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terça-feira, 19 de maio de 2015

Jesus no Lar - Capítulo 04 - A lição da semente

(Jesus no Lar. Chico Xavier/Espírito Neio Lúcio. Editado pela FEB - Federação Espírita Brasileira.- 37a edição. 2012.)


Diante da perplexidade dos ouvintes, falou Jesus, convincente:

- Em verdade, é muito difícil vencer os aflitivos cuidados da vida humana. Para onde se voltem nossos olhos, encontramos a guerra, a incompreensão, a injustiça e o sofrimento. No templo, que é o lar do Senhor, comparecem o orgulho e a vaidade nos ricos, o ódio e a revolta nos pobres. Nem sempre é possível trazer o coração puro e limpo, como seria de desejar, porque há espinheiros, lamaçais e serpentes que nos rodeiam. Entretanto,a ideia do do Reino divino é assim como a semente minúscula do trigo. Quase imperceptível é lançada a terra, suportando-lhe o peso e os detritos, mas, se germina, a pressão e as impurezas do solo não lhe paralisam a marcha. Atravessa o chão escuro e, embora dele retire em grande parte o próprio alimento, o seu impulso de procurar a luz de cima é dominante. Desde então, haja sol ou chuva, faça dia ou noite, trabalha sem cessar no próprio crescimento e, nessa ânsia de subir, frutifica para o bem de todos. O aprendiz que sentiu a felicidade do avivamento interior, qual ocorre à semente de trigo, observa que longas raízes o prendem à inibições terrestres... Sabe que a maldade e a suspeita lhe rondam os passos, que a dor é ameaça constante; todavia, experimenta, acima de tudo, o impulso de ascensão e não mais consegue se deter. Age constantemente na espera de que se fez peregrino, em favor do bem geral. Não encontra seduções irresistíveis nas flores da jornada. O reencontro com a Divindade, de que se reconhece venturoso herdeiro, constitui-lhe objetivo imutável e não mais descansa, na marcha, como se uma luz consumidora e ardente lhe torturasse o coração. Sem perceber, produz frutos de esperança, bondade, amor e salvação, porque jamais recua para contar os benefícios de que se fez instrumento fiel. A visão do Pai é a preocupação obcecante que lhe vibra na alma de filho saudoso.

O Mestre silenciou por momentos e concluiu:

- Em razão disso, ainda que o discípulo guarde os pés encarcerados no lodo da Terra, o trabalho infatigável no bem, no lugar em que se encontra, é o traço indiscutível de sua elevação. Conheceremos as árvores pelos frutos e identificaremos o operário do Céu pelos serviços em que se exprime.

A essa altura, Pedro interferiu, perguntando:

- Senhor, que dizer, então, daqueles que conhecem os sagrados princípios da caridade e não os praticam?

Esboçou Jesus manifesta satisfação no olhar e elucidou:

- Estes, Simão, representam sementes que dorme, apesar de projetadas no seio dadivoso da terra. Guardarão consigo preciosos valores do Céu, mas jazem inúteis por muito tempo. Estejamos, porém, convictos de que os aguaceiros e furacões passarão por elas, renovando-lhes a posição no solo, e elas germinarão vitoriosas, um dia. Nos campos de nosso Pai, há milhões de almas assim, aguardando as tempestades renovadoras da experiência, para que se dirijam à glória do futuro. Auxiliemo-las com amor e prossigamos, por nossa vez, mirando a frente!

Em seguida, ante o silêncio de todos, Jesus abençoou a pequena assembleia familiar e partiu.



segunda-feira, 23 de junho de 2014

A Matéria...

(palavras de Odilon Fernandes a Inácio Ferreira em "Fundação Emmanuel")

"(...) Na Criação Divina, a matéria é uma espécie de excrescência, que cabe ao espírito, em contato com ela, sublimar."


sábado, 19 de janeiro de 2013

O Evangelho Segundo o Espiritismo - Capítulo II - 1 a 3 - Meu Reino não é Deste Mundo

1. Tendo Pilatos entrado de novo no palácio e feito vir Jesus à sua presença, perguntou-lhe: És o rei dos judeus? - Respondeu-lhe Jesus: Meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus súditos teriam combatido para impedir que eu caísse nas mãos dos judeus; mas, o meu reino ainda não é aqui.

Disse-lhe então Pilatos: Logo, tu és rei? - Jesus lhe respondeu: Tu o dizes; sou rei; não nasci e não vim a este mundo senão para dar testemunho da verdade. Aquele que pertence à verdade escuta a minha voz. (S. João. 18:33, 36 e 37.)

A vida futura

2. Por essas palavras, Jesus se refere claramente à vida futura, que Ele apresenta, em todas as circunstâncias, como a meta a que se destina a Humanidade e como devendo constituir objeto das principais preocupações do homem na Terra. Todas as suas máximas se reportam a esse grande princípio. Com efeito, sem a vida futura, a maior parte de seus preceitos de moral não teriam nenhuma razão de ser. Por isso, os que não creem na vida futura, pensando que Ele apenas falava na vida presente, não os compreendem ou os consideram pueris.

Esse dogma pode ser considerado, portando, como o ponto central do ensino do Cristo, razão pela qual está colocado num dos primeiros lugares à frente desta obra, pois deve ser o alvo de todos os homens. Só ele pode justificar as anomalias da vida terrena e harmonizar-se com a justiça de Deus.

3. Os judeus tinham idéias muito imprecisas acerca da vida futura. Acreditavam nos anjos, considerando-os como seres privilegiados da Criação; não sabiam, porém, que os homens podem um dia tornar-se anjos e partilhar da felicidade angélica. Segundo eles, a observância das leis de Deus era recompensada com os bens terrenos, a supremacia de sua nação e com as vitórias sobre os seus inimigos. As calamidades públicas e as derrotas eram o castigo da desobediência àquelas leis. Moisés não pudera dizer mais do que isso a um povo pastor e ignorante, que  precisava ser tocado, antes de tudo, pelas coisas deste mundo. Mais tarde, Jesus viria lhes revelar que existe outro mundo onde a justiça de Deus segue o seu curso. É esse o mundo que Ele promete aos que cumprem os mandamentos de Deus e onde os bons acharão sua recompensa. Esse mundo é o seu reino; lá Ele se encontra em toda a sua glória e para lá voltaria quando deixasse a Terra.

Jesus, porém, conformando seu ensino com o estado dos homens de sua época, não julgou conveniente dar-lhes luz completa, que os deslumbraria sem os esclarecer, pois não a compreenderiam. Limitou-se, de algum modo, a apresentar a vida futura apenas como um princípio, como uma lei da Natureza, da qual ninguém pode escapar. Todo cristão, pois, crê necessariamente na vida futura; mas, a idéia que muitos fazem dela é ainda vaga, incompleta e, por isso mesmo, falsa em diversos pontos. Para grande número de pessoas, é apenas uma crença, sem nenhuma certeza absoluta; daí as dúvidas e mesmo a incredulidade.

O Espiritismo veio completar, nesse ponto, como em vários outros, o ensino do Cristo, quando os homens se mostraram bastante maduros para compreender a verdade. Com o Espiritismo, a vida futura não é mais um simples artigo de fé, uma hipótese; torna-se uma realidade material demonstrada pelos fatos, pois são as testemunhas oculares que a descrevem em todas as suas fases e em todas as suas peripécias, de sorte que não somente a dúvida não é mais possível, como a inteligência mais vulgar é capaz de imaginá-la sob seu verdadeiro aspecto, como imagina um país quando lê a sua descrição detalhada. Ora, a descrição da vida futura é de tal forma circunstanciada, as condições da existência feliz ou infeliz dos que nela se encontram são tão racionais, que cada um aqui é obrigado a reconhecer que não pode ser de outro modo, e que ela representa realmente a justiça de Deus.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

O Evangelho Segundo o Espiritismo - Capítulo II, 5 a 8 - Meu Reino não é Deste Mundo

O ponto de vista

5. A ideia clara e precisa que se faça da vida futura dá uma fé inabalável no porvir, e essa fé tem consequências enormes sobre a moralização dos homens, porque muda completamente o ponto de vista sob o qual eles encaram a vida terrena. Para quem se coloca, pelo pensamento, na vida espiritual, que é indefinida, a vida corpórea se torna simples passagem, breve estação num país ingrato. As vicissitudes e tribulações dessa vida não passam de incidentes que ele suporta com paciência, pois sabe que são de curta duração e devem ser seguidas por um estado mais feliz. A morte nada mais terá de assustador; deixa de ser a porta que se abre para o nada, para ser a porta da libertação, que faculta ao exilado a entrada numa morada de felicidade e de paz. Sabendo que está num lugar temporário e não definitivo, o homem encara as preocupações da vida com mais indiferença, resultando-lhe daí uma calma de espírito que abranda as suas amarguras.

Pelo simples fato de duvidar da vida futura, o homem dirige todos os seus pensamentos para a vida terrestre. Incerto quanto ao futuro, dá tudo ao presente. Não entrevendo bens mais preciosos que os da Terra, porta-se qual criança que nada mais vê além de seus brinquedos e tudo faz para os obter. A perda do menor deles causa-lhe pungente mágoa: um engano, uma decepção, uma ambição insatisfeita, uma injustiça de que seja vítima, o orgulho ou a vaidade feridos são outros tantos tormentos que transformam sua existência numa angústia perpétua, infligindo-se a si próprio verdadeira tortura de todos os instantes. Sob o ponto de vista da vida terrena, em cujo centro se coloca, tudo assume ao seu redor vastas proporções. O mal que o atinja, como o bem que toque aos outros, adquire aos seus olhos grande importância. Dá-se o mesmo com aquele que se encontra no interior de uma cidade: tudo lhe parece grande, tanto os homens que ocupam altas posições, como os monumentos. Contudo, se ele subir a uma montanha, homens e coisas lhe parecerão bem pequenos.

É o que acontece ao que encara a vida terrestre do ponto de vista da vida futura: a Humanidade, assim como as estrelas do firmamento, perde-se na imensidade. Percebe então que grandes e pequenos estão confundidos, como formigas sobre um montículo de terra; que proletários e criaturas efêmeras que tanto se fatigam para conquistar um lugar que as elevará tão pouco e que por tão pouco tempo conservarão. A importância, pois, dada aos bens terrenos está sempre em razão inversa da fé que se tenha no futuro.

6. Dir-se-ia que se todos pensassem dessa maneira, tudo periclitaria na Terra, pois ninguém mais iria ocupar-se com as coisas terrenas.Não: o homem, instintivamente, procura o seu bem-estar, e mesmo estando certo de que só por pouco tempo permanecerá no lugar em que se encontra, ainda assim cuida de estar aí o melhor ou o menos mal que lhe seja possível. Não exite ninguém que, encontrando um espinho debaixo de sua mão, não o retire, para não se picar. Ora, o desejo do bem-estar força o homem a tudo melhorar, impelido que é pelo instinto do progresso e da conservação, que está nas leis da Natureza. Ele, pois, trabalha por necessidade, por gosto e por dever, obedecendo, desse modo, aos desígnios da Providência, que o pôs na Terra para tal fim. Simplesmente, aquele que considera o futuro não liga ao presente mais do que relativa importância, e facilmente se consola de seus insucessos, pensando no destino que o aguarda.

Deus não condena, portanto, os gozos terrenos, mas o abuso desses gozos em detrimento das coisas da alma. É contra tais abusos que se previnem os que aplicam a si próprios estas palavras de Jesus: Meu reino não é deste mundo.

Aquele que se identifica com a vida futura assemelha-se ao rico que perde sem emoção uma pequena soma; aquele que concentra seus pensamentos na vida terrena assemelha-se ao pobre que perde tudo o que possui e se desespera.

7. O Espiritismo alarga o pensamento e lhe rasga novos horizontes. Em vez dessa visão acanhada e mesquinha, que se concentra na vida atual, que faz do instante que vivemos na Terra o único e frágil eixo do futuro eterno, o Espiritismo mostra que essa vida não passa de um elo no conjunto harmonioso e grandiosos da obra do Criador. Mostra a solidariedade que religa todas as existências do mesmo ser, todos os seres de um mesmo mundo, dando assim uma base e uma razão de ser à fraternidade universal, enquanto a doutrina da criação da alma por ocasião do nascimento de cada corpo torna os seres estranhos uns aos outros. Essa solidariedade entre as partes de um mesmo todo explica o que é inexplicável, desde que se considere apenas um ponto. Esse conjunto, ao tempo do Cristo, os homens não o teriam podido compreender, razão pela qual Ele reservou esse conhecimento para mais tarde.

INSTRUÇÕES DOS ESPÍRITOS

Uma realeza terrestre

8. Quem melhor do que eu pode compreender a verdade dessas palavras de Nosso Senhor: Meu reino não é deste mundo? O orgulho me perdeu na Terra. Quem, pois, compreenderia o vazio dos reinos da Terra, se eu não o compreendia? Que trouxe eu comigo da minha realeza terrena? Nada, absolutamente nada. E, como que para tornar a lição mais amarga, ela nem sequer me acompanhou até o túmulo! Rainha entre os homens, como rainha julguei que penetrasse no reino dos céus! Que desilusão! Que humilhação, quando, em vez de ser recebida aqui qual soberana, vi acima de mim, mas muito acima, homens que eu julgava insignificantes e aos quais desprezava, por não terem sangue nobre! Oh! só então compreendi a esterilidade das honras e grandezas que se buscam com tanta avidez na Terra!

Para conquistar um lugar neste reino, são necessárias a abnegação, a humildade, a caridade em toda a sua celeste prática, a benevolência para com todos. Não se vos pergunta o que fostes, nem que posição ocupastes, mas o bem que fizestes e as lágrimas que enxugastes.

Oh! Jesus, tu o disseste, teu reino não é deste mundo, porque é preciso sofrer para chegar ao céu e os degraus do trono não nos aproximam dele. A ele só conduzem os atalhos mais penosos da vida. Procurai, pois, o caminho do céu, através das sarças e dos espinhos, e não por entre as flores.

Os homens correm atrás dos bens terrenos como se pudessem guardá-los para sempre. Aqui, porém, já não há ilusões. Logo eles percebem que se agarraram a uma sombra e desprezaram os únicos bens reais e duradouros, os únicos que lhes aproveitam na morada celeste, os únicos que lhes podem abrir as portas do céu.

Tende piedade dos que não ganharam o reino dos céus; ajudai-os com as vossas preces, pois a prece aproxima o homem do Altíssimo: é o traço de união entre o céu e a Terra: não o esqueçais. - Uma rainha de França. (Le Havre, 1863.)



segunda-feira, 4 de junho de 2012

O Evangelho Segundo o Espiritismo - Capítulo XXIII - 4, 5 e 6 - Estranha Moral

Abandonar pai, mãe e filhos

4. Aquele que houver deixado, pelo meu nome, sua casa, os seus irmãos, ou suas irmãs, ou seu pai, ou sua mãe, ou sua mulher, ou seus filhos, ou suas terras, receberá o cêntuplo de tudo isso e terá por herança a vida eterna. (S. Mateus, 19:29.)

5. Então, disse-lhe Pedro: Quanto a nós, vês que tudo deixamos e te seguimos. - Jesus lhe observou: Digo-vos, em verdade, que ninguém deixará, pelo reino de Deus, sua casa, ou seu pai, ou sua mãe, ou seus irmãos, ou sua mulher, ou seus filhos. - que não receba, já neste mundo, muito mais, e no século vindouro, a vida enterna. (S. Lucas, 18:28 a 30.)

6. Disse-lhe outro: Senhor, eu te seguirei: mas permite que, antes, disponha do que tenho em minha casa. - Jesus lhe respondeu: Quem quer que, tendo posto a mão no arado, olhar para trás, não está apto para o reino de Deus (S. Lucas, 9:61 e 62.)

Sem discutir as palavras, deve-se aqui procurar o pensamento, que era, evidentemente, este: "Os interesses da vida futura prevalecem sobre todos os interesses de todas as considerações humanas", porque esse pensamento está de acordo com a essência da doutrina de Jesus, ao passo que a idéia de uma renunciação à família seria a negação dessa doutrina.

Não temos, aliás, sob os olhos, a aplicação dessas máximas no sacrifício dos interesse e das afeições de família pela pátria? Censura-se um filho por deixar o pai, a mãe, os irmãos, a mulher e os filhos para marchar em defesa do seu país? Não se lhe reconhece, ao contrário, grande mérito em arrancar-se às doçuras do lar doméstico, das expansões de amizade, para cumprir um dever? Há, pois, deveres que se sobrepõem a outros deveres. A lei não impõe à filha a obrigação de deixar os pais para acompanhar o esposo? Multiplicam-se no mundo os casos em que são necessárias as mais penosas separações. Entretanto, nem por isso as afeições se rompem. O afastamento não diminui o respeito, nem a solicitude do filho para com os pais, nem a ternura destes em relação aos filhos. Vê-se, portanto, que mesmo tomadas ao pé da letra, excetuando o termo odiar, aquelas palavras não seriam uma negação do mandamento que prescreve ao homem honrar a seu pai e a sua mãe, nem do afeto paternal: com mais forte razão, não o seriam, se tomados segundo o espírito. Elas tinham por objetivo mostrar, através de uma hipérbole, quão imperioso é para a criatura o dever de ocupar-se com a vida futura. Alíás, tais palavras deviam ser pouco chocantes para um povo e numa época em que, como conseqüência dos costumes, os laços de família tinham menos força do que no seio de uma civilização moral mais adiantada. Esses laços, mais fracos nos povos primitivos, fortalecem-se com o desenvolvimento da sensibilidade e do senso moral. A própria separação é necessária ao progresso, tanto entre as famílias como entre as raças, pois elas degeneram se não houver cruzamento, se não se mesclarem umas com as outras. É uma lei da Natureza, tanto no interesse do progresso moral, quanto no do progresso físico.

Aqui, as coisas são consideradas apenas do ponto de vista terreno. O espiritismo faz com que as vejamos de mais alto, ao nos mostrar que os verdadeiros laços de afeição são os do Espírito e não os do corpo: que aqueles laços não se desfazem pela separação, nem mesmo pela morte do corpo: que se robustecem na vida espiritual, pela depuração do Espírito, verdade consoladora que dá à criatura uma grande força para suportar as vicissitudes da vida (Cap. IV, item 18; cap. XIV, item 8.)


O Evangelho Segundo o Espiritismo - Capítulo XXIII - 7 e 8 - Estranha Moral

Deixar aos mortos o cuidado de enterrar seus mortos.

7. Disse a outro: Segue-me; e o outro respondeu: Senhor, permite que, primeiro, eu vá enterrar meu pai. - Jesus lhe retrucou: Deixa aos mortos o cuidado de enterrar seus mortos: quanto a ti, vai anunciar o reino de Deus. (S. Lucas, 9:59 e 60.)

8. Que podem significar estas palavras? "Deixa aos mortos o cuidado de enterrar seus mortos?" As considerações precedentes mostram, em primeiro lugar, que, nas circunstâncias em que foram pronunciadas, não podiam exprimir censura àquele que considerava um dever de piedade filial ir sepultar seu pai. Têm, no entanto, um sentido mais profundo, que só o conhecimento mais completo da vida espiritual podia tornar compreensível.

A vida espiritual é, realmente, a verdadeira vida, é a vida normal do Espírito; sua existência terrestre é transitória e passageira, espécie de morte, se comparada ao esplendor e atividade da vida espiritual. O corpo não passa de vestimenta grosseira que reveste temporariamente o Espírito, verdadeiro grilhão que o prende à gleba terrena., do qual ele se sente feliz em libertar-se. O respeito que se consagra aos mortos não se prende à matéria, mas ao Espírito ausente, mediante a lembrança que dele guardamos. É análogo àquele que se tem pelos objetos que lhe pertenceram, que ele tocou e que as pessoas que lhe são afeiçoadas guardam como relíquias. Era isso que aquele homem não podia compreender por si mesmo. Jesus então lhe ensinou, dizendo: "Não te preocupes como o corpo, pensa antes no Espírito: vai ensinar o reino de Deus: vai dizer aos homens que a pátria deles não é a Terra, mas o céu, pois somente lá transcorre a verdadeira vida".