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sexta-feira, 14 de agosto de 2015

A Sabedoria Antiga - Capítulo 3 - Kamaloka - Parte 01

Capítulo III - Kamaloka - Parte 01

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Capítulo III - Kamaloka

Este termo, que literalmente significa o lugar ou a morado do desejo, serve, como já tivemos ocasião de ver, para designar uma parte do plano astral, uma região separada do resto deste plano, não tanto como uma localidade distinta, mas antes pelo estado de consciência especial dos seres que aí se encontram (1). Encerra os seres humanos privados de seus corpos físicos pela morte, e destinados a sofrerem certas transformações purificadoras antes de poderem entrar na vida pacífica e feliz que pertence ao homem propriamente dito, isto é, à alma humana (2).

Esta região representa e engloba as condições atribuídas aos diferentes estados intermediários, infernos ou purgatórios que todas as grandes religiões consideram como residência temporária do homem após o abandono de seu corpo físico e antes de atingir o "céu". Não encerra nenhum lugar de tortura eterna, porque o inferno eterno, no qual acreditam alguns sectários de espírito estreito, não é mais que um pesadelo da ignorância, do ódio e do medo.

Mas esta região compreende, na verdade, condições de sofrimento, temporárias e purificadores, efeitos de causas, postas em ação pelo homem durante sua vida física, tão naturais e tão inevitáveis  como as consequências dos nossos delitos e faltas neste mundo; portanto, vivemos em um universo presidido por leis, em que todos os germes devem frutificar, tanto os bons como os maus. A morte me nada altera a natureza mental e moral do homem, e a mudança de estado que se dá na passagem de um mundo ao outro apenas elimina o corpo físico, sem tocar no resto de sua natureza.

A condição de Kamaloka se encontra em cada uma das subdivisões do plano astral, de forma que podemos considerar o Kamaloka como encerrando sete regiões, a que chamaremos primeira, segunda, terceira região e assim sucessivamente até a sétima, contando de baixo para cima (3). Já vimos que entram na composição do corpo astral materiais tirados de todas as subdivisões do plano. Ora, é o arranjo, ou melhor, a disposição especial destes materiais que separa os homens retidos nas diversas regiões, ao passo que os de uma mesma região podem comunicar-se entre si. Esta disposição das camadas astrais será explicada mais tarde. As sete regiões, pertencentes às subdivisões correspondentes do plano astral, diferem em densidade, e a densidade da forma exterior da entidade purgatória determina a região onde ela se encontra encerrada. São estas diferenças no estado da matéria que impedem a passagem duma região ao outra. Os habitantes duma região não podem entrar em contato com os de outra região, assim como o peixe das maiores profundidades do oceano não pode conhecer a águia. O meio necessário à vida de um seria fatal à vida do outro ser.

Quando o corpo físico é abatido pela morte, o duplo etérico, arrastando consigo prana, e acompanhado de todos os outros princípios - "homem completo, com exceção do corpo grosseiro" - retira-se do "tabernáculo da carne", termo que designa admiravelmente o invólucro exterior do ser. Todas as energias vitais que irradiavam para o exterior são reconduzidas para o interior, e "recolhidas por prana"; seu afastamento se manifesta pelo entorpecimento que invade os órgãos físicos dos sentidos. Os órgãos estão lá, como sempre, prestes a entrar em atividade. Mas o "ser interior que governa" desprende-se daquele que por meio deles via, ouvia, tocava, sentia; e entregues a si mesmos,não são mais que simples agregados de matéria, matéria viva, é verdade, mas sem nenhum poder de percepção. Lentamente o senhor do corpo se retira, encerrado no duplo etérico e absorto na contemplação do panorama de sua vida passada, que se desenrola diante dele, na hora da morte, completo até nos menores detalhes.

Neste quadro estão todos os acontecimentos de sua vida, grandes e pequenos. Vê suas ambições realizadas ou falidas, seus esforços, triunfos, derrotas, amores e ódios. A tendência predominante do conjunto surge claramente; o pensamento diretor da vida se afirma e se imprime profundamente na alma, assinalando a região onde passará a maior parte de sua existência póstuma. Solene é o momento em que o homem, frente a frente com sua vida, ouve sair dos lábios do seu passado o vaticínio do provir.

Durante um breve espaço de tempo, ele se vê tal qual é, reconhece o fim de sua vida e adquire convicção de que a Lei é poderosa, justa e boa. Em seguida, o laço magnético entre o corpo grosseiro e o duplo etérico se rompe; e assim se separam os dois associados de uma vida inteira; e salvo casos excepcionais, o homem cai numa plácida inconsciência.

A calma e o respeito devem presidir a conduta de todos os que se aproximam do leito de um moribundo, a fim de que um silêncio solene facilite à alma o exame de seu passado Os gritos, as lamentações ruidosas produzem uma impressão penosa e podem perturbar sua atenção. Não deixa de ser um ato impertinente e egoísta interromper, pelo desgosto de uma perda pessoal, a calma que deve ajudá-lo e apaziguá-lo.

A religião age sabiamente quando prescreve orações para os agonizantes. Estas orações mantêm a calma e provocam aspirações desinteressadas que auxiliam o moribundo. Como todo o pensamento amante, contribuem para protegê-lo e defendê-lo.

Algumas horas após a morte - geralmente não excedem de trinta e seis - o homem se retira do corpo etérico. Este último, por sua vez, abandonado como um cadáver inerte, permanece na vizinhança do cadáver grosseiro e partilha a mesma sorte que ele. Se o corpo grosseiro é enterrado, o duplo etérico flutua acima do túmulo, desagregando-se lentamente; e a penosa impressão que muitas pessoas experimentam ao visitar os cemitérios é, em grande parte, devida à presença desses cadáveres etéricos em decomposição. Quando se queima o corpo, ao contrário, o duplo etérico se dissolve rapidamente, porque perde seu ponto de apoio e seu centro de atração física.

Esta é uma das razões entre muitas outras para preferir-se à inumação a cremação, como meio de eliminar os veículos físicos.

O afastamento do homem de seu duplo etérico é seguido da retirada de prana que então volta ao grande reservatório da vida universal; ao passo que o ser humano prestes a passar ao Kamaloka sofre uma recomposição de seu corpo astral, por meio da qual poderá submeter-se às transformações purificadoras de que o homem tem necessidade (4). Durante a vida terrestre, os diversos estados da matéria astral se misturam formando o corpo astral, como fazem os sólidos, os líquidos e os gases no interior do corpo físico. A recomposição do corpo astral em seguida à morte comporta a separação destes materiais, por ordem de densidade, em uma séride de invólucros ou capas concêntricas, a mais sutil por dentro e a mais grosseira por fora, sendo cada capa formada pela matéria de uma única subdivisão do plano astral. O corpo astral torna-se, portanto, um conjunto de sete camadas superpostas, em sétuplo estojo de substâncias astrais, onde o homem fica prisioneiro, pois que somente a ruptura destas camadas o tornará livre. Pode-se compreender agora a importância capital da purificação do corpo astral durante a vida terrestre. O homem fica retido em cada uma dessas subdivisões do Kamaloka até que o invólucro de matéria dessa subdivisão fique suficientemente desagregado para lhe permitir passar à subdivisão seguinte. Demais, conforme a atividade conscientemente empregada pelo ser, durante sua vida, neste ou naquele estado de matéria astral, ele aí se encontrará desperto e consciente, na região que lhe corresponda depois da morte; ou melhor, ele aí fica inconsciente, "absorto em sonhos agradáveis" e retido durante o tempo necessário à desagregação mecânica do invólucro.

O homem espiritualmente desenvolvido, que purificou seu corpo astral até ficarem os respectivos elementos unicamente formados de matérias pertencentes às subdivisões mais sutis - este homem apenas atravessa o Kamaloka sem aí se deter. Seu corpo astral se desvanece com extrema rapidez, e sem demora alcança o lugar que o destino lhe assinala, de acordo com a sua evolução.

Um homem menos desenvolvido, mas cuja vida foi pura e sóbria, e que não se prendeu às coisas da terra, atravessará o Kamaloka num vôo menos rápido, sonhará pacificamente, inconsciente do que o rodeia, enquanto seu corpo mental vai abandonando sucessivamente as diferentes camadas astrais; e ao atingir as camadas celestes despertará finalmente.

Outros, menos desenvolvidos ainda, despertarão depois de terem atravessado as regiões inferiores do plano astral, readquirindo a consciência na divisão que corresponder a sua atividade consciente durante a vida terrestre, porque o ser desperta ao contato de impressões familiares, embora elas sejam agora recebidas diretamente pelo próprio corpo astral, sem o auxílio do físico. Aqueles que viveram no seio das paixões animais despertam na região correspondente a estas paixões, pois cada homem se coloca exatamente "no lugar que ele mesmo escolheu".

O caso da supressão brusca da vida física por acidente, suicídio, assassinato ou morte súbita, qualquer que seja ela, merece uma menção especial, porque difere da morte normal, conseqüência de esgotamento de energias vitais pela velhice ou pela doença. Se a vítima é pura e de tendências espirituais, será objeto de uma proteção especial e dormirá até o momento em que, em caso normal, deveria terminar sua existência física.

Mas se a vítima não for pura, ficará consciente e incapaz de compreender que perdeu seu corpo físico, e obsedada durante muito tempo pela cena fatal, impotente para se libertar dos seus horrores.

Durante todo este tempo, a vítima permanecerá no plano astral com o qual merece estar em contato, conforme a zona mais exterior de seu corpo astral. Para qualquer dessas almas, a vida regular no Kamaloka só começa depois de esgotado o período que deveria durar sua existência terrestre; e é vivamente consciente dos objetos físicos que a cercam.

Um assassino, executado pelo seu crime continua, segundo o testemunho de um dos Mestres que instruiu Mme. Blavatsky, vivendo e revivendo no Kamaloka a cena do assassinato e os acontecimentos subsequentes, repetindo sem cessar o seu ato diabólico, e novamente experimentando todos os terrores da sua prisão e da sua execução.

Do mesmo modo, um suicida reproduzirá automaticamente os sentimentos de desespero e de temor que precederam o seu crime, e renovará quase indefinidamente com uma persistência lúgubre, o ato fatal e a luta da agonia. Uma mulher morta nas chamas, tomada de um pavor louco, depois de esforços desesperados para escapar, criou um tal turbilhão de emoções tumultuosas que, cinco dias depois, ainda lutava loucamente, vendo-se sempre rodeada de chamas e repelindo violentamente todos os esforços que faziam para acalmá-la. Uma outra mulher, ao contrário, tragada pelas ondas numa tempestade, morreu tranquilamente e cheia de amor, comprimindo seu filhinho contra seu seio. Do outro lado da morte pôde ser observada dormindo um sono pacífico, sonhando com seu marido e seus filhos que lhe apareciam em visões felizes, tão perfeitas como a realidade.

Nos casos mais comuns, a morte por acidente é uma desvantagem real, resultado de alguma falta grave (5); pois que o fato de estar perfeitamente consciente das regiões inferiores do Kamaloka, estreitamente ligadas à Terra, traz consigo muitos inconvenientes.e mesmo perigos. O homem fica absorto em projetos e nos interesses que o preocupavam durante a vida e tem consciência da presença das pessoas e coisas que se prendem a ele.

Sente-se quase irresistivelmente levado a fazer esforços para influir nos negócios e nas questões aos quais suas paixões e seus sentimento ainda se prendem.

Por seus desejos, liga-se ainda ao mundo físico, embora já tenha perdido todos os órgãos habituais de sua atividade. O único meio para alcançar a paz consistira em desviar-se resolutamente da Terra e fixar seu pensamento em coisas mais altas; mas o número dos que têm coragem para fazer este esforço é, comparativamente, diminuto, apesar dos socorros que lhes oferecem sempre os "auxiliares invisíveis" do plano astral, cuja tarefa consiste em ajudar e a guiar os que deixam este mundo (6). Na maioria das vezes estas almas sofredoras, incapazes de suportar sua inação forçada, procuram o auxílio de um sensitivo com o qual se possam comunicar, para ainda mais uma vez se ocuparem das preocupações terrestres.

Às vezes também, obsedando algum médium disponível esforçam-se em utilizar o seu corpo para seus próprios fins. Contraem assim grandes responsabilidades para o futuro.

Não é sem uma razão oculta que a Igreja nos ensina esta oração:

"Da batalha, do assassinato e de uma morte súbita, livrai-nos, Senhor!"




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Notas da Autora:

(1) Os hindus chamam este estado Pretaloka, a morado dos Pretas. Um Preta é o ser humano que perdeu o corpo físico mas ainda não se desembaraçou de sua natureza animal. Não pode ir longe com este veículo, e fica preso nele até sua desagregação.

(2) A alma é a individualidade humana, o laço entre o Espírito Divino, no homem e sua personalidade inferior. é o "Ego", o Indivíduo, o "Ser" que se desenvolve pela evolução. Em linguagem teosófica, é Manas, o "Pensador". A mente como ordinariamente a concebemos é a energia do Manas operando através das limitações do cérebro físico.

(3) Estas regiões são muitas vezes enumeradas de cima para baixo. Isto pouco importa. Conto aqui de baixo para cima a fim de ficar de acordo com o método adaptado nesta obra para os planos e princípios.

(4) Esta recomposição determina o que os hindus chamam Yatana ou corpo de sofrimento; ou, no caso de homens perversos que tenham em seu corpo astral elementos muito densos, toma o nome de Dhurvam ou corpo forte.

(5) Não por uma falta cometida na vida presente. A lei da casualidade estudará o caso no Capítulo IX: O karma.

(6) Estes trabalhadores são discípulos de alguns dos grandes Mestres e guiam a humanidade, e preenchem o dever de socorrer os que têm necessidade de sua assistência.


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