Pesquisar

Se quiser, digite seu e-mail para receber atualizações deste blogue:

Se quiser, digite seu e-mail para receber atualizações:

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Bhagavad ~ Gîtâ - Capítulo II - Sankhya Yoga - A Verdadeira Natureza do Espírito

"Neste capítulo se ensina como se pode, por meio da meditação filosófica, obter a verdadeira concepção do Universo, isto é, o conhecimento da nulidade e instabilidade de todas as formas que existem no mundo dos fenômenos, em contraste com o Ser Eterno, e como este conhecimento nos conduz ao caminho da liberdade espiritual e da imortalidade." (a)

(...)

Palavras do Verbo Divino (b)

(...)

12. Sabe, ó príncipe Pându, que nunca houve tempo em que não existíssemos eu ou tu, ou qualquer destes príncipes da terra; igualmente, nunca virá tempo em que algum de nós deixará de existir.

13. Assim como a alma, vestindo este corpo material, passa pelos estados de infância, mocidade, virilidade e velhice, assim, no tempo devido, ela passa a um outro corpo e, em outras encarnações, viverá outra vez. Os que possuem  sabedoria da doutrina esotérica (interior), sabem, isto é, não se deixam influenciar pelas mudanças a que está sujeito este mundo exterior.

14. Os sentidos dão-te, pelas apropriadas faculdades mentais, o sentimento do calor e do frio, do prazer e da dor. Mas estas mudanças vêm e vão, porque pertencem ao temporário, impermanente, inconstante. Suporta-as com equanimidade, valentia e paciência, ó príncipe!

15. O homem que não se deixa mais atormentar por essas coisas, que se conserva firme e inabalável no meio do prazer e da dor - que possui a verdadeira igualdade de ânimo; esse, crê-me, entrou no caminho que conduz à imortalidade.

16. Aquilo que é irreal, ilusório, não tem em si o Ser Real, não existe na realidade, e sim só na ilusão; e aquilo que é o Ser Real, nunca cessa de ser - nunca pode deixar de existir, apesar de todas as aparências contrárias. Os sábios, ó Arjuna, fizeram pesquisas relativas a isto e descobriram a verdadeira Essência e o sentido interior das coisas.

17. Sabe que o Ser Absoluto, de que todo o Universo tem o seu princípio, está em tudo, e é indestrutível. Ninguém pode causar a destruição desse Imperecível.

18. Estes corpos caducos, que servem como envoltórios para as almas que os ocupam, são coisas finitas, coisas do momento, e não são o verdadeiro homem real. Eles perecem, como todas as coisas finitas; deixa-os perecer, ó príncipe de Pându, e, sabendo isto, prepara-te para o combate.

19. Aquele que pensa, em sua ignorância: "Eu mato" ou "Eu serei morto", procede como criança que não tem conhecimento da verdade, porque O que É na realidade, é eterno, e o Eterno não pode matar nem ser morto.

20. Conhece esta verdade, ó príncipe! O Homem real, isto é, o Espírito do homem, não nasce nem morre. Inato, imortal, perpétuo e eterno, sempre existiu e sempre existirá. O corpo pode morrer ou ser morto e destruído; porém aquele que ocupou o corpo, permanece depois da morte deste.

21. Quem conhece a verdade de que o Homem real é eterno, indestrutível, superior ao tempo, à mudança e aos acidentes, não pode cometer a estultice de pensar que pode matar ou ser morto.

22. Como a gente tira do corpo as roupas usadas e as substitui por novas e melhores, assim também o habitante do corpo (que é o Espírito), tendo abandonado a velha morada mortal, entra em outra, nova e recém-preparada para ele.

23. O Homem real, o Espírito, não pode ser ferido por armas, nem queimado pelo fogo; a água não o molha, o vento não o seca nem move.

24. Ele é impermeável, incombustível, indissolúvel, imortal, permanente, imutável, inalterável, eterno, e penetra tudo.

25. Em sua essência, é invisível, inconcebível, incognoscível. Sabendo isto, não te entregues à aflição pueril.

26. Se, porém, não o crês, e pensas que nascimento e morte são coisas reais, mesmo assim te pergunto: por que te lamentas e entristeces?

27. Pois, em verdade, a morte deriva do nascimento, e o nascimento dimana da morte. Não te aflijas, pois, pelo inevitável.

28. Aqueles que carecem da Sabedoria Interior, ignoram de onde vimos e para onde vamos; conhecem só aquilo que é transitório. No Ser Eterno, todas as coisas são compreendidas no estado invisível; depois se fazem visíveis, e na morte tornam a ser invisíveis. Por que, então, lamentar?

29. Quanto à alma, o Homem real, Espírito ou Ser Eterno, alguns tomam por coisa maravilhosa; outros ouvem falar e falam dele como de u'a maravilha, com incredulidade e sem compreensão. Mas a mente mortal não compreende esse mistério, nem o conhece em sua natureza verdadeira e essencial, apesar de tudo o que foi dito, ensinado e pensado a respeito.

30. O Espírito, esse Homem real que habita o corpo, é invulnerável e indestrutível: é a vida mesma. Não há, pois, motivo para te abandonares à aflição e tristeza.

31. Deves estar atento ao teu dever. Tu, que és um príncipe da casa dos guerreiros, tens por dever combater com resolução e heroísmo. (c)

32. O dever de um soldado é combater, e combater bem. O combate justo honra o guerreiro e abre-lhe a porta do céu. (c)

33. Se desistires da legítima luta pela verdade e pelo direito, cometerás um grande crime contra a tua honra, contra o teu dever e contra o teu povo. (c)

34. Os homens de perto e de longe falarão de ti com desprezo, classificando de vergonhoso o teu proceder; e a vergonha e a desonra são piores do que morte para quem é de nobre nascimento. (c)

35. Todos os generais pensarão que foi por medo que fugiste do campo de batalha, e te tratarão como covarde; e aqueles que até agora te estimam, desprezar-te-ão. (c)

36. Os teus inimigos espalharão má fama a teu respeito; com burla e com desdém falarão de ti e de tua falta de coragem. Poderia acontecer-te coisa pior? (c)

37. Se fores morto em batalha, o céu dos guerreiros será a tua recompensa; se fores o vencedor, será teu o domínio sobre a terra. Tem, pois, coragem, ó filho de Kunti, e decide-te a combater com ânimo firme! (c)

38. Com a mente tranquila, aceita como iguais o prazer e a dor, o ganho e a perda, a vitória e a derrota. Cinge-te para a peleja, cumpre o teu dever, e evita assim o pecado. (c)

39. O que te expus, ó Arjuna, é a doutrina de Sankya, filosofia especulativa da vida e das coisas. Agora, prepara-te também para ouvir a doutrina de uma escola, chamada Yoga. Se com a devida profundeza e concentração, chegares a compreender estas verdades, libertar-te-ás das cadeias das ações. (d)

40. Nada de teus esforços se perde neste caminho; já a menor porção desta ciência e prática nos livra de grande medo e perigo.

41. Neste ramo de ciência, há um só objeto em que a mente pode concentrar-se com segurança, muito ao contrário de outros campos de esforço mental, cheios de múltiplos ramos, numerosos caminhos e divergentes fins.

42. Muitos há que, saciando-se com as letras (ou com o sentido exterior, superficial) das Sagradas Escrituras e doutrinas, e não podendo perceber o seu verdadeiro sentido interior, acham grande deleite em controvérsias técnicas a respeito do texto, em definições monstruosas a abstrusas interpretações. (e)

43. Os corações desses homens estão cheios de desejos e esperanças pessoais; o seu mais alto ideal é um céu, onde acham todos os objetos de seus prazeres, a satisfação do seu sensualismo, e não se elevam à altura de onde se percebe a união de todos os seres. Usam palavras floreadas, inventam várias cerimônias e falam muito dos prêmios que esperam aqueles que as observam, e dos castigos em que caem os que são de outras opiniões. (e)

44. Fica, porém, sabendo que laboram em erro; é-lhes desconhecido o uso da Razão concentrada, e estranhas lhes são as alturas da consciência espiritual. (e)

45. Os Vedas (isto é, as Sagradas Escrituras) tratam das três gunas (f) ou qualidades da Natureza e instruem os pensadores a se elevarem acima delas. Liberta-te, ó Arjuna, dessas gunas; sê livre dos contrastes das forças opostas da natureza. que pertencem à vida finita e às coisas sujeitas à mudança. ]procura para teu descanso a consciência do teu Eu Real, a Verdade eterna. Deixa longe de ti os cuidados mundanos e a avidez de possessões materiais. Concentra-te em ti mesmo, e não te entregues às ilusões do mundo finito.

46. Como de um tanque, em que de todos os lados aflui água, pode-se tirar o fluido cristalino para encher-se com ele muitos vasos de diferentes formas e dimensões, assim as doutrinas dos livros sagrados fornecem à mente do estudante sério, tudo aquilo de que ele precisa para chegar ao conhecimento das coisas divinas, conforme o grau e o caráter de seu desenvolvimento.

47. Seja, pois, o motivo das tuas ações e dos teus pensamentos sempre o cumprimento do dever, e faze as tuas obras sem procurares recompensa, sem te preocupares com o teu sucesso ou insucesso, com o teu ganho ou o teu prejuízo pessoal. Não caias, porém, em ociosidade e inação, como acontece facilmente aos que perderam a ilusão de esperar recompensa das suas ações.

48. Coloca-te no meio entre esses dois extremos, ó príncipe, e cumpre, em tranquila resignação, o dever por ser dever, e não pela expectativa da recompensa. Conserva ânimo igual na ventura ou desventura: assim é que faz o yogi.

49. Por muito importante que seja a tua reta ação, o primeiro lugar pertence sempre ao reto pensamento. Procura, portanto, o teu refúgio na paz e na calma do reto pensar, ó Arjuna: porque aqueles que baseiam o seu bem-estar só nas ações, com estas necessariamente perdem a felicidade e a paz, e caem na miséria e no descontentamento.

50. Quem atingiu a consciência de yogi, é capaz de elevar-se acima dos resultados bons e maus. Esforça-te por atingir esta consciência, porque ela é a chave que abre o mistério da ação.

51. Os sábios, que renunciam mentalmente aos frutos possíveis de suas retas ações, libertam-se das cadeias dos renascimentos e se encaminham para a morada eterna.

52. Quando te tiveres elevado acima da trama das ilusões, não te inquietarás com os cuidados e questões a respeito das doutrinas, nem com as disputas sobre ritos, cerimoniais e outros enfeites dispensáveis da vestimenta da idéia espiritual.

53. Livre serás, então, de todas as opiniões alheias, tanto das que se acham nos livros sagrados, como das dos teólogos eruditos ou dos que ousam interpretar o que não compreendem; em lugar disso, fixarás a tua mente na mais séria contemplação do Espírito, e assim alcançarás a harmonia com o teu Eu real, que é a base de tudo".

54. Diz Arjuna:
"Explica-me, ó Mestre cujos raios de saber tudo penetram, quais são os sinais distintivos que caracterizam os homens sábios, aqueles que são firmes e constantes no conhecimento e fixos na contemplação; como se comportam e como agem? Como se pode reconhecê-los?"

55. Fala o Verbo Divino:
"Quando um homem, ó príncipe, quebrou os vínculos dos desejos do seu coração e está internamente satisfeito consigo, atingiu a Consciência Espiritual e firmou-se no conhecimento.

56. A sua mente não é turbada pela adversidade nem pela prosperidade: aceita ambas, sem apegar-se a nenhuma. Nele não tem parte a ira, nem o medo, nem as paixões; ele merece o nome de sábio.

57. Com equanimidade suporta as vicissitudes da vida, tanto as favoráveis como as desfavoráveis; não se entrega nem à alegria excessiva, nem à tristeza. Nada lhe rouba a liberdade.

58. Quando um homem chegou a possuir a verdadeira sabedoria espiritual, é semelhante à tartaruga que encolhe para dentro da sua casa os seus membros:

Assim o homem sábio é capaz de desviar os seus sentidos dos objetos que neles produzem impressão, e abrigá-los das ilusões do mundo exterior, protegendo-os pela armadura do Espírito.

59. É verdade que o homem que se abstém dos excessos sensuais é capaz de negar a satisfação aos sentidos; tal homem, porém, ainda é instado pelos desejos de gratificação. Mas aquele que achou o seu Eu Real dentro de si, é livre até do desejo e de toda tentação que desaparecem como a sombra ante a luz meridiana.

60. O homem que se abstém, às vezes sucumbe ainda ao ataque repentino de um desejo tumultuoso; mas quem conhece que o seu Eu Real é a única realidade, esse é senhor de si mesmo, de seus desejos e de seus sentidos.

61. Tendo vencido os sentidos, pode descansar em minha Divindade, contemplando o Ser Real; o irreal, o ilusório, não existe para ele.

62. Quem anela objetos dos sentidos, nos quais pensa e os quais contempla, fica atraído e enlaçado por esses objetos; desta atração e deste enlace provém o desejo, e o desejo gera a paixão.

63. A paixão é a causa da perturbação mental e da temeridade; estas trazem a confusão e a perda da memória (das verdades já reconhecidas); da perda da memória resulta a perda da razão e, com isso, perde-se o homem totalmente.

64. Mas quem, senhor de si mesmo, encontra os objetos dos sentidos, sem a eles anelar e sem deles fugir, esse alcança a Paz.

65. E na Paz que é superior a todo intelecto, ele encontra a sua libertação de todas as aflições e dores da vida. Quando, porém, a sua mente está livre destes elementos de inquietação, fica aberta ao influxo da sabedoria e da ciência.

66. Não podem chegar à verdadeira ciência aqueles que não entrarem nessa Paz, pois, sem a Paz e sem a calma não é possível existir sabedoria, nem felicidade.

67. Onde não há Paz, encontra-se somente a tormenta dos desejos sensuais, que destrói a faculdade do saber, assim como um feroz vento borrascoso impede o forte navio que caminha pelas ondas do Oceano.

68. Por isso, ó príncipe, só aquele cujos sentidos são plenamente livres de atração dos objetos sensuais e protegidos pelo saber do Espírito, tem o verdadeiro conhecimento.

69. Aquilo que parece ser claridade de dia à massa do povo, é para ele escuridão e ignorância; e aquilo que é noite para a multidão, ele reconhece como luz meridiana. Isto quer dizer que aquilo que à gente do mundo sensorial parece ser real e verdadeiro, para o sábio é ilusão; e aquilo que a maior parte dos homens julga ser irreal e não existente, o sábio conhece como o único que é Real e existente.

70. O homem, cujo coração é como o Oceano, a que afluem todos os rios e que, apesar disso permanece constante e não sai dos seus limites, - o homem que sente o ímpetos dos desejos, das paixões e inclinações, mas que, todavia, fica imóvel, - esse alcança a Paz (1). Aquele, porém, que se entrega aos desejos, não conhece a Paz, e é escravo dos desejos inquietantes.

71. Aquele que se separou dos efeitos dos desejos, e abandonou os prazeres da carne, tanto em pensamento como em ação, caminha diretamente para a Paz. Quem deixou atrás de si o orgulho, a vanglória e o egoísmo, caminha diretamente para a Bem-aventurança.

72. Este é, ó príncipe de Pându, o estado da união com o Ser Real, o estado bem-aventurado da Consciência Espiritual. Quem o atingiu, não se deixa embaraçar nem desviar pela ilusão. E quem, havendo-o atingido, nele permanece na hora da morte, entra diretamente em Nirvana (2), em Brama (3), no seio do Pai-Eterno.

----------------
Notas do Editor:

(1) Tal estado, em que todos os desejos e todos os pensamentos "dormem", mas em que se sente a mais elevada consciência da Divindade, chama-se (com o termo Sânscrito) Samadhi.

(2) A palavra Nirvana designa a desaparição de todas as ilusões; é o domínio completo do espírito sobre a matéria.

(3) Brama - Deus Criador.

---------------
Minhas notas:

(a) esse texto, como a quase totalidade do Bhagavad Gîtâ, faz parte do discurso filosófico de Krishna, o Deus encarnado, a Arjuna, o homem em desenvolvimento. O Bhagavad Gîtâ é texto fundamental na religião e filosofia hindus. Para saber mais sobre o Bhagavad Gîtâ, clique aqui.
Sanjaya, fiel servidor do rei Dhritarâsshtra, é o narrador da história, que conta ao rei, os detalhes entre a batalha entre os Kurus e os Pândavas, cenário em que ocorrem os diálogos entre Krishna e Arjuna.

(b) Palavras de Krishna, o Deus encarnado, a Arjuna. No Bhagavad Gîtâ, Krishna está no carro de batalha, ao lado de Arjuna, que representa o homem em desenvolvimento.

(c) O combate de que trata Krishna, nesse trecho, é o combate do homem contra suas tendências inferiores, contra o seu apego aos desejos materiais.

(d) Ações geram consequências. Ao falar em "Cadeia das Ações", Krishna está se referindo à lei do Karma.

(e) Notar como este texto milenar é, infelizmente, atualíssimo, chegando quase, a constituir-se numa paráfrase de Jesus, quando este referiu-se aos fariseus. Atualmente, vemos dentro das religiões, esse mesmo apego à letra, sem que o religioso se deixe penetrar pela revelação espiritual mais singela e verdadeira. Pode-se, sem medo de errar, afirmar que esse apego à forma e à letra, na atualidade, é erva daninha que cresce no seio tanto do Catolicismo, das Religiões ditas Evangélicas (Protestantismo), quanto na Terceira Revelação ou Espiritismo.

(f) Sobre Gunas, ver a seguinte publicação do próprio Bhagavad~Gîtâ: Guna-Traya-Vibihãga Yoga


Nenhum comentário:

Postar um comentário