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quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Herege - Por que o Islã precisa de uma reforma imediata

Herege


“Herege” não é um livro espiritualista. Na verdade, em certos aspectos, aproxima-se mais do pragmatismo e do materialismo. Por que, então, sua recomendação neste blogue de orientação assumidamente espiritualista?

É preciso ler para compreender!

A obra de Ayaan Hirsi Ali, mulher de naturalidade somali, possuidora de uma biografia de determinação e coragem, professora de Harvard, ex-muçulmana, ex-religiosa, hoje considerada uma das cem pessoas mais influentes do mundo, faz mais do que defender a necessidade de reforma imediata no sistema político-religioso muçulmano. Ela disseca uma espécie de realidade atemporal que escraviza cerca de 1,6 bilhão de pessoas ao redor do mundo (e coloca em risco a liberdade e a vida das outras cerca de 7 bilhões) às determinações literais dos textos sagrados muçulmanos.

Confesso ter sido tomado por certo estupor,  certo estarrecimento ante a narrativa de Ayaan. Sinto que a leitura trouxe-me à epiderme uma revolução de pensamentos que borbulhava às escondidas por minhas artérias. A ortodoxia, de um lado, como agente da estagnação e do retrocesso em todos os campos; a “heresia”, de outro, como ferramenta dramática de libertação e de mudança, sempre à disposição dos homens e mulheres corajosos e indagadores. Ambas, quando o assunto é (ou foi) a religião, digladiando-se em torno de textos que, diz-se, foram inspirados diretamente por Deus (ou por Alá)!

“Herege – Por que o Islã precisa de uma reforma imediata” é atemporal nesse sentido. É improvável que um ocidental, ao ler a obra, deixe de comparar o “Estado Islâmico”, o “Boko Haram”, a “Al-Qaeda” e outras forças político-religiosas do islã atual com a implacável “Igreja-com-poderes-de-estado-Católica” da Idade Média, suas cruzadas e sua inquisição. O ortodoxo contra o herege: eis aí o embate atemporal!

Estamos vendo a história repetir-se (Infelizmente, trazendo aos nossos dias todos os horrores do passado)!

E nós,  ocidentais, involuntariamente, contribuímos para a perpetuação desse estado de horror – esse é um dos pontos nevrálgicos da argumentação de Ayaan Hirsi Ali – ao acolhermos o Islamismo no “clube” das religiões pacíficas.

“O Islã não é uma religião pacífica!” – afirma textualmente  Ali (o grifo é meu), com toda autoridade de estudiosa e de pessoa educada no seio da religião muçulmana. Tanto o Alcorão (texto sagrado ditado diretamente pelo Anjo Gabriel a Maomé), o Hadith (descrições da vida e ensinamentos de Maomé), as Suratas (interpretações oficiais do Alcorão), quanto a sharia (lei que detalha os procedimentos civis e religiosos a que os muçulmanos devem submeter-se, bem como as sanções pelo seu descumprimento), trazem textos que explicitamente instigam e determinam o uso da violência. Esse componente violento da legislação islâmica é dirigido, como punição, tanto internamente, aos transgressores do próprio Islã, quanto contra qualquer infiel (qualquer um que não siga a fé muçulmana).

Ordena-se explicitamente, nessa cultura/religião/legislação, a mutilação genital de meninas, num contexto cultural dificilmente compreensível para nós, ocidentais, a pretexto de prevenir a desonra futura; apedreja-se até a morte por adultério;  decepa-se as mãos dos ladrões; pune-se a mulher pelas atitudes mais comezinhas, como andar desacompanhada, ter o véu mal arrumado ou estudar qualquer assunto que não seja a religião;  condena-se à morte por blasfêmia, heresia e apostasia (sendo que os limites para definição desses crimes são bastante subjetivos); ordena-se o assassinato  dos infiéis (nós, ocidentais, entre outros) por decaptação, etc, etc, etc.

Portanto, afirmar que a violência cometida em nome do Islã é uma deturpação existente apenas na mente de um grupo reduzido de fanáticos é ocultar, deliberadamente ou por ignorância, que essa violência está explícita nos textos que alicerçam o islamismo. Essa atitude de negação, argumenta Ayaan Hirsi Ali, não ajuda a conduzir o Islã ao horizonte da paz. Ao contrário, esse ponto de vista nega a causa fundamental da violência na religião (a incitação a ela, contida nos textos sagrados do Islã) e, assim, prejudica qualquer tentativa de reforma e contribuiu para a perpetuação do estado de terror que, como consequência, assola o mundo.

“Herege – Por que o Islã precisa de uma reforma imediata” é, no título e em todo seu conteúdo, um livro reformista. A autora analisa e propõe cinco grandes modificações necessárias ao islamismo, para que deixe de consubstanciar-se em subsídio doutrinário para o atraso e a barbaridade sistemática contra a mulher, contra as minorias e contra os “infiéis”.

Vimos, há quase exatos 5 séculos, John Wycliffe, Jan Huss e Martinho Lutero fazerem o que parecia impensável e impossível e conseguirem concretizar seus ideais de reforma religiosa. Hoje, reformadores muçulmanos tentam fazer o mesmo em circunstâncias tão exasperadoras quanto foram a de seus análogos ocidentais. Ayaan Hirsi Ali está entre esses reformadores. E cada um de nós pode fazer parte da história que está acontecendo hoje, ao contribuir para esse progresso rumo à paz global!

Ali não é defensora da violência para combater a violência. Deixa isso bem claro! Ela faz um apelo dramático por uma “contra-campanha” pacífica na área da educação, que coloque nos devidos termos os valores ocidentais e neutralize a influência jihadista - entre outras - que a internet e certas condições do mundo moderno (como a imigração de muçulmanos) vêm ampliando.

A esse apelo é que meu coração ouviu! A transformação do planeta num mundo de harmonia e paz é de interesse de todo espiritualista que se preze! E, em particular, é do interesse  dos cristãos espíritas, especialmente aqueles que estão em condições de não olvidar esforços de boa vontade nas tarefas de regeneração de nosso planeta.

Ayaan Hirsi Ali reconhece, em outra obra sua (“Nômade”, Companhia das Letras, 2011), três instituições ocidentais que podem colaborar para que a reforma no Islã aconteça. E uma delas, em suas palavras, diz respeito diretamente a mim e a tantos outros em condições de cooperar:

- “A cristandade do amor e da tolerância ainda é um dos antídotos mais poderosos do ocidente contra o Islã do ódio e da intolerância”, afirma ela.

Com essa exortação ao amor e à tolerância, encerro essa resenha. Recomendo a todos, de todas as regiões do globo, essa importante leitura, bem como a reflexão e as atitudes de fraternidade em favor do Islã, que a partir dela, deverão se multiplicar.

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Edição sugerida:

Herege - Por que o Islã precisa de uma reforma imediata
Companhia das Letras
Ayaan Hirsi Ali
1a edição. 2015.

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