relações entre os hebreus e romanos, freqüentemente em choque. Convinha prestar alguns favores ao Sumo Sacerdote, para que depois chegassem bons informes a Roma, pois, embora isso o irritasse, o seu prestígio administrativo e a sua segurança na Judéia dependiam fundamentalmente da opinião do povo judeu, cativo e rixento, porém jamais conformado!

No entanto, Pilatos guardava lá no íntimo os seus ressentimentos contra as astutas raposas do Templo, como assim as designava, e perdia a tramontana toda vez que teimavam em lhe impor condições ou pareceres.

PERGUNTA: - Que dizeis do julgamento de Jesus por Pilatos?

RAMATÍS: Pôncio Pilatos dirigiu-se ao beleguim-chefe do Sinédrio, que conduzira Jesus à plataforma do pretório, o qual fazia o papel de relator e ao mesmo tempo de promotor, habilmente instruído por Hanan e Caifás, e inquiriu-o do seguinte modo:

- Que se julgou deste homem pelo Sinédrio?

O agente religioso entregou-lhe a peça acusatório, informando sem esconder sua arrogância:

- Jesus de Nazaré, rabino galileu, foi considerado culpado por unanimidade da pequena corte de juízes do Sinédrio; mas não possui um só testemunho a seu favor, o que o impede de justificar o recurso de apelação; também não pode ser discutido pelo Grande Conselho, em face de sua condenação de culpa ter sido por votação unânime!

Pilatos fixou duramento o emissário do Sumo Sacerdócio de Jerusalém, que jamais pestanejou sob o seu olhar inquiridor. Em seguida leu a peça acusatória, que assim dizia: "Jesus de Nazaré, rabino galileu, sedutor, inimigo da Lei, falso rei de Israel, herético Filho de Deus, Messias impostor, explorador de viúvas e órfãos, fascinador de donzelas, agitador e depredador do Templo, profanador de oblatas e inimigo das devoções, assim julgado unanimemente culpado por esta corte em juízo de emergência".

- Qual foi a sentença exarada pelo Tribunal Sagrado?, indagou Pilatos, embora desde o dia anterior já estivesse a par de todas as acusações contra Jesus, inclusive quanto à delação de Judas, que realmente o convencera das intenções subversivas do movimento cristão.

- Conforme a Lei do Tribunal Sagrado, somente hoje, à tarde, o culpado poderá ser sentenciado, redarguiu-lhe o agente de Caifás. E num tom de profunda ênfase, exclamou:

- Mas Jesus de Nazaré não feriu apenas o poder divino, porém, comprometeu a ordem pública! já foi julgado pelo direito sagrado, que está acima das competições humanas, mas agora encontra-se perante o juízo representativo do imperador Tibério, que o julgará como crime civil de lesa-pátria e subversão!

E antes mesmo que Pilatos se insurgisse contra essa arenga impertinente e provocante, em que o Sumo Sacerdote fazia-o lembrar-se de suas próprias obrigações, o beleguim ainda prosseguiu, um tom indagativo, sem mesmo disfarçar o ar acintoso de desafio:

- Jesus de Nazaré, desmoralizador do direito sagrado, será lapidado como ímpio e profanador, mas isento de culpa perante Roma e para estímulo de novas sedições; ou considerado rebelde à ordem pública, sofrerá o suplício da cruz em bom cumprimento dado pela sentença do ínclito representante do Imperador Tibério?

Pôncio Pilatos recuou no espaldar da poltrona, os lábios entreabertos e pasmado de tanta audácia! Estava habituado ao cinismo e à petulância dos hebreus, porém, jamais tolerava que se imiscuíssem em seus negócios e nas suas obrigações públicas. O Sumo Sacerdote não lhe exigia a morte de jesus, o rebelde inimigo do Clero Judeu; mas parecia desafiá-lo sob a ameaça de um rosário de consequências graves, se assim não o fizesse! Com isso demonstrava que possuía todos os trunfos na mão e jamais abdicara de tal favor!

Sentiu-se sumamente ofendido no seu amor próprio ante a atitude descarada do esbirro de Caifás, tentado a dar uma lição ao seu capataz do Templo, pois um romano jamais se curvava tão facilmente à decisão acintosa de povos escravos. Mas isso também dependeria de conhecer melhor o sedicioso Jesus, pois, se o soltasse por um capricho e ele promovesse qualquer nova insurreição, ser-lhe-ia difícil explicar a Tibério os motivos que o fizeram decidir de modo tão discutível. Então, em vez de inquiri-lo na ante-sala do Pretório, ante os juízes, mandou conduzir Jesus ao seu aposento de trabalho. Ante a fraqueza e o estado aflitivo do rabino galileu, mandou sentá-lo;

- Que fizeste, galileu, para ateares a ira dos juízes do Sinédrio e atraíres tantos testemunhos de sedição, que me obrigas a crucificar-te? - indagou Pilatos com suma altivez, mas de certa afabilidade na secura da voz.

Jesus ergueu os olhos para o Procônsul, algo surpreso do tratamento mais ameno daquele rígido romano, e volveu-lhe um olhar de gratidão. Pilatos remexeu-se na poltrona, algo contrafeito.

- Fala, galileu! - ordenou, autoritário e impaciente. - Por que violaste a ordem pública?

Ante aquela rude, mas humana compreensão, Jesus propunha-se a expor os motivos de sua vida, os seus sonhos e as suas idéias de imortalidade, as relações entre os espíritos, os fundamentos da sua doutrina de libertação da humanidade e o verdadeiro sentido do Reino de Deus, que ficava acima dos interesses e das contingências humanas. Desconhecia os motivos por que Pilatos o tratava com certa deferência, em vez de mandá-lo de imediato ao juízo comum, onde já teria sido sentenciado dezenas de vezes, tal a prodigalidade de provas e testemunhos fornecidos pelo Sinédrio.

Pôncio Pilatos compreenderia as suas esperanças e os seus ideais messiânicos; talvez o libertasse para poder continuar a sua obra de salvação humana. Mas Jesus, subitamente, envolvido por estranha vibração que o penetrou por todos os poros do corpo e lhe avivar os sentidos, tomado de surpreendente lucidez de espírito, reviveu ou quadros já vividos no Horto das Oliveiras, quase sentindo o próprio sangue a gotejar das mãos e dos pés sangrando no martírio da cruz! Então fechou os olhos, clareando-se o entendimento de sua alma, pois ainda reviu, nessa ideoplastia mediúnica, que a humanidade lhe daria as costas, num gesto de desconfiança, se ficasse liberto dos grilhões dos hebreus e romanos. Mas aquele fugaz minuto de vacilação foi vencido, ao compreender que a sobrevivência do seu Evangelho dependeria do holocausto de sua vida carnal. Cortesmente e em palavras recortadas de ternura, mas de implacável decisão, Jesus respondeu a Pilatos, que o fitava com certa preocupação, sentindo-se impelido por um sentimento de simpatia;

- Nada tenho a defender-me das acusações dos homens, pois cumpro a vontade de meu Pai que está nos céus! A morte será para mim a coroa de glórias e a salvação de minha obra para a redenção dos homens!

Pilatos franziu a testa, profundamente surpreendido e, movido por um impulso sincero, assim se expressou:

- Mas eu posso salvar-te a vida, se isso me aprouver! Que pretendes, enfim?

- Recusar a vida que me ofereces, poi isso seria deserção e cobardia; só a minha morte não desmentirá aquilo que o Senhor transmitiu por mim aos homens!

Levantou-se o Procônsul e pôs-se a caminhar movido pelos mais estranhos pensamentos. Contrariando o que narra a história religiosa, jamais Pôncio Pilatos tentou salvar Jesus por questão de simpatia ou mesmo de piedade, sentimentos esses que não se afinavam com o seu caráter curtido pelas ambições e manhas da política de Roma. O que lhe importava era apenas o prazer de uma desforra contra Hanan, Caifás e seus sequazes, por saber que estavam em jogo os mais avançados interesses do Clero Judeu. No entanto, com a recusa de Jesus à sua clemência e ao indulto oferecidos, o que lhe podia ser facultado antes de qualquer sentença do juízo comum ali reunido, a poucos passos, sentia-se inclinado a desistir da porfia contra o Sumo Sacerdócio de Jerusalém.

Novamente fitou Jesus, com um olhar em transparecia certo despeito. E assim indagou, algo ríspido:

- Como te atreves a recusar me indulto?

- Não intentes salvar-me! - redarguiu Jesus delicadamente. - Jamais seríeis perdoado pela ira dos que me condenaram!

Pôncio Pilatos ficou corado ao verificar que o próprio acusado parecia saber de suas hesitações em afrontar os sacerdotes do Sinédrio.

- Julgas que eu temo esses sacripantas do Templo? - inquiriu num assomo de altivez.

- Sou grato pela vossa clemência e sei que não temeis os vossos cativos; mas eu preciso morrer por força de minha obra; só assim ela viver´! - respondeu Jesus com tal doçura que desarmou a ira de Pilatos, fazendo-o responder:

- Eu não te entendo, galileu!

Mas, de súbito, Pôncio Pilatos começou a perceber quão importante deveria ser a morte de Jesus para Caifás e seus sequazes, e, também, a gravidade de sua decisão naquele momento. Aliás, havia alguns dias ele vinha sendo presentado om os mais apetitosos faisões, frutos das mais finas qualidades, vinhos de Chipre, que tanto apreciava, e iguarias raras. O inimigo, antes de agir junto a Tibério, acenava-lhe com as boas graças! Ademais, sabia-se em toda Jerusalém que naquela semana havia seguido um valioso carregamento de objetos, jóias e adereços raros para Tibério, sua esposa e principais cortesãos de Roma. Em consequência, Pilatos tinha razão para ficar seriamente apreensivo ante qualquer maquinação da família sacerdotal, que, para desalojá--lo da Judéia, não vacilaria ante as maiores infâmias e subornos! Enriquecia prodigamente no governo da Judéia, e em breve teria garantido agradável futuro na sua herdade de Espanha, quase desonerada de compromissos.

Deixando-se dominar por um impulso indefinível, como a auscultar os seus interesses ocultos e ao mesmo tempo satisfazer o seu brio ferido, mas sem a veemência dos primeiros momentos, Pôncio Pilatos indagou a Jesus:

- Ainda te obstinas em morrer?

- Tu o disseste! - respondeu Jesus, sem vacilar.

Pouco lhe importava que o rabi da Galiléia fosse indultado ou crucificado, pois não passava de uma peça viva igual a tantas outras que já fizera morrer por danos menores. Mas era o seu amor próprio profundamente ferido, que o levava a hesitar na sentença final; o prisioneiro era um pretexto para lhe contentar o espírito de desforra contra o Sumo Sacerdote. Talvez, se lhe tivesse sido pedida a absolvição do acusado, sem dúvida tudo faria para crucificá-lo, a fim de contradizer o seu adversário. Jesus levantou-se, compreendendo que estava finda a entrevista, e se dirigiu para a porta. Talvez atuado por alguma força oculta a que não pôde fugir, Pilatos fez um gesto com a mão, ordenando a Jesus que esperasse. Quase revoltado consigo mesmo, sofrendo ao fazer qualquer cessão ao próximo, disse bruscamente ao Mestre Cristão;

- Se desejas a morte, dize, pelo menos, o que posso fazer por ti!

Jesus fitou-o bem nos olhos, transmitindo-lhe a força do seu magnetismo sublime, o poderio do seu espírito e a ternura do seu coração. Então, pediu-lhe num supremo apelo, que tocou as fibras endurecidas do Procônsul romano;

- Se queres ajudar-me, não persigas os meus discípulo; ser-te-ei grato da Casa de Meu Pai, por toda a eternidade!

Pôncio Pilatos mirou Jesus de alto a baixo, sem poder esconder a sua admiração por aquela deliberada renúncia, pois agora não lhe era difícil compreender porque ele desejava morrer e tudo fazia par que isso se efetivasse. O generoso rabino galileu tomava a culpa de todos os seus asseclas e buscava a morte para salvá-los! Algo de benfazejo tocou-lhe a alma, pois fez um gesto confuso, traindo sincera emoção e, precipitando-se nas palavras, como se temesse de mudar de opinião, disse-lhe:

- Prometo, rabino! Enquanto eu aqui estiver, jamais perseguirei um dos teus discípulos, se retornarem às suas casas e abandonarem a sedição!

E, rodando nos calcanhares, encaminhou-se para a porta, acenando a Jesus.

Súbito, Pilatos teve uma idéia, ao perceber que o povo se juntava na adjacência do Pretório, quer devido à passagem obrigatória para o Templo, quer pela curiosidade ante o julgamento do rabino da Galiléia. Então mandou conduzir Jesus até o espaçoso terraço sob as colunas coríntias, e o expôs ao público, enquanto se reduzia o vozerio do povo e o arauto berrava:

- Silêncio! O Procurador de Roma quer falar!

Pôncio Pilatos estava corado até à calva e não escondia a sua ira e repugnância em dar qualquer satisfação dos seus atos àquele povo desprezível; mas, obcecado pelo seu bem estar e pelos seus interesses ambiciosos, tentando frustrar os objetivos de Caifás sem se candidatar a futuras vinditas, resolveu induzir o próprio povo judeu a absolver ou condenar o rabino galileu. No primeiro caso ele estaria livre do ressentimento sacerdotal; e, no segundo caso, sentir-se-ía satisfeito no seu amor próprio, pelo fato de o povo decidir pela sentença que ele mesmo negaceava em atender. Esperava logra o Sumo Sacerdote pela absolvição de Jesus através da decisão do próprio povo. Ergue a mão, num gesto de silêncio, e, apontando o rabi da Galiléia, indagou de modo arrogante:

- Que desejais a este homem? A liberdade ou a morte?

Houve um breve silêncio no seio da multidão que se juntava diante das grades do muro do Pretório. Pôncio Pilatos supôs que uma onda de simpatia envolvia aquelas criaturas a favor do acusado. Um sorriso irônico já lhe tomava os lábios, na certeza da próxima absolvição de Jesus e a consequente frustração do ardil do Sumo Sacerdote, quando estourou dos quatro cantos da praça um clamor disciplinado e num só diapasão de voz: "Crucifica-o! crucifica-o!" Era um grito ondulante, mas coerente, que estrugia numa certa ordem, abafando as vozes que provavelmente estariam pedindo a absolvição do rabi galileu.

- Morte ao Rei de Israel! Morte ao falso Filho de Deus! À cruz com o Messias! Crucifica-o! Crucifica-o! - berravam dezenas de criaturas num tom ameaçador!

Pôncio Pilatos mordeu os lábios e ficou congesto; estufou o peito e parecia explodir. Não se sentia apiedado de Jesus, mas o que o encolerizava era a frustração quanto ao objetivo de forçar os judeus a absolver o prisioneiro, para então glosar o logro de Caifás e seus sequazes.

- Cães!... - bradou ele num assomo de raiva. - Cães vendidos e mercenários!

Realmente, não era o povo, que ainda simpatizava com Jesus, que gritava o "crucifica-o", mas isso provinha da "claque" infame recrutada a peso de ouro pelo Sumo Sacerdócio, com a finalidade de pedir a morte de um justo, assim como também lhe pediria a absolvição, caso fosse bem paga para isso.

- Crucifique-se o impostor! Crucifique-se o Rei de Israel! - prosseguiam os agentes mercenários do Sinédrio, impedindo qualquer demonstração em favor do Mestre Jesus. Entre eles misturavam-se alguns sacerdotes de absoluta confiança de Caifás, e que vigiavam o infame clamor da morte. Pôncio Pilatos, receoso de contrariar a vontade daqueles astutos chefes do Sinédrio, que poderiam prejudicá-lo em Roma, comunicando a Tibério que, apesar de o povo de Jerusalém ter exigido a morte do sedicioso rabino galileu, ele o havia indultado, então exclamou irado, num desabafo de desforra:

- Quereis a morte do rabi da Galiléia? Pois seja; eu o entrego ao juízo do dia! Se ele for condenado, vós mesmos o condenastes, porque eu lavo as minhas mãos deste julgamento.

Rodopiou sobre os calcanhares, acenando para que encaminhassem Jesus à ante-sala onde se reunia a corte do juízo sumário. Diante das provas acusatórias, da confissão de judas, da condenação do Tribunal Sagrado e do interrogatório que lhe foi feito por crime de subversão, o Mestre manteve-se em absoluto silêncio, agravando ainda mais a sua situação desfavorável. Após alguns momentos de confabulações e sucinto exame das peças acusatórias enviadas pelo Sinédrio, os juízes romanos condenaram Jesus à crucificação.

PERGUNTA: - Certos autores objetam que é um absurdo a narrativa evangélica de que a crucificação de Jesus foi efetuada apenas algumas horas depois da sentença! Que dizeis?

RAMATÍS: - A justiça romana exercida nas províncias cativas contra os sediciosos, conspiradores e escravos rebeldes procedia-se de modo sumário; a condenação era imediata e a execução logo em seguida. Os romanos eram práticos e sem sentimentalismos; provada a culpa do acusado, ninguém jamais o salvaria. Embora se deva assinalar a ética avançada do Direito Romano para a época, a sua aplicação justa e racional só se referia aos patrícios e cidadãos de Roma, pois outro era o tratamento concedido aos povos cativos. Jamais contemporizavam com as tentativas sediciosas ou conspirações  contra o poder público, mas arrasavam cruelmente qualquer movimento ou objetivos insurretos, a fim de atemorizarem futuros levantes. Durante o seu domínio despótico, os romanos semearam milhares de cruzes na Palestina. onde também apodreceram milhares de rebeldes, conspiradores e até imprudentes criatura, que foram capturadas na proximidade das sedições. Os romanos endurecidos não consideravam os povos vendidos além de matéria-prima para garantir os seus feitos orgulhosos e manter as suas instituições econômicas.

Apesar da tentativa de Pôncio Pilatos em salvar Jesus para contrariar os objetivos do Sumo Sacerdócio e sua família, nem por isso ele manifestava qualquer sentimento piedoso ou de simpatia pelo acusado. A verdade é que, tivesse de sacrificar os seus interesses e suas ambições para salvar Jesus, sempre terminaria optando pelo sacrifício do rabi da Galiléia.

Cumpria-lhe atender as tradições dos judeus, pois no sábado e domingo de Páscoa não deveria haver execuções, cerimônias fúnebre ou crucificações, para não ensombrar as festividades da "cidade santa". Então a sentença de crucificação de jesus deveria ser cumprida na própria sexta-feira de sua condenação. Isso fez a "claque" do Sinédrio prorromper em aplausos, enquanto, alguns momentos depois, uma delegação de sacerdotes, adrede preparada, comparecia ao átrio do Pretório e um dos seus agentes oficiais lia, em voz untuosa, a saudação lisonjeira que o Sumo Sacerdote fazia a Pôncio Pilatos, na qual o cumprimentava pela sua "lisura" e retidão no desempenho do honroso cargo que lhe fora confiado pelo Augusto Imperador Tibério". Pilatos ainda se mostrava despeitado e irascível, tememdo a astúcia de Caifás; mas, ao ouvir a hipócrita cantilena de elogio, não pôde deixar de envaidecer-se ante a perspectiva de que seriam enviadas excelentes notícias a Roma. Alguns momentos depois, Jesus já não lhe ocupava o pensamento; nem mesmo procurou saber-lhe o destino, após assinar-lhe a sentença de morte, assunto que dali por diante ficaria a cargo do preposto do centurião Quinto Cornélio. A verdade é que o seu falso sentimentalismo de alguns minutos fora superado rapidamente pelos seus interesses e pela vaidade do mundo.

PERGUNTA: - Contam as narrativas evangélicas que Pôncio Pilatos tudo fez para salvar Jesus e o reconheceu inocente, chegando a desesperar-se porque os próprios judeus optaram pela crucificação. No entanto, dizeis que Pilatos apenas tentou desforrar-se do Sumo Sacerdote, na sua preocupação de absolver Jesus?

RAMATÍS: - O certo é que diante da severidade das provas que lhe foram entregues, Pôncio Pilatos não só considerou o rabi galileu um líder de rebeldes perigosos, como ainda reconheceu a necessidade de sua eliminação imediata em favor da segurança do seu governo. Ele não considerava inocente ou inofensivo um homem que se intitulava "Rei de Israel", mas chefiava um bando de galileu belicosos.

Não seria tão tolo a ponto de sacrificar a sua segurança administrativa na província da Judéia, só para salvar um judeu rebelde e desconhecido, já condenado pelos seus próprios compatriotas. Pôncio Pilatos não era peça de fácil engodo, pois, apesar do seu temperamento hesitante, ele se mostrava altivo, orgulhoso e déspota, nos momento em que entravam em jogo a sua ambição, vaidade e seus interesses.  Malgrado o seu caráter indeciso, a c´loera sempre o fazia decidir a seu favor, coisa em que ele jamais se enganava.

Também não escondia o seu desprezo pela religião e pelo fanatismo dos judeus, pois, quando não se ria das intrigas e aflições da crença infantil daquele povo, chegava a ameaçá-los de um dia penetrar no Templo em afrontoso desafio. É certo que os judeus também eram insolentes e não escondiam o seu desprezo pelo "magnânimo e supremo Tibério, Imperador de Roma", cuja provocação eles faziam através do seu próprio Procônsul, tão orgulhoso.

Em consequência, Jesus de Nazaré também não passava de um judeu rebelde que tanto merecia a chibata como a crucificação, embora até lhe fosse aliado na sua resistência contra o astuto Clero Judeu.  É evidente que, se Pilatos tivesse reconhecido a inocência de Jesus e lhe fosse amigo sincero, pelo menos o teria livrado da flagelação e recomendado a "bebida da morte", para logo depois da crucificação (1).

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(1) A "bebida da morte" só era ministrada por autorização superior a certos condenados à crucificação, que então gozavam de alguma consideração entre os romanos, ou tinham amigos influentes, que poderiam apelar para esse recurso da morte piedosa. Trata-se de uma bebida feita de um vinho vinagroso, da Índia, que liquidava o condenado dentro de uma ou duas horas após a crucificação, livrando-o dos padecimentos atrozes, que podiam se prolongar por dias e noites.


domingo, 31 de março de 2013

OSP - Capítulo XXIX - A Prisão e o Julgamento de Jesus, - Parte 3

(O Sublime Peregrino - pelo Espírito Ramatís - Psicografado por Hercílio Maes)

PERGUNTA: - Que aconteceu a Jesus, após a sua prisão no Horto das Oliveiras?

RAMATÍS: - Durante o trajeto do Jardim de Getsêmani até a residência faustosa de Caifás, Jesus teve desfalecimentos, pois diversas vezes os soldados tiveram de reduzir o passo para ele recuperar-se sem ser arrastado. A perda de sangue que tivera no Horto das Oliveiras deixara-o pálido, febril e abatido.

A noite ia alta quando chegaram à casa do Sumo Sacerdote; e ali já se achava reunido um conselho composto de vinte e seis membros, conhecido na época como a "pequena corte" ou "pequeno conselho", que podia ser rapidamente convocado para julgar casos de reconhecida emergência religiosa, de cujo adiamento pudessem advir prejuízos ou consequências graves no futuro. O Sumo Sacerdote, ao convocar a "pequena corte", podia fazê-lo de imediato, cabendo-lhe apresentar posteriormente as razões de tal deliberação. O Grande Conselho, composto de setenta anciãos e o Sumo Sacerdote, podia decidir quanto às sentenças proferidas pela "pequena corte", desde que os acusados conseguissem apresentar as provas cabíveis numa apelação, ou não houvesse unanimidade no julgamento. Apenas um voto contra os demais vinte e cinco votos restantes do "pequeno conselho" era suficiente para derribar ou reformar as suas sentenças, que ficariam a cargo da "corte maior".

Caifás possuía mil razões para depois justificar a convocação da "pequena corte", naquela noite; mas ainda temia algum voto favorável a Jesus, o que então deixaria em "suspenso" qualquer decisão ou sentença proferida até isso ser discutido na "alta corte". Se isso acontecesse, o rabi da Galiléia escaparia de morrer antes da Páscoa e dificilmente seria sentenciado à morte, pois ainda gozava de grande prestígio entre o povo e a simpatia geral terminaria amolecendo aqueles velhos senis do Grande Conselho. Por isso, Caifás, Hanan e a demais parentela mobilizaram todas as suas forças, manhas e fortuna, para incriminar Jesus por unanimidade; e, depois, enquadrá-lo como infrator civil, sujeito à morte sob as leis romanas.

Caifás convocara a reunião da "pequena corte" em sua própria residência, em vez de fazê-la na Câmara do Rochedo Partido, porque isso era permitido, desde que houvesse unanimidade de assinaturas dos juízes participantes. Ademais, ele queria efetuar o julgamento mesmo à noite, pois, conforme era da ética religiosa, o Tribunal não podia se reunir antes do sacrifício matinal no Templo, o que então só seria possível no dia seguinte, à tarde, sem a possibilidade de Jesus ainda ser julgado, em tempo, por Pilatos. Jamais qualquer judeu, por mais ínfimo em sua condição social ou pervertido de moral, admitiria qualquer julgamento ou punição no sábado, grande véspera da Páscoa, ou no domingo, na plenitude da festividade.

Já haviam sido tomadas todas as deliberações possíveis para sacrificar o perigoso rabi da Galiléia, embora tudo isso se processasse dentro dos ditames retos e dignos da Lei. Caifás substituíra todos os juízes que haviam demonstrado a mais sutil simpatia por Jesus, nomeando dez suplentes jovens, de sua inteira confiança, aos quais ele vinha paraninfando a carreira jurídica. O julgamento deveria obedecer a todas as regras e preceitos da mais alta dignidade tradicional daquele "Tribunal Sagrado", cujo respeito ainda não fora posto em dúvida. Mas o Sumo Sacerdote tinha certeza de que as provas e os testemunhos colhidos e a peça acusatória da confissão de Judas, seriam suficientes para forçar aqueles juízes dignos e probos a culparem o rabi galileu como "sedutor, profanador do Templo, inimigo da Lei, falso "rei de Israel" e sacrílego "Filho de Deus"!

Jamais alguém foi mais ardiloso e pródigo de talento na empreitada destruidora de uma vida, como o fizeram Caifás, Hanan e sua parentela, temerosa de perder o comando da negociata religiosa. Eles semearam espiões no seio do próprio movimento cristão, incentivando a "marcha" a Jerusalém, sob as aclamações sediciosas que foram o arremate para incriminar o ingênuo rabi da Galiléia; distribuíram bolsas de moedas aos seus agentes mercenários, transformando o incidente do Templo numa grave sublevação que, posteriormente, apresentou prejuízos vultosos aos cofres sagrados. Abriram as arcas do tesouro do Templo para subornar e obter falsos testemunhos e delações comprometedoras; compraram servos das famílias dos juízes do Sinédrio, fazendo-os distribuir notícias tendenciosas contra o rabi da Galiléia, a fim de influírem na decisão dos mesmos no ato de julgar. Em seguida, auscultaram a tendência ou a opinião pessoal de cada juiz ancião; e só depois de plenamente seguros de seu êxito é que armaram o espetáculo pomposo de julgar Jesus "pro forma", satisfazendo as aparências dignas e respeitáveis da Lei.

PERGUNTA: - Qual foi, enfim, a realidade do julgamento de Jesus, em comparação com os relatos dos evangelistas?

RAMATÍS: - Em verdade, não ocorreram aquelas cenas demasiadamente degradantes para um Tribunal de tanta dignidade e respeito como era o Sinédrio, que além de ser uma corte com funções legislativas, influía em todas as atividades dos hebreus como um cérebro coordenador da religião, educação, saúde, relações públicas e do governo. Os seus membros eram escolhidos entre os principais partidos políticos e entre as melhores famílias e academias religiosas; deviam ser homens sem vícios, íntegros e de um passado respeitoso, além de hábeis linguistas e de abalizada cultura. Mas o astuto Hanan e seu genro Caifás, em romper o verniz da casta de homens probos e dignos, conseguiram os seus intentos, ao fazerem aqueles juízes julgar sem que vislumbrassem qualquer injustiça, desforra ou matreirice no seu julgamento contra o acusado. Jesus foi julgado sob um clima de respeito e retidão, pois, afora algumas expressões iradas de um ou outro juiz mais novo, que protestou contra o silêncio dele, como se fora uma atitude insultuosa, não lhe foram negligenciados os recursos de defesa ou do critério moral do "Tribunal Sagrado".

Não foram os juízes do Sinédrio que condenaram um Jesus inocente dos crimes que lhe imputavam, mas decorreu da prodigalidade de provas que o Sumo Sacerdote conseguiu aliciar para convencer aquela corte. Convictos de que o Sinédrio condenaria Jesus, em face do sumário de culpa vultoso, Nicodemus e José de Arimatéia, que tinham sido substituídos à última hora, ainda tentaram rápida audiência com Pilatos, na noite de quinta-feira, fazendo-lhe reverente apelo para que interferisse naquele julgamento que eles consideravam desfavorável ao acusado. Mas o Procurador de Roma, que jamais colocava as solicitações alheias sobre os seus próprios interesses, alegou que não poderia influir nos negócios religiosos do Clero Judeu, e fazia votos para que tais coisas fossem resolvidas satisfatoriamente sem a sua interferência. Ele não queria comprometer as relações algo turbadas entre romanos e hebreus, e deixava o assunto para ser resolvido estritamente pelo Sumo Sacerdote. Aliás, as provas contra Jesus eram sumamente comprometedoras e a sua situação ainda mais se agravara nos últimos momentos, ante a confissão de natureza muitíssimo grave, por parte de um dos seus discípulos mais íntimos, chamado Judas, filho de Simão Iscariotes! José de Arimatéia e Nicodemus ficaram estupefatos ante a notícia da terrível delação de Judas, e partiram desalentados, reconhecendo que a situação de Jesus começava a periclitar perante o próprio Procônsul de Roma!

PERGUNTA: - Podereis descrever-nos alguns dos principais acontecimentos ocorridos durante o julgamento de Jesus pela "pequena corte" do Sinédrio?

RAMATÍS: - Diante de uma sessão solene do "Tribunal Sagrado", depois de cumpridas todas as providências legais e asseguradas as prerrogativas de defesa e de direito do réu, Jesus seria então acusado por quem de direito e de justiça, com provas, testemunhos escritos e verbais, para ser absolvido, encarcerado ou sentenciado à morte, conforme os votos de culpa, de indulgência ou de piedade dos juízes.

Mas a corte de juízes não se mostrava muito interessada em julgar aquele homem pálido, febril e cambaleante, que fizeram sentar no banco dos réus e o faziam levantar, cada vez que lhe dirigiam a palavra. A noite estava sufocante e aqueles juízes haviam deixado o aconchego do seu lar para atender à convocação de "emergência" do Sumo Sacerdote, cujo poder e prestígio não convinha enfrentar. O Sumo Sacerdote Caifás, ostentando pomposamente as vestes sacerdotais, próprias das altas funções que ali ocupava, sentava-se no centro do espaço semicircular, para o qual convergiam ambas as bancadas dos juízes. Sob o traje de seda azul-claro, via-se-lhe a túnica do mais puro linho branco, cingida à cintura por um cinto de cor vermelho-escarlate e ornamentada por botões resplandecentes de pedra de ônix. Um vistoso turbante, também azul, encimava-lhe a cabeça, cujos bordados eram finamente trabalhados a fios de ouro; no peito fulguravam doze pedras preciosas, símbolo tradicional do poder e da glória das doze tribos de Israel. Finalmente, todo esse traje esplendoroso e rico de cores e adereços, completava-se por um par de sandálias de um vermelho-púrpura, onde se viam bordados com fios delicados de prata, que lhe corriam do peito do pé aos calcanhares. Estava cercado por 13 juízes de cada lado, os que deviam julgar; mais além, sentavam-se alguns discípulos dos Conselheiros, que também se versavam no conhecimento da Lei e aprendiam retórica, muito atentos às palavras e às opiniões dos maiorais. Abaixo, quase à frente do Sumo Sacerdote, sentavam-se os escreventes da corte; o da esquerda devia anotar todos os testemunhos contra o acusado e o da direita, para assentar o que lhe fosse favorável.

O acusado tinha o direito de se defender por suas próprias palavras; e, se não o fazia, era nomeado um defensor "ad hoc", que o próprio acusado podia aceitar ou recusar até que lhe fosse do agrado. No decorrer do julgamento, os juízes trocavam idéias, discutiam as fases do processo, buscavam opiniões e procuravam conclusões sólidas, lógicas, dignas e benevolentes; pediam aos escribas para lerem as acusações e as defesas. Examinavam e reexaminavam provas, testemunhos e argumentos; e, quando ainda havia dúvidas, não se procedia a votação!

PERGUNTA: - Como decorreu o julgamento de Jesus, que dizeis muito diferente do que nos relatam os evangelhos?

RAMATÍS: - Jesus não estava atado e lhe haviam oferecido um banco tosco, próprio de qualquer acusado por Lei. O suor escorria-lhe pela barba e sofria terrivelmente o efeito do profundo desgaste ocorrido no Jardim de Getsêmani, durante o transe mediúnico e a pródiga vertência de sangue. Febril e exausto, ele orava ao Pai rogando-lhe a graça de apressar aquele cerimonial da justiça humana para julgá-lo, pois bem sabia que ninguém tentaria absolvê-lo em face do acúmulo de provas contra si.

Seguindo o decoro exigido para aquele Tribunal, o Sumo Sacerdote, em voz oleosa e depois de ter dardejado felino olhar a Jesus, deu início ao julgamento, no qual era expressamente proibido se iniciar com qualquer acusação ao réu, pois tudo deveria ser feito na forma de inquirição tolerante e esclarecedora. Como era de praxe, o acusado devia se primeiramente favorecido com a opinião formal de qualquer um dos juízes presentes. Então, Caifás exclamou:

- Que se argumente em favor do acusado!

Satisfeito, reconheceu que Jesus seria julgado com a máxima indiferença, pois fizera o propósito de reunir a pequena corte àquela hora, para julgar um caso que bem poderia ser enquadrado como infração civil e ser então da alçada do tribunal ordinário e não religioso. Percebia a ansiedade dos juízes em terminar o mais breve possível a tediosa reunião; isso lhe daria o excelente ensejo de pouca argumentação na autópsia jurídica do caso, e maior positividade de culpa pelo efeito material das provas. Após alguns momentos de silêncio, um dos juízes anciãos formulou a sua opinião favorável ao acusado, como era de praxe, dizendo numa voz quase alheia ao motivo daquele tribunal:

- Declaro que a aparência, o estado físico e a angústia do acusado recomendam a este tribunal o mais alto princípio de comiseração e benevolência. O acusado não se revela o sarcasta, o cínico ou orgulhoso, mas treme febril à frente deste juízo sagrado! - Indulgência! - Rogo indulgência no julgamento!

Caifás mordeu os lábios, algo despeitado, mas depois verificou que o juiz autor da proposição recolhia-se a si mesmo, como se já estivesse a cochilar. Percorreu a fisionomia dos demais juízes e assinalou pequenas modificações nas fisionomias dos mais novos, enquanto os anciãos se mostravam impassíveis. Então, com repugnante doçura, mandou ler a peça acusatória e os relatos verbais, o que foi feito por um dos discípulos dos Conselheiros, espécie de promotor-relator sem interferência direta no julgamento, e que enunciou as provas e os testemunhos. Encerrada a peroração acusatória, Caifás, num tom solene e grave, assim se expressou a Jesus (5):

- Jesus de Nazaré, antes que esta corte te absolva ou te castigue, depois de esgotados todos os recursos de Lei em teu favor, conforme os testemunhos de amigos, asseclas e conterrâneos, feitos sob a lisura do Santo Ofício e por vontade dos que preferiram a verdade, o certo e o acontecido, sois acusado de sacrilégio, práticas maléficas, falsas curas, mistificações de milagres, inimigo da Lei mosaica, sacrílega intitulação de "Filho de Deus" e abominável de "Rei de Israel". Comprovou-se, e este Juízo investigou, que condenas publicamente as taxas, as oblatas e os sacrifícios a Jeová e tentas empobrecer a arca sagrada do Templo, pelos desmandos dos teus discípulos pisoteando vendeiros, bens e oferendas num dos maiores insultos contra o Clero Hebreu! Apresentas-te como o Messias Salvador, iludindo o povo com imposturas e promessas do Reino de Deus, pregando a verdade com a aparência do sobrenatural e de atos impossíveis, usas o entorpecente da fascinação para atrair as herdades das viúvas e dos órfãos e dos fanáticos; da sedução, para o domínio das donzelas!

Após breve hiato, para verificar o efeito candente de suas palavras nos demais juízes, tendo-os realmente despertado ante as enunciações gravíssimas, Caifás apanhou uma lâmina de cera, à sua frente, e passou-a para o promotor-relator, acrescentando sibilinamente:

- Que se dê conhecimento desta peça acusatória de suma importância no julgamento!

Pausadamente e num tom de voz impessoal, o relator leu o mais terrível testemunho que o Sumo Sacerdote havia adjudicado à culpa de Jesus, assim exprimindo:

- Declaro e confirmo que convivi e ainda convivo com Jesus de Nazaré, rabino galileu, chefe sedicioso do movimento dos "homens do caminho", e que ele pretende arrasar o Templo, tomar o poder de Israel, destruir os príncipes dos sacerdotes e os fariseus, extinguir o culto mosaico, abrir as portas de Jerusalém aos pagãos de Tiro e Sidon e expulsar os romanos!

Enquanto o próprio Jesus parecia despertar de sua letargia e erguia a cabeça em direção ao acólito de Caifás, então foi lido, sob acurada atenção de todos os juízes, o seguinte:

- Eu o disse e confirmo pela minha vontade e estado de espírito são: Judas, filho de Simão Iscariotes.

Jesus cerrou os olhos, um momento, enquanto doloroso suspiro romou-lhe o peito ante a infamante delação. Mas não era de ressentimento, nem de aflição, pois o próprio Caifás estremeceu, açoitado por um rápido vislumbre de remorso, ao ouvir Jesus dizer:

- Pobre Judas! Tu és o mais digno de piedade!

Caifás não deixou a exclamação do Mestre influir naquele juízo, pois, rápido, dirigiu-se a ele, proferindo num tom de suprema autoridade:

- Jesus de Nazaré; antes de se expor a Lei que te castigue ou te absolva, por força dos testemunhos e da confirmação de dignidade dos juízes desta casa, devemos ouvir tua defesa pessoal ou facilitar tua confissão!...

Jesus manteve-se silencioso, olhos baixos, orando mentalmente ao Pai e rogando-lhe forças para resistir até o fim à desfaçatez daquele homem afogueado pelo mais alto índice de hipocrisia. No entanto, o seu silêncio obstinado e a sua atitude humilde, mas serena, que antes fora motivo para um intercessão favorável, agora mexia com aqueles homens de boas intenções, porém humanos, imperfeitos e algo feridos no seu amor próprio pela indiferença do acusado. Eram peças de uma organização religiosa onde funcionavam sob uma influência oculta que não percebiam. Não tardaram os murmúrios de insatisfações e os comentários a meia voz, pelo desrespeito de Jesus ao tribunal; os juízes novos deixavam escapar exclamações abafadas de "provocador", "fátuo galileu" e que Caifás conseguia ouvir, satisfeito como a raposa experiente que aprecia o êxito de sua própria maquinação.

Súbito, Hanan cruzou um olhar com o genro Caifás, que lhe anuiu; e num tom de indignidade ofendida, assim exclamou:

- Embora o acusado insulte este Tribunal Sagrado por um silêncio orgulhoso, aprovando tacitamente os testemunhos acusadores e as provas da investigação de suas culpas, manda a Lei que seja defendido por quem de direito e não ser julgado sem defesa.

Escolhido o defensor pelo Tribunal e mantendo-se Jesus em silêncio, sem aprovar ou desaprovar a sua designação, então ele fez uma peroração, algo irritado, muitíssimo preocupado com os efeitos da retórica nos membros do júri e não com a substância da causa. Considerou que Jesus não passava de um maníaco religioso, espécie de homem demente e frustrado nas suas ambições messiânicas e extravagantes, que devia ser execrado e banido da Judéia, mas não sentenciado. O promotor e relator achou que o rabi da Galiléia era homem de bom tino, um caráter perigoso e dissimulador, bastante capaz de arregimentar seres insatisfeitos e sem vocação devocional, para causar distúrbios e prejuízos à santa causa de Moisés! O julgamento atingia a madrugada e a dissertação do defensor em nada mudou a situação de Jesus, mas a sua deliberada indiferença e mutismo selaram-lhe o destino naquele Tribunal. Feita a votação e exposto o resultado do escrutínio, "Jesus de Nazaré", rabi galileu e sedicioso inimigo da Lei", fora condenado por unanimidade, pela "pequena corte" do Sinédrio, e não lhe cabia apelação para recorrer ao Grande Conselho, uma vez que não tivera um só testemunho favorável e a votação fora unânime!

Hanan e Caifás desanuviaram a fisionomia, sem mesmo esconder a satisfação que lhes invadia a alma ante o êxito perfeito de sua maquinação, a serviço de outros poderosos de Jerusalém, a cuja atividade o Mestre Cristão lhes trazia sérios incômodos e prejuízos. Num arremate cínico, o Sumo Sacerdote exclamou:

- Levai-o! Jeová que se apiade do culpado!

Era regra acatada pelo Tribunal do Sinédrio que a sentença só fosse pronunciada no dia seguinte pelo Sumo Sacerdote. Aliás, os judeus tudo faziam para não executar um patrício, mesmo quando fosse condenado por cousas abomináveis; isso era sempre uma injúria à "cidade santa", embora, naquele caso, Caifás jamais se preocupasse com tal tradição, mas apenas em destruir o seu perigoso adversário!

Esse prazo poderia ser aproveitado pelos parentes, amigos ou interessados em inocentar o culpado, assim como as próprias testemunhas ainda poderiam retificar ou reconsiderar os seus testemunhos, caso admitissem terem-se equivocado. No entanto, Jesus não gozaria dessa regalia, pois a família do Sumo Sacerdote estava atenta para impedir ou desviar qualquer manifestação de solidariedade. No dia seguinte, sem dúvida, ele estaria defronte a Pilatos para ser julgado por sedicioso contra os poderes públicos. O seu destino estava selado; seria lapidado pelos judeus, ou crucificado pelos romanos!

PERGUNTA: - Que se passou com Jesus no dia de sexta-feira?

RAMATÍS: - Pela manhã de sexta-feira, ainda cedo, o chefe dos esbirros do Sumo Sacerdote mandou retirar Jesus do edifício de segregação pública, uma quadra adiante da casa onde ele fora julgado. Ataram-lhe as mãos e o levaram apressadamente à presença do Procurador Romano. Quase todos os apóstolos haviam desaparecido e temiam aproximar-se da prisão hebraica, onde ele estava retido. No entanto, Marcos, Tomé, Tiago e o tio de Jesus, quando interrogados pelos esbirros do Sinédrio, jamais negaram a sua condição de discípulos. Acompanharam-no à distância, seriamente preocupados com o que lhe iria acontecer.

Embora o motivo real que levou Jesus à morte fosse de natureza religiosa, além de julgado pelo Tribunal Sagrado do Sinédrio, a verdade é que o Sumo Sacerdócio colheu provas e material suficiente para culpá-lo sob as leis romanas e assim crucificá-lo por um crime de Estado! A lapidação, o estrangulamento ou sacrifício na fogueira eram os processos de punição aos que se rebelavam contra a Lei mosaica; mas a cruz era um suplício romano destinado a punir escravos, rebeldes, criminosos, ladrões ou conspiradores, o que lançava a ignomínia sobre a vítima. O Sinédrio poderia sentenciar quanto à lapidação e depois conseguir a confirmação do Pretório de Roma para executá-la; mas os procuradores romanos, em geral, fechavam os olhos a essas questões religiosas dos judeus, deixando-os algo livres para agirem conforme sua lei. Era um assunto particular e Roma saía mais beneficiada ignorando a morte de mais um judeu; mesmo por que isso era providência dos próprios patrícios.

Aliás, algum tempo depois da morte de Jesus, foi lapidado Estêvão, um dos seus seguidores, sob a custódia de Saulo de Tarso; e isso fora feito sem qualquer consulta à Procuradoria de Roma. Porventura, não havia o paradoxo de se lapidar as mulheres adúlteras, na rua, o que se fazia de imediato e sem autorização dos romanos? Mas Hanan, o verdadeiro mentor da tragédia do Gólgota, alma vil e vingativa, demonstrou a Caifás que Jesus, rabi da Galiléia, era um fascinador de multidões, aceito e reverenciado como um "reformador religioso", judeu; em consequência, se ele fosse lapidado pela sentença do Sinédrio, deixaria um rasto de encanto sentimental entre o povo e forte motivo para a reação no seio dos seus próprios asseclas. Era perigoso e desaconselhável cometer tal imprudência de atear-se um rastilho de vingança na Galiléia tão espezinhada por Jerusalém! Isso poderia arregimentar os galileus em uma força coesa e decidida contra o Poder Religioso, o que não seria muito desagradável ao Procurador de Roma, sempre deliciando-se com as lutas e os problemas religiosos dos hebreus. Assim como tantas vezes já tem acontecido na história do mundo, ponderava Hanan, em breve Jesus seria transformado num mártir para execração dos seus patrícios algozes! Obviamente, se as multidões lhe iam no encalço, é porque também seguiam suas idéias famigeradas contra a pompa do Sacerdócio jerusalemita e o luxo do Templo! Em consequência, morto o chefe do movimento cristão, nem por isso seriam liquidadas suas idéias. Era preciso evitar a auréola messiânica que se formaria em torno do "Salvador" de Israel, pois a multidão é versátil e muda rapidamente por um simples gesto que a encanta ou por uma palavra que a comove! E ante a indagação muda de Caifás, Hanan, seu sogros, esboçou um sorriso cínico na face cruel, exclamando pausadamente:

- Jesus de Nazaré não deve ser punido pela Lei de Moisés, mas pela de Roma!...

E ainda glosou, através de um sorriso sardônico: - Ele não deve ser executado pelos seus próprios compatriotas; mas "vilmente assassinado" pelos inimigos de nossa raça!...

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(5) Nota de Ramatís: - Seria muito fastidioso discriminar a longa peroração dos diversos personagens que participaram do julgamento de Jesus, inclusive Caifás, pois na época abusava-se da retórica, da verborragia e da altiloquência, para se enunciarem as coisas mais simples. Optamos apenas por um resumo essencial compatível com o espaço com que contamos nesta obra.


sábado, 30 de março de 2013

OSP - Capítulo XXIX - A Prisão e o Julgamento de Jesus, - Parte 2

(O Sublime Peregrino - pelo Espírito Ramatís - Psicografado por Hercílio Maes)

PERGUNTA: - Que nos dizeis quanto às palavras de Jesus, que Lucas e Mateus lhe atribuem na cena da recusa do cálice de amargura, no Horto das Oliveiras, assim expressas: "Pai, afastai de mim este cálice". Segundo alguns estudiosos dos evangelistas, isso se refere a um momento de vacilação do Amado Mestre?

RAMATÍS: - É óbvio que se isso ocorreu assim como narram os evangelistas, então só Jesus poderia ter explicado o acontecimento, uma vez que João, Tiago e Pedro, que se achavam ali perto, dormiam a sono solto e não poderiam ter ouvido tais palavras. Quanto aos demais apóstolos, achavam-se no celeiro da granja de Getsêmani, ao sopé da colina das Oliveiras.

Em verdade, a recusa do cálice de amargura, que a tradição religiosa atribui a Jesus, trata-se apenas de um rito iniciático dos velhos ocultistas, com referência à vacilação ou ao temor de toda alma consciente, quando, no espaço, se prepara para envergar o fardo doloroso da vida carnal. O "cálice da amargura" representa o corpo com o sangue da vida humana; é a cruz de carne, que liberta o espírito de suas mazelas cármicas no calvário das existências planetárias, sob os cravos da maldade, do sarcasmo e do sofrimento. Só a pobreza da imaginação humana poderia ajustar as angústias de um anjo, como Jesus, à versatilidade das emoções do mundo da carne. O espírito que já tem consciência de "ser" ou "existir", também está credenciado para decidir e optar quanto à sua descida à carne, podendo aceitar ou recusar o "cálice da amargura", ou seja, o vaso de carne humana. Quantas almas, depois de insistente preparo no mundo espiritual para encarnar-se na Terra, acovardam-se à última hora o obrigam os técnicos siderais a tomar medidas urgentes, para não se perder o ensejo daquela encarnação?

PERGUNTA: - Como ocorreu a prisão de Jesus?

RAMATÍS: - Jesus havia acordado os apóstolos Tiago, João e Pedro, quando ouviu o alarido que se fazia no sopé do Horto, em direção à granja de Jeziel. Em breve, surgiram diversos discípulos agitados e aos gritos, no encalço de um grupo de dez homens, que pararam à frente de Jesus. Eram oito soldados romanos armados de lanças e espadins e dois esbirros do Sinédrio, empunhando fortes bastões. O Mestre entrecerrou os olhos, certo de que era o início de sua paixão, mas, também, isso assinalava a abertura da senda para a sua mais breve libertação espiritual. Decidido e sem temor, deu um passo à frente, indagando:

- A que vistes, amigos?

Um dos esbirros judeus avançou e apontando Jesus, disse:

- Esse aí, é o rabi da Galiléia!

Os soldados então lançaram-se a ele e o manietaram com cordas, ante o protesto dos seus apóstolos e o desespero de Pedro, que, apanhando o espadim de um dos soldados romanos, irado, caiu sobre o mastim que apontara o Mestre, quase lhe decepando a orelha. Jesus, num esforço supremo, ainda interpôs-se, dizendo a Pedro:

- Devolve a tua espada, homem! Todos os que tomarem a espada, morrerão pela espada! Não somos culpados; mas devemos sofrer a injustiça humana com resignação!

Os soldados se entreolharam, fazendo o gesto de prender Pedro; mas o ferido era judeu; e, por isso, pouco importava. João, a mando de Jesus, ali mesmo colheu ervas anti-hemorrágicas e de um pedaço de linho fez uma venda eficiente em torno da orelha sangrante do esbirro. Bruscamente, os soldados empurraram Jesus à sua frente e o ladearam depois, levando-o manietado pelas cordas, cuja ponta um deles segurava. Desceram o caminho do Horto em direção à granja, esmagando azaléias, íris, jacintos e cravos. O Mestre seguia cabisbaixo, à luz dos archotes e das lanternas da patrulha sinistra; ao passar diante do varandão da casa de Getsêmani, acenou resignado para Jeziel e parentes e hóspedes que ali o esperavam. Todos tinham os olhos marejados de lágrimas, sentindo profundamente a prisão daquele amigo terno, pacífico e humilde, que, durante sua estada na granja, oferecera as mais formosas lições de elevação espiritual.

João tentou enlaçar Jesus e seguir com ele entre os soldados; mas estes o impediram disso empurrando-o para trás; Tiago, irmão de Maria, num momento de desespero, caiu de joelhos, implorando socorro a Deus; e o jovem Tiago, irmão do Mestre, desceu a encosta em desabalada carreira, em direção à cidade. Os demais apóstolos seguiam à distância, num estado de espírito arrasador e bastante surpresos de ainda não terem sido presos. Havia dois dias não se alimentavam a contento, agitados e assustados, toda vez que o portão da granja se abria para dar passagem a alguém. Refaziam-se, pouco a pouco, do incidente doloroso com o Mestre e o instinto conservador da carne começou a predominar-lhes no espírito. O fatal calculismo humano foi-lhes tomando conta, pois refletiam que nada poderiam fazer por Jesus; e que, ao contrário, talvez até o comprometessem num momento de perturbação diante dos astutos juízes do Sinédrio! Os sofismas do homem enchiam-lhes a alma numa justificativa capciosa, enquanto as vozes das sombras lhes aconselhavam a fuga imediata!

Quando Jesus chegou à cidade, diante da casa do Sumo Sacerdote, apenas Tiago, irmão de João, Tomé, Tadeu e Mateus ainda se conservavam a certa distância, enquanto os demais apóstolos, aterrorizados, haviam voltado para Getsêmani, ou se dispersado pelo caminho. Pedro saíra a correr, em busca de José de Arimatéia, a fim de comunicar-lhe o sucedido e pedir-lhe socorro.

PERGUNTA: - Porventura, Judas não se achava presente durante a prisão de Jesus?

RAMATÍS: - Judas não retornou mais para o Getsêmani, nem teve coragem de enfrentar o seu Mestre, pois já havia concorrido para a sua prisão, embora a sua famigerada traição não tenha se sucedido conforme narram os evangelistas. Depois do fracasso da marcha a Jerusalém, em que ele fora um dos mais entusiastas organizadores, aliando-se estupidamente aos próprios esbirros do Sinédrio, ali distribuídos para fomentarem a perda de Jesus, ainda continuou a gozar da amizade dos mesmos sacerdotes que ele vivia tentando aliciar para o movimento cristão. O Sumo Sacerdote Caifás conhecia todos os passos de Judas e o acalentava nas suas ingênuas pretensões. Ele possuía "passe-livre" do Sinédrio para transitar por Jerusalém sem ser incomodado, fato que, havia dias, vinha lançando desconfianças aos demais apóstolos, pois eles não se aventuravam a se por muito a descoberto, pelas ruas. Alguns dissídios já haviam sido acalmados por Jesus, entre os seus discípulos, em face de Judas não dar satisfações de suas saídas estranhas e frequentes.

Na quinta-feira, pela manhã, Judas recebeu um amável convite do sacerdote Esdras, para comparecer à casa de Caifás e prestar-lhe o favor de alguns esclarecimentos. Adorador incondicional dos poderosos, e sentindo-se lisonjeado por essa deferência do Sumo Sacerdote, o que muito satisfazia à vaidade, apressou-se em atender ao privilegiado convite. Quando penetrou no vasto salão, onde naquela mesma noite Jesus seria julgado, estranhou que Hanan e Caifás também estivessem cercados de toda a família sacerdotal e mais alguns parentes, que se entreolharam significativamente. Convidado a sentar-se, o velho Hanan, ex-Sumo Sacerdote, mas o cérebro de todas as tramas sacerdotais, sem muitos rodeios, historiou a Judas a situação irremediável de Jesus e fez-lhe ver a ordem de prisão, já exarada pelo Sinédrio, que só dependia de uma guarda romana para ser efetivada, conforme era de praxe. Em seguida, insinuou-lhe que os asseclas mais implicados junto ao subversivo rabino da Galiléia, poderiam ser crucificados pela lei romana, como sediciosos, não escapando a Judas o tom de advertência quanto a ele mesmo. Judas mostrou-se inquieto, atemorizado e sumamente nervoso, como era próprio do seu temperamento indócil, e começou a perder o controle emotivo ante aquela inquirição macia à superfície, mas agudamente espinhosa na sua profundidade. Então, foi convidado a dizer tudo o que sabia sobre Jesus, desde o início das suas pregações na Galiléia, a sua influência no povo, o contato com os pagãos, a marcha sobre Jerusalém, a pretensa tentativa de depredações no Templo e, principalmente, a extensão da animosidade contra os sacerdotes jerusalemitas.

Em seguida, Hanan oferecia-lhe os meios de Judas sair da Judéia, fornecendo-lhe provisões e pequena fortuna, protegendo-o até a fronteira do Egito, assim que satisfizesse todas as inquirições e assinasse aquela investigação de rotina. De princípio, o infeliz apóstolo negaceou e fugiu de qualquer resposta que pudesse comprometer Jesus; mas era um temperamento incontrolável, pusilânime e de pouca resistência moral. Acossado por todos os lados e sob o turbilhão de perguntas capciosas dos membros da família de Hanan, apanhado em contradições perigosas e traindo-se cada vez mais diante daqueles homens sabidos e espertos, astutos e implacáveis em seus desígnios, Judas perdia terreno facilmente. Enfim, aterrado pela ameaça de imediata lapidação como profanador e perjuro, quando deu por si já havia fornecido dados comprometedores, embora falsos, e assinado uma confissão, onde a inverdade e a infâmia forjadas por aqueles homens vingativos transformaram-se na peça acusatória mais eficiente para eliminar o generoso rabi da Galiléia. A confissão de judas, mais tarde, impressionou e convenceu profundamente o juízes do Sinédrio e causou espécie ao próprio Pôncio Pilatos. Em seguida, o Sumo Sacerdote mandou um beleguim dar a Judas uma bolsa de moedas, capciosamente oferecida como prêmio ao seu "testemunho" de livre e espontânea vontade, dado à justiça do Sinédrio. Judas, pálido, olhos febris e terrivelmente angustiado pelas acusações que já se avivavam na sua própria consciência, mirou aquelas criaturas astutas, que o fitavam de modo desprezível pela sua delação. E quase inconsciente do que fazia, apanhou a bolsa de moedas; mas, num gesto alucinado e num grito cruciante da própria alma, atirou-a com horror aos pés do esbirro, fugindo loucamente por entre a luxuosa cortina de veludo do salão de Caifás.

A prova mais evidente de que Judas não premeditou a sua traição a Jesus, tendo sido vítima das circunstâncias adversas criadas pela sua imprudência, está no fato de ele não ter resistido mais de três dias ao seu pavoroso remorso e terminando por enforcar-se. Uma alma vil, daninha e maldosa, que agisse por pura ambição, ciúme ou vingança, também seria suficientemente insensível para continuar a viver depois da sua traição. Ele traiu o seu querido Mestre por medo, estupidez, ignorância e ingenuidade, além do seu infeliz equívoco de adorar os poderosos e confiar nos velhacos!


sexta-feira, 29 de março de 2013

OSP - Capítulo XXIX - A Prisão e o Julgamento de Jesus - Parte 1

(O Sublime Peregrino - pelo Espírito Ramatís - Psicografado por Hercílio Maes)

PERGUNTA: - Em face da ligação histórica do Horto das Oliveiras à vida de Jesus, poderíeis dar-nos algumas particularidades a esse respeito?

RAMATÍS: - O Horto das Oliveiras, também conhecido como o Bosque das Oliveiras, ou Jardim de Getsêmani, em Jerusalém, era um pequeno estabelecimento agrícola, onde se faziam as plantações experimentais dos mais variados tipos de flores e vegetais para o consumo caseiro e aplicações terapêuticas, além do cultivo de especiarias para o condimento industrial e consumo caseiro. Ali se desenvolviam sementes, mudas e espécies de vegetais provindos de quase todas as partes do mundo, desde Ceilão, Egito, Armênia, Pérsia, Índia, Gália, Síria, Grécia e até de Roma. Mas  a espécie mais cultivada era a oliveira, que produzia a oliva ou azeitona, da qual se extraía o azeite de oliva pelo processo das prensas primitivas. As oliveiras davam bom resultado para os arrendatários do Horto de Getsêmani, e que na época de Jesus era atributo da família de Jeziel, seus conterrâneos e velhos amigos da Galiléia.

Ambas as encostas do Horto eram cobertas de um pequeno bosque dessas árvores, de sombra agradável a muitos forasteiros que acampavam pelas suas imediações. Desde a granja, distante um tiro de pedra da entrada do bosque, todo o terreno disponível estava criado de caminhos e canteiros, onde desabrochavam mudas e sementes de flores e vegetais, separadas das especiarias picantes, aromáticas e amargosas.

A partir do sopé do Jardim das Oliveiras, do lado oposto de Jerusalém, nascia o vale de Cedron, para onde corria o sangue dos animais sacrificados no Templo, em direção ao rio Siloé, através de valas repugnantes. O terreno era fértil e de bom adubo para os canteiros muito bem cuidados pelos servos de Jeziel, que os faziam quase ao sopé do Horto. Ali semeavam-se e cultivavam-se as flores mais preferidas pela aristocracia judaica e romana, assim como as espécies destinadas para as oferendas do Templo. Cresciam ranúnculos, lírios do vale, íris violáceos e íris de açafrão; papoulas como cálices de fogo vivo, jacintos azuis e sonhadores, pendendo de formosos cachos; cravos vermelhos como rubis e brancos como o linho de Tiro; narcisos do brejo nutridos pelo lodo do Jordão ou do campo, brotados sob o afago da brisa e da vitalidade do Sol. As azaléias coloridas, procedentes da China, pintalgavam os canteiros de belos matizes em afrontosa promiscuidade com os jasmins azuis, amarelos ou róseos, que exsudavam um perfume embriagante.

Na ala que se inclinava formando a encosta das oliveiras voltadas para Jerusalém, alinhavam-se os canteiros de especiarias repletos de sementeiras, plantas, bulbos, palmas, gavinhas, hastes e cipós estranhos. Havia arbustos de açafrão amarelo-citrino ou vermelho-púrpura, abrindo-se em folhas compridas e arroxeadas, aconselhadas para os males da asma, melancolia ou histeria; a hortelã da Grécia, de sabor apimentado, própria para acalmar os vermes, ou de cheiro, trazida da Gália longínqua, e que fornecia medicação para o estômago, o cérebro e o coração. À distância, rescendia a fortidão do cominho da Armênia, da Índia e mesmo de Roma, tão odiada; aqui, dominava a alfazema cheirosa; ali, a noz-moscada ou a canela de Ceilão; acolá, dedos de vegetais retorcidos exalavam o aroma do gengibre picante. Eram perfumes doces, cheiros, fortes e excitantes, que se misturavam aos sabores agrestes e amargosos, acasalando-se ao odor estranho da pimenta da Índia e aroma atraente, mas queimante, da pimenta negra da Pérsia.

Do cimo do Jardim das Oliveiras, podia-se ver o rio Jordão coleando como preguiçosa serpente prateada entre o verde claro e macio da planície; à distância repousava o Mar Morto emoldurado pelas clinas da Galiléia, ou cintilavam os lagos beijados pelo Sol caricioso. Entre as flores formosas e os canteiros de especiarias exóticas e odorantes, Jesus descansou seus últimos dias no mundo, quer preparando-se para o arremate trágico e messiânico de sua obra, como a despedir-se da própria Natureza que ele tanto amou. O Senhor concedeu-lhe o ensejo de gravar na sua retina espiritual e antes da crucificação, os contornos familiares das montanhas, dos caminhos e dos lagos, que lhe serviram de tribuna para a prédica do Evangelho da redenção humana.

PERGUNTA: - Como se sucederam os últimos dias de Jesus no Jardim das Oliveiras? Quais as semelhanças com a narrativa dos evangelistas?

RAMATÍS: - Na quinta-feira, Jesus foi beneficiado com a presença de alguns amigos fiéis, que o visitaram apreensivos e pesarosos, pelo que poderia lhe acontecer de grave, pois as notícias na cidade eram bem desagradáveis. Entre eles vieram Simão de Betânia e o seu parente Eleazar, mensageiros fraternos de Maria Sara, Maria de Magdala, Verônica, Joana, Salomé e outra mulheres que desejavam visitá-lo no seu retiro de Getsêmani, ansiosas para acalmarem seus corações aflitos ante os boatos assustadores. O Mestre então pediu a Simão para explicar que ele se retraía a qualquer contato muito emotivo e sentimental, pois sentia-se debilitado em suas forças psíquicas e se preparava para os acontecimentos vindouros.

Simão procurou animá-lo com argumentos otimistas, mas Jesus insistiu que a sua hora era chegada, pois em breve seria levado diante do tribunal da justiça do mundo para dar testemunho de sua vida e confirmação de sua obra pela salvação da humanidade. Recomendava lembranças a Maria, fiel e querida companheira que se achava gravemente enferma em Betânia; despedia-se de todos os amigos por intermédio de Simão e predizia um feliz encontro para mais tarde no Reino de Deus. Simão tinha os olhos rasos de lágrimas fitando Jesus com pesarosa ternura, pois bebia-lhe os gestos e as palavras. Era criatura de coração magnânimo e de elevada condição espiritual, certo de que se despedia para sempre do seu benfeitor e generoso amigo.

Jesus não quis prolongar aquele encontro terno e pesaroso; enlaçou afetuosamente Simão e Eleazar, e puseram-se a caminhar em direção ao portão da granja, o qual se abria para os lados do vale do Cedron. Após sentidos abraços de que também participaram Pedro, João, Tiago e tomé, então separaram-se os velhos amigos de Betânia. Ao longe, Simão e Eleazar ainda acenaram mais uma vez e depois desapareceram rumo a Jerusalém. À tarde, inesperadamente, chegaram Nicodemus e José de Arimatéia, cujas fisionomias preocupadas revelavam más notícias. Sem esconderem o seu estado aflitivo, comunicaram ao Mestre que a sua prisão estava por horas, e se até aquele momento não o haviam prendido, fora devido ao receio do Sumo Sacerdote, que temia a reação pública da multidão, que muito o estimava (1). Ademais, todos os membros componentes da pequena corte do Sinédrio haviam sido substituídos e acrescidos de suplentes jovens, juízes de simpatia de Caifás, que assim eliminava quaisquer adesões a Jesus, na probabilidade do seu julgamento. O velho Hanan e Caifás, seu genro, dispunham de farta messe de provas contra ele, colhida dos falsos testemunhos comprados a peso de ouro e fruto das delações obtidas sob terríveis ameaças. Jesus devia afastar-se de Jerusalém o mais rápido possível, pois apesar da lisura e do decoro dos juízes do Sinédrio, o julgamento seria efetuado sob a influência matreira e aguçada da família de Caifás. Ninguém mais poderia salvar o rabi da Galiléia, a não ser o Sumo Sacerdote, cousa impossível, pois este desejava-lhe a morte a qualquer preço! Fontes oficiais haviam informado que Pôncio Pilatos já estava se convencendo de que o fracassado movimento sedicioso dos galileus teria sido contra as autoridades romanas.

Jesus ouvia as trágicas notícias de José e Nicodemus, ambos juízes íntegros do Sinédrio, que lamentavam a impossibilidade de votar, e agradeceu pelo seu afetuoso interesse. Sem demonstrar qualquer pesar ou ressentimento por aqueles que o queriam matar, exclamou numa voz terna e de compreensivo perdão.

- "Obrigado, amigos meus! Não temo a morte, nem como ela me venha; porque vejo que passarão os homens, mas as minhas palavras permanecerão. É preciso que o filho do homem dê o sangue pela salvação do próprio homem; que a submissão à morte seja o preço e a força da própria vida, pois a luz do Espírito ilumina a sombra do corpo. Minha hora é chegada pela vontade do Pai que está nos céus; mas não se fará pela obstinação dos homens!"

Súbito cerrou de falar, como se ouvisse algo do imponderável; Nicodemus e José de Arimatéia baixaram os olhos para o solo ante aquele silêncio respeitoso. Em seguida, numa decisão em que não pôde esconder a dor pungente da despedida, Jesus arrematou:

- "Ainda que vos separei de mim pela carne, eu permanecerei convosco em espírito, porque o templo do Senhor estará por toda a Terra e o seu altar em todos os corações. Quando qualquer um de vós me buscar, eu ali estarei, porque eu vou em nome de meu Pai e em Seu nome eu voltarei."

Achegaram-se ao portão da granja, enquanto os demais apóstolos ficavam à distância, e ali se abraçaram na mais terna despedida entre corações amigos.

PERGUNTA: - Qual é a realidade dos "momentos aflitivos" de Jesus no Horto das Oliveiras, segundo os relatos dos Evangelistas?

RAMATÍS: - Quando Jesus foi crucificado, a sua auréola messiânica quase apagou-se, pois naqueles dias trágicos sumiram-se parentes, amigos e discípulos, ante o terror de serem crucificados. Mas, à medida que foram decorrendo os dias, a figura do Mestre Amado foi-se avultando, emergindo do seu martírio, assim como a planta renasce das próprias raízes depois de cortada. Em breve, sua vida e sua morte eram motivos que centralizavam os sonhos de seus adeptos e amigos, fazendo-os cultuar-lhe a memória consagrada pelas bênçãos dos seus ensinos e fidelidade de suas idéias. Os compiladores dos evangelhos, segundo os apóstolos, então cercaram-lhe a personalidade de reformador moral e religioso, de fatos e acontecimentos melodramáticos, além dos prodígios, para adaptarem sua vida às predições exaltadas do Velho Testamento. Reviram-lhe a vida e o que era singelo se tornou altiloquente; o natural, humano e lógico transformou-se em cenas milagreiras, divinas e insensatas. Acrescentaram à vida de Jesus tanto os sentimentalismos humanos e infantis, como as suas concepções fantasistas e a crença no miraculoso! Criaram o mito e eliminaram o homem; fizeram um Deus e o distanciaram da humanidade!

No Horto das Oliveiras, o Mestre Amado realmente viveu os seus últimos instantes de liberdade física no mundo e as angústias de um espírito que se elegia para o holocausto em favor do gênero humano, mas ainda temia não poder cumpri-lo de modo a firmar as bases sólidas de sua doutrina. Em verdade, ali ocorreram fenômenos de alta excelsitude com respeito a Jesus, dos quais ele saiu combalido e mal suportando o desgaste humano!

PERGUNTA: - Podeis dizer-nos o que ocorreu na quinta-feira a Jesus e seus apóstolos?

RAMATÍS: - Conforme dissemos, durante o dia diversos amigos, adeptos e parentes de Jesus o visitaram na granja de Gethsemani, trazendo-lhe  notícias alarmantes e alguns se propondo a tirá-lo de Jerusalém. Após a oração das seis horas e frugal refeição, em que Jesus mal tocou nos alimentos, ele deliberou subir ao Horto, e de lá usufruir um pouco da beleza da noite estrelada, que chegava silenciosamente. Estava quente e um forte mormaço prenunciava chuva para a madrugada; os apóstolos, além de aflitos e atemorizados, estavam cansados. O Mestre saiu do seu pequeno aposento; e, ao passar diante do celeiro grande, viu-os recostados pelos fardos de feno, deitados sobre as mantas e peles de carneiro; suas fisionomias atribuladas traíam as reflexões mais dolorosas. Bartolomeu e Filipe, que haviam dito os mais lúgubres vaticínios para o movimento cristão, ali se encontravam pálidos e arrasados; Simão Cananeu não controlava os seus movimentos nervosos; Tomé, crente sincero na obra do homem e descrente da revelação divina, parecia conformado com aquele final bem humano; Tadeu e André tinham o olhar absorto e seus espíritos deviam vagar pela Galiléia, revendo paisagens de infância e sonhando com o lar pacífico e amigo. Mateus, homem organizado e sensato, parecia alheio ao perigo iminente, pois ouvia, sorridente, a prosa ingênua e jovial de Tiago, filho de Alfeu. Judas havia desaparecido desde as primeiras horas da manhã de quinta-feira, e ninguém mais o viu, causando estranheza o fato de ele vagar por toda a cidade sem qualquer impedimento, embora alegasse que ninguém o reconhecia como discípulos de Jesus. João, Tiago e Pedro, à vista de Jesus, levantaram-se precipites para companhá-lo a qualquer lugar. Mas o Mestre achegou-se aos seus apóstolos e o seu olhar compassivo, mas enérgico, terno e estimulante, percorreu-os um a um, ali, à sua frente. Havia um fardo de feno a seu lado, que por curiosa coincidência era o extremo do círculo daquela fila de homens sentados, recostados e vencidos pela fraqueza espiritual e pela exaustão corporal. Sentou-se à frente dos mesmos, condoído de suas debilidades humanas e mal preparados para os embates gigantescos do espírito imortal; eles haviam agravado a sua situação devido à imprudência de darem ouvidos à voz das sereias subversivas, que nutriram no seio do movimentos cristão as exaltações perigosas, arruaças e tentativas violentas contra os poderes públicos.

Jesus então compreendeu que era preciso animá-los, vitalizando-lhes as forças abatidas, e contagiá-los de modo a não subestimarem a mensagem do Evangelho salvador do homem. Precisaria transmitir-lhes forças espirituais para ajudá-los a enfrentarem os seus destinos duros e suportarem as misérias e defecções humanas, no futuro. Sentiu-se enlevado por generoso bálsamo em sua alma; uma voz amiga ciciava-lhe nos ouvidos os termos de conforto e esperança àquela gente. Tocado por essa inspiração superior, ergueu-se, e num tom profético e vibrante, assim lhes disse:

- "Não vos desespereis; eis chegada a hora em que o filho do Homem será entregue nas mãos dos pecadores; mas dormi e descansai, pois só o Pastor será motivo de escândalo; as ovelhas do rebanho não perderão o seu redil. Não vos será tirada a Galiléia, porque o vosso testemunho ainda não pede a prova do sangue do corpo, mas apenas o tributo sagrado do espírito. Dei-vos as palavras que Deus me deu; o Pai glorifica-me a mim e em vós mesmos, na manifestação do Seu nome entre os homens. Eu acabarei a obra que o Pai me encarregou e não temo deixar o mundo a que vim porque torno outra vez ao reino de Deus que está nos céus!"

Aguardando o efeito otimista e confortador das suas palavras dirigidas aos discípulos, que então se mostraram animados e esperançoso, Jesus arrematou, consolidando-lhes aquele estado de confiança:

- "Vós me credes? Pois é chegada hora em que sereis espalhados, cada um para sua parte; eu ficarei só, mas o Pai estará comigo! Tende confiança no que vos digo; vós haveis de ter aflições no mundo; porém, ainda não é chegada a vossa hora e vereis os que são da vossa carne, pois com eles ainda vivereis."

Os apóstolos se entreolharam, surpresos, mas confiantes; súbito, deram por si, que Jesus se encaminhava, como de costume, para orar no cimo do Horto. Então ergueram-se, num só gesto, para acompanhá-lo; mas ele os susteve, dizendo afetuosamente:

- "Assentai-vos aqui, enquanto eu vou acolá e faço oração" (2).

Mas Pedro, João e Tiago não se deram por vencidos e seguiram o Mestre subindo pelo caminho florido do Horto, enquanto os demais companheiros, algo fatigados, continuaram à frente do celeiro, alguns acendendo lanternas e outros, archotes. Mas o Mestre jesus, que havia fornecido tanto ânimo e esperanças, subitamente, passou a angustiar-se sob a tensão oculta de pesada responsabilidade. Não era o medo do homem ante a perspectiva da morte, pois ele sentir-se-ia ditoso em retornar ao seu mundo paradisíaco. Também não se entristecia de deixar a Terra, na qual não possuía outros vínculos além de sua renúncia e o seu amor ao gênero humano. Mas apesar de sua resignação e conformação, pressentia que o seu próximo testemunho seria de grandiosa influência para a redenção do homem. Sábio, Justo e Bom, mas submerso na matéria, Jesus ignorava como se portaria nessa prova excepcional de cujas consequências dependeriam o êxito e a sobrevivência de sua obra evangélica.

Deixando João, Tiago e Pedro a meio caminho, pois desejava orar a sós, alcançou o cimo do monte das Oliveiras, e ali descansou alguns minutos na mais santa comunhão espiritual com a Natureza. Sob a excelsa vibração que lhe influenciava a alma, pôs-se a reviver todos os seus passos assinalados no mundo material. Recordava os seus sonhos grandiosos de amor pela humanidade e a sua paixão ardente pelo Senhor da Vida, agasalhados desde a mais tenra infância e alentados até aquele profético momento. Jamais alguém no mundo consumiu-se anto no fogo do amor ao próximo e no sacrifício pela Verdade. O Mestre Jesus foi arrebatado por tão grandiosa e indefinida emoção, que prostrou-se de rosto na terra, como se desejasse fundir a sua natureza espiritual com a substância do mundo que lhe compunha o próprio corpo carnal. Depois, abriu os olhos para a noite quente e estrelada, envolto por infinita paz. Mas, de súbito, sentiu-se, pouco a pouco, transformado num frondoso arvoredo pejado de ramos carregados de folhas e frutos, que amparavam todos os infelizes e injustiçados do mundo ali chegados em busca de sua sombra dadivosa. Sob a assistência do Alto, Jesus reviu nessa ideoplastia mediúnica o "motivo fundamental" de sua própria vida na matéria, ante o compromisso fabuloso que assumira antes de descer à carne, pois essa árvore protetora nutria-se com o adubo fértil do seu próprio sangue vertido no martírio.

Embora angustiado, sentiu-se extremamente feliz ao comprovar que sobreviveria a sua obra evangélica redentora da humanidade, malgrado isso lhe exigisse o holocausto da vida e a doação de seu sangue. Represando as próprias emoções de anjo exilado na carne, Jesus, então, sentia-se como um "canal vivo" ou o "élan" da salvação dos homens, enquanto crescia-lhe a imensa dor espiritual ante a dúvida angustiada de não corresponder integralmente à vontade do Senhor. Prosternando-se novamente no solo, de mãos postas, exclamou com todo o fervor de sua alma: "Pai meu! Que se cumpra a vossa vontade; eu não temo o martírio e a morte, porém, ajuda-me a conhecê-los para saber enfrentá-los".

Novamente, sublime vibração sideral tomou-lhe a alma e o seu espírito parecia libertar-se cada vez mais das formas agrilhoantes da carne; súbito, sua mente foi atingida por repentino fulgor ou rápido relâmpago, enquanto se clarificava na sua consciência física a silhueta trágica de três cruzes erguidas no cimo de uma colina. Envolto por augusto silêncio, ele percebia nesse novo transe, a forma da Terra e os contornos das cidades, onde os homens dormiam tranquilamente; mas ele, Jesus, é quem realmente velava por esse sono ditoso dos terrícolas, suspenso entre o reino do espírito e o mundo da matéria, com seus braços abertos e atados sobre uma cruz. Porém, ultrapassando aquela dor extrema e inumana, que o desprendia da carne, e vibrando sob o elevado impacto de voltagem sideral, ele sentia, então, na própria alma, estranho fenômeno que absorvia toda a vivência interna. Num extremo, a pulsação e o rodopiar dos astros, das constelações e galáxias; e, noutro extremo, o vibrar dos átomos no seio das moléculas das flores, dos vegetais e da substância terrena. Ouvia o estranho turbilhão dos mundos pejados de civilizações, rodopiando em torno dos seus sóis, e, ao mesmo tempo, o ruído estranho da seiva a subir no caule dos vegetais. Jesus, num átimo de segundo, abrangeu o macrocosmo e o microcosmo, consciente de sua força e do seu poder, da sua sabedoria e da sua glória.

Esse fenômeno acontecido com Jesus, conhecido entre os hindus como o "samadhi" e entre os ocidentais como o "Êxtase!, é um rápido fulgor da verdadeira vida espiritual do ser quando atinge o Nirvana, a comunhão com o Pai, embora sem perder sua individualidade sidérea. Em tal momento, fundem-se as distâncias, o tempo e o espaço convencional da mente humana limitada, enquanto a alma abrange consciente perceptível, tanto a vida do macrocosmo, como a do microcosmo, fundindo-se na sua intimidade as constelações dos astros com as constelações dos átomos, pois a matéria é o "Maya", a Ilusão, e só o Espírito é a Verdade!

Mas a composição ideoplástica da visão das cruzes no Calvário, quase sustou a vida carnal de Jesus, devido ao potencial de força espiritual que foi mobilizado para transformar as idéias próprias do mundo do Espírito, nas imagens que pudessem ser reconhecidas na tela do seu cérebro físico. O cérebro ardia-lhe pelo impacto sidéreo, além da sua capacidade humana de resistência, enquanto os nervos estavam frouxos, desgastados e o sangue superativado pela alta pressão que ameaçava romper os vasos cerebrais. Súbito, num esforço heróico empreendido pela própria natureza carnal, a corrente sanguínea efervescente foi drenada pelas glândulas sudoríparas; e grossas bagas de suor e sangue caíram ao solo, deixando o Mestre frontalmente exaurido em suas forças vitais (3).

Voltou a si completamente debilitado, pois consumira naquele momento alguns anos de sua existência física, exaurindo o comando do cérebro esgotado. Deli por diante, só se manteria vivo à custa de recursos vitais fornecidos pelos seus amigos habitantes do reino espiritual. Ergueu-se, levando a mão ao peito, cambaleante; em seguida, pôs-se a descer lentamente o caminho da granja, chegando junto a Pedro, que ressonava alto, recostado num tronco de oliveira, enquanto João e Tiago, cabeça apoiada nos braços, também dormiam a sono solto. Devia passar das oito horas; então sentiu-se inquieto, certo de que sua noite seria de insônia; por isso resolveu retornar mais uma vez ao cimo do Bosque sem acordar Pedro, Tiago e João. Uma leve aragem levantou o perfume das azaléias, narcisos e jacintos dos canteiros a seu lado, afagando-lhe as faces úmidas; de mãos postas, pôs-se a orar outra vez ao Pai.

Finalmente, decidiu repousar, achegando-se outra vez junto dos três discípulos que ainda dormiam pesadamente; então os acordou suavemente, dizendo-lhes: "Dormistes e descansastes; agora acordai, que é chegada a hora da despedida, pois o Filho do Homem será entregue nas mãos dos pecadores! Levantai-vos, porque já vêm chegando aqueles que hão de me levar para o cumprimento da vontade do Senhor! (4).

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(1) "E quando procuravam prendê-lo, tiveram medo do povo, porque este o tinha na estimação de um profeta." (Mateus, cap. XXI, v. 46).
(2) Mateus, XXVI - 36.
(3) "E posto em agonia, orava Jesus com maior instância. E veio-lhe um suor, como que gotas de sangue, que corria sobre a terra." (Lucas, XXII - 43 e 44).
(4) Mateus, cap. XXVI - 45 e 46.