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terça-feira, 2 de abril de 2013

OSP - Capítulo XXX - Jesus e Pôncio Pilatos


(O Sublime Peregrino - pelo Espírito Ramatís - Psicografado por Hercílio Maes)

PERGUNTA: - Que nos dizeis a respeito de Pôncio Pilatos?

RAMATÍS: - Pôncio Pilatos, como todos os procônsules seus predecessores, era também detestado pelos judeus, embora se mostrasse mais tolerante com os assuntos religiosos de tal povo. No princípio, ao assumir o comando da Judéia, ele agiu com demasiada violência, reprimindo qualquer indício de revolta ou conspiração com o suplício atemorizante da cruz. Mas, em face da política adotada por Tibério, de não enfraquecer a autoridade religiosa dos povos vencidos, e governá-los mais facilmente através do poder e da astúcia do sacerdócio organizado, Pilatos convenceu-se de que seria muito difícil domar aquele povo irrequieto, fanático, obstinado e, ao mesmo tempo, audacioso. Além disso, o Sumo Sacerdote gozava de credenciais que o favoreciam de influir até quanto à permanência e ao prestígio do procônsul, dependendo dos seus relatórios enviados a Roma. Vergílio Gaba, procurador que precedera Pilatos, gozara de poderes absolutos, pois derribava sumos sacerdotes conforme lhe apetecia; mas a política de Tibério obrigava o seu sucessor a viver em boas relações com Caifás, o Sumo Sacerdote em vigência, que era habitualmente orientado pelo seu sogro Hanan, a quem sucedera naquele cargo prestigioso na organização sacerdotal judaica. Em face disso, Pôncio Pilatos moderou a sua irascibilidade e muitas vezes teve de se curvar ao sacerdócio hebreu, para não se desprestigiar em Roma.

Pôncio Pilatos era um homem com cerca de quarenta e dois anos; era robusto, de estatura média, corado, cuja fisionomia traía um forte recalque pela vida sensual. Era calvo e procurava disfarçar a calvície no arranjo de um saldo de cabelos ao nível das orelhas, ou com enfeites próprios da época. Apesar de se mostrar afável e atencioso, quando isso lhe convinha, chegando a gargalhar muito tempo em face das tolices religiosas dos judeus, o bom fisionomista lhe identificaria alguns traços duros de despotismo e insensibilidade. Não era ríspido, mas atemorizava os que necessitavam dos seus préstimos, pois se encolerizava com facilidade quando contrariado. Enfim, traía aquela índole da fauna de políticos de Roma, em que os ambiciosos curvavam a cerviz para os mais poderosos, para depois extrair-lhes o máximo de proventos ou esmagá-los sob o tacão da bota ferrada, quando isso aprouvesse! Sumamente ambicioso, Pilatos era prudente no jogo dos seus interesses e temeroso do seu prestígio junto a Tibério, que lhe dera o cargo. Apesar de sua arrogância e repulsa contra os judeus, ele não se animava de abrir luta frontal com o Sumo Sacerdote, que era um inimigo implacável e perigoso pela sua astúcia. Hanan, o sogro de Caifás, quando em atividade no Templo, já o havia indiciado junto a Roma, através de algumas comunicações com certo fundamento, amparadas por ricos presentes à corte romana. Graças a Sejano, seu particular amigo e ministro favorito de Tibério, pilatos conseguira manter o cobiçado cargo de procurador da Judéia e doravante seria mais cauteloso quando se tratasse de decidir sobre os interesses sacerdotais. Além disso, Caifás fizera-lhe saber, indiretamente, que possuía provas de algumas negociatas inescrupulosas feitas com judeus gananciosos capazes de vender a própria alma, que faziam transações fabulosas no fornecimento de víveres e suprimentos para as embarcações e para os exércitos romanos. Através do beneplácito de Pôncio Pilatos, que assim arreava fartura de moedas para os seus cofres  particulares, esses negociantes hebreus eram livres em suas especulações. Aliás, ultimamente ele se achava  em boas graças com o Sumo Sacerdote, o qual lhe enviava, diariamente, os mais gordos faisões recebidos da província da Gália, assim como figos, tâmaras e damascos secos ou cristalizados, da mais fina qualidade, além de dezenas de caixas de excelente vinho de Chipre, que ele mais apreciava.

PERGUNTA: - Quais foram os acontecimentos sucedidos com Jesus, após ser conduzido a Pôncio Pilatos?

RAMATÍS: - O Pretório Romano funcionava no antigo palácio de Herodes, contíguo à Torre Antônia, onde sediavam-se também duas legiões romanas sob o comando de Quinto Cornélio, o centurião de confiança do procônsul. Ficava perto do Templo e distava algumas quadras da casa do Sumo Sacerdote, pois todos os edifícios principais ficavam na cidade alta. Seguindo o velho costume romano, Pôncio Pilatos iniciava a sua audiência habitualmente às nove horas da manhã, enquanto os seus assessores civis e o juízo comum, de poderes para resoluções e sentenças sumárias, que apenas lhe pediam a confirmação, funcionavam na ante-sala que se abria para o terraço ou plataforma, onde era costume dar-se conhecimento ao povo dos editos do César.

Jesus foi introduzido nessa ante-sala sob a custódia de dez esbirros do Sinédrio, enquanto a Pilatos era comunicado que se tratava de um prisioneiro já condenado pelo Tribunal Sagrado e sob recomendação particular do Sumo Sacerdote para imediato interrogatório. O Procurador de Roma surpreendeu-se diante de um homem palidíssimo, febril e abatido por visíveis sofrimentos, quando as provas e os testemunhos em seu poder o acusavam de perigoso facínora e obstinado rebelde. Esperava defrontar-se com um homem hirsuto, brutal, destemido e cínico, em vez de uma criatura humilhada, de aspecto delicado e cambaleante de fraqueza, como se mostrava Jesus de Nazaré. Provavelmente, o seu mau estado de saúde provinha de excessivos interrogatórios e da insônia; pois custava a reconhecer, debaixo daquela aparência inofensiva e atribulada, o galileu fanático e perigoso das provas criminais em seu poder. Era seu dever fazer cumprir a lei contra os infratores e manter a harmonia nas relações entre os hebreus e romanos, freqüentemente em choque. Convinha prestar alguns favores ao Sumo Sacerdote, para que depois chegassem bons informes a Roma, pois, embora isso o irritasse, o seu prestígio administrativo e a sua segurança na Judéia dependiam fundamentalmente da opinião do povo judeu, cativo e rixento, porém jamais conformado!

No entanto, Pilatos guardava lá no íntimo os seus ressentimentos contra as astutas raposas do Templo, como assim as designava, e perdia a tramontana toda vez que teimavam em lhe impor condições ou pareceres.

PERGUNTA: - Que dizeis do julgamento de Jesus por Pilatos?

RAMATÍS: Pôncio Pilatos dirigiu-se ao beleguim-chefe do Sinédrio, que conduzira Jesus à plataforma do pretório, o qual fazia o papel de relator e ao mesmo tempo de promotor, habilmente instruído por Hanan e Caifás, e inquiriu-o do seguinte modo:

- Que se julgou deste homem pelo Sinédrio?

O agente religioso entregou-lhe a peça acusatório, informando sem esconder sua arrogância:

- Jesus de Nazaré, rabino galileu, foi considerado culpado por unanimidade da pequena corte de juízes do Sinédrio; mas não possui um só testemunho a seu favor, o que o impede de justificar o recurso de apelação; também não pode ser discutido pelo Grande Conselho, em face de sua condenação de culpa ter sido por votação unânime!

Pilatos fixou duramento o emissário do Sumo Sacerdócio de Jerusalém, que jamais pestanejou sob o seu olhar inquiridor. Em seguida leu a peça acusatória, que assim dizia: "Jesus de Nazaré, rabino galileu, sedutor, inimigo da Lei, falso rei de Israel, herético Filho de Deus, Messias impostor, explorador de viúvas e órfãos, fascinador de donzelas, agitador e depredador do Templo, profanador de oblatas e inimigo das devoções, assim julgado unanimemente culpado por esta corte em juízo de emergência".

- Qual foi a sentença exarada pelo Tribunal Sagrado?, indagou Pilatos, embora desde o dia anterior já estivesse a par de todas as acusações contra Jesus, inclusive quanto à delação de Judas, que realmente o convencera das intenções subversivas do movimento cristão.

- Conforme a Lei do Tribunal Sagrado, somente hoje, à tarde, o culpado poderá ser sentenciado, redarguiu-lhe o agente de Caifás. E num tom de profunda ênfase, exclamou:

- Mas Jesus de Nazaré não feriu apenas o poder divino, porém, comprometeu a ordem pública! já foi julgado pelo direito sagrado, que está acima das competições humanas, mas agora encontra-se perante o juízo representativo do imperador Tibério, que o julgará como crime civil de lesa-pátria e subversão!

E antes mesmo que Pilatos se insurgisse contra essa arenga impertinente e provocante, em que o Sumo Sacerdote fazia-o lembrar-se de suas próprias obrigações, o beleguim ainda prosseguiu, um tom indagativo, sem mesmo disfarçar o ar acintoso de desafio:

- Jesus de Nazaré, desmoralizador do direito sagrado, será lapidado como ímpio e profanador, mas isento de culpa perante Roma e para estímulo de novas sedições; ou considerado rebelde à ordem pública, sofrerá o suplício da cruz em bom cumprimento dado pela sentença do ínclito representante do Imperador Tibério?

Pôncio Pilatos recuou no espaldar da poltrona, os lábios entreabertos e pasmado de tanta audácia! Estava habituado ao cinismo e à petulância dos hebreus, porém, jamais tolerava que se imiscuíssem em seus negócios e nas suas obrigações públicas. O Sumo Sacerdote não lhe exigia a morte de jesus, o rebelde inimigo do Clero Judeu; mas parecia desafiá-lo sob a ameaça de um rosário de consequências graves, se assim não o fizesse! Com isso demonstrava que possuía todos os trunfos na mão e jamais abdicara de tal favor!

Sentiu-se sumamente ofendido no seu amor próprio ante a atitude descarada do esbirro de Caifás, tentado a dar uma lição ao seu capataz do Templo, pois um romano jamais se curvava tão facilmente à decisão acintosa de povos escravos. Mas isso também dependeria de conhecer melhor o sedicioso Jesus, pois, se o soltasse por um capricho e ele promovesse qualquer nova insurreição, ser-lhe-ia difícil explicar a Tibério os motivos que o fizeram decidir de modo tão discutível. Então, em vez de inquiri-lo na ante-sala do Pretório, ante os juízes, mandou conduzir Jesus ao seu aposento de trabalho. Ante a fraqueza e o estado aflitivo do rabino galileu, mandou sentá-lo;

- Que fizeste, galileu, para ateares a ira dos juízes do Sinédrio e atraíres tantos testemunhos de sedição, que me obrigas a crucificar-te? - indagou Pilatos com suma altivez, mas de certa afabilidade na secura da voz.

Jesus ergueu os olhos para o Procônsul, algo surpreso do tratamento mais ameno daquele rígido romano, e volveu-lhe um olhar de gratidão. Pilatos remexeu-se na poltrona, algo contrafeito.

- Fala, galileu! - ordenou, autoritário e impaciente. - Por que violaste a ordem pública?

Ante aquela rude, mas humana compreensão, Jesus propunha-se a expor os motivos de sua vida, os seus sonhos e as suas idéias de imortalidade, as relações entre os espíritos, os fundamentos da sua doutrina de libertação da humanidade e o verdadeiro sentido do Reino de Deus, que ficava acima dos interesses e das contingências humanas. Desconhecia os motivos por que Pilatos o tratava com certa deferência, em vez de mandá-lo de imediato ao juízo comum, onde já teria sido sentenciado dezenas de vezes, tal a prodigalidade de provas e testemunhos fornecidos pelo Sinédrio.

Pôncio Pilatos compreenderia as suas esperanças e os seus ideais messiânicos; talvez o libertasse para poder continuar a sua obra de salvação humana. Mas Jesus, subitamente, envolvido por estranha vibração que o penetrou por todos os poros do corpo e lhe avivar os sentidos, tomado de surpreendente lucidez de espírito, reviveu ou quadros já vividos no Horto das Oliveiras, quase sentindo o próprio sangue a gotejar das mãos e dos pés sangrando no martírio da cruz! Então fechou os olhos, clareando-se o entendimento de sua alma, pois ainda reviu, nessa ideoplastia mediúnica, que a humanidade lhe daria as costas, num gesto de desconfiança, se ficasse liberto dos grilhões dos hebreus e romanos. Mas aquele fugaz minuto de vacilação foi vencido, ao compreender que a sobrevivência do seu Evangelho dependeria do holocausto de sua vida carnal. Cortesmente e em palavras recortadas de ternura, mas de implacável decisão, Jesus respondeu a Pilatos, que o fitava com certa preocupação, sentindo-se impelido por um sentimento de simpatia;

- Nada tenho a defender-me das acusações dos homens, pois cumpro a vontade de meu Pai que está nos céus! A morte será para mim a coroa de glórias e a salvação de minha obra para a redenção dos homens!

Pilatos franziu a testa, profundamente surpreendido e, movido por um impulso sincero, assim se expressou:

- Mas eu posso salvar-te a vida, se isso me aprouver! Que pretendes, enfim?

- Recusar a vida que me ofereces, poi isso seria deserção e cobardia; só a minha morte não desmentirá aquilo que o Senhor transmitiu por mim aos homens!

Levantou-se o Procônsul e pôs-se a caminhar movido pelos mais estranhos pensamentos. Contrariando o que narra a história religiosa, jamais Pôncio Pilatos tentou salvar Jesus por questão de simpatia ou mesmo de piedade, sentimentos esses que não se afinavam com o seu caráter curtido pelas ambições e manhas da política de Roma. O que lhe importava era apenas o prazer de uma desforra contra Hanan, Caifás e seus sequazes, por saber que estavam em jogo os mais avançados interesses do Clero Judeu. No entanto, com a recusa de Jesus à sua clemência e ao indulto oferecidos, o que lhe podia ser facultado antes de qualquer sentença do juízo comum ali reunido, a poucos passos, sentia-se inclinado a desistir da porfia contra o Sumo Sacerdócio de Jerusalém.

Novamente fitou Jesus, com um olhar em transparecia certo despeito. E assim indagou, algo ríspido:

- Como te atreves a recusar me indulto?

- Não intentes salvar-me! - redarguiu Jesus delicadamente. - Jamais seríeis perdoado pela ira dos que me condenaram!

Pôncio Pilatos ficou corado ao verificar que o próprio acusado parecia saber de suas hesitações em afrontar os sacerdotes do Sinédrio.

- Julgas que eu temo esses sacripantas do Templo? - inquiriu num assomo de altivez.

- Sou grato pela vossa clemência e sei que não temeis os vossos cativos; mas eu preciso morrer por força de minha obra; só assim ela viver´! - respondeu Jesus com tal doçura que desarmou a ira de Pilatos, fazendo-o responder:

- Eu não te entendo, galileu!

Mas, de súbito, Pôncio Pilatos começou a perceber quão importante deveria ser a morte de Jesus para Caifás e seus sequazes, e, também, a gravidade de sua decisão naquele momento. Aliás, havia alguns dias ele vinha sendo presentado om os mais apetitosos faisões, frutos das mais finas qualidades, vinhos de Chipre, que tanto apreciava, e iguarias raras. O inimigo, antes de agir junto a Tibério, acenava-lhe com as boas graças! Ademais, sabia-se em toda Jerusalém que naquela semana havia seguido um valioso carregamento de objetos, jóias e adereços raros para Tibério, sua esposa e principais cortesãos de Roma. Em consequência, Pilatos tinha razão para ficar seriamente apreensivo ante qualquer maquinação da família sacerdotal, que, para desalojá--lo da Judéia, não vacilaria ante as maiores infâmias e subornos! Enriquecia prodigamente no governo da Judéia, e em breve teria garantido agradável futuro na sua herdade de Espanha, quase desonerada de compromissos.

Deixando-se dominar por um impulso indefinível, como a auscultar os seus interesses ocultos e ao mesmo tempo satisfazer o seu brio ferido, mas sem a veemência dos primeiros momentos, Pôncio Pilatos indagou a Jesus:

- Ainda te obstinas em morrer?

- Tu o disseste! - respondeu Jesus, sem vacilar.

Pouco lhe importava que o rabi da Galiléia fosse indultado ou crucificado, pois não passava de uma peça viva igual a tantas outras que já fizera morrer por danos menores. Mas era o seu amor próprio profundamente ferido, que o levava a hesitar na sentença final; o prisioneiro era um pretexto para lhe contentar o espírito de desforra contra o Sumo Sacerdote. Talvez, se lhe tivesse sido pedida a absolvição do acusado, sem dúvida tudo faria para crucificá-lo, a fim de contradizer o seu adversário. Jesus levantou-se, compreendendo que estava finda a entrevista, e se dirigiu para a porta. Talvez atuado por alguma força oculta a que não pôde fugir, Pilatos fez um gesto com a mão, ordenando a Jesus que esperasse. Quase revoltado consigo mesmo, sofrendo ao fazer qualquer cessão ao próximo, disse bruscamente ao Mestre Cristão;

- Se desejas a morte, dize, pelo menos, o que posso fazer por ti!

Jesus fitou-o bem nos olhos, transmitindo-lhe a força do seu magnetismo sublime, o poderio do seu espírito e a ternura do seu coração. Então, pediu-lhe num supremo apelo, que tocou as fibras endurecidas do Procônsul romano;

- Se queres ajudar-me, não persigas os meus discípulo; ser-te-ei grato da Casa de Meu Pai, por toda a eternidade!

Pôncio Pilatos mirou Jesus de alto a baixo, sem poder esconder a sua admiração por aquela deliberada renúncia, pois agora não lhe era difícil compreender porque ele desejava morrer e tudo fazia par que isso se efetivasse. O generoso rabino galileu tomava a culpa de todos os seus asseclas e buscava a morte para salvá-los! Algo de benfazejo tocou-lhe a alma, pois fez um gesto confuso, traindo sincera emoção e, precipitando-se nas palavras, como se temesse de mudar de opinião, disse-lhe:

- Prometo, rabino! Enquanto eu aqui estiver, jamais perseguirei um dos teus discípulos, se retornarem às suas casas e abandonarem a sedição!

E, rodando nos calcanhares, encaminhou-se para a porta, acenando a Jesus.

Súbito, Pilatos teve uma idéia, ao perceber que o povo se juntava na adjacência do Pretório, quer devido à passagem obrigatória para o Templo, quer pela curiosidade ante o julgamento do rabino da Galiléia. Então mandou conduzir Jesus até o espaçoso terraço sob as colunas coríntias, e o expôs ao público, enquanto se reduzia o vozerio do povo e o arauto berrava:

- Silêncio! O Procurador de Roma quer falar!

Pôncio Pilatos estava corado até à calva e não escondia a sua ira e repugnância em dar qualquer satisfação dos seus atos àquele povo desprezível; mas, obcecado pelo seu bem estar e pelos seus interesses ambiciosos, tentando frustrar os objetivos de Caifás sem se candidatar a futuras vinditas, resolveu induzir o próprio povo judeu a absolver ou condenar o rabino galileu. No primeiro caso ele estaria livre do ressentimento sacerdotal; e, no segundo caso, sentir-se-ía satisfeito no seu amor próprio, pelo fato de o povo decidir pela sentença que ele mesmo negaceava em atender. Esperava logra o Sumo Sacerdote pela absolvição de Jesus através da decisão do próprio povo. Ergue a mão, num gesto de silêncio, e, apontando o rabi da Galiléia, indagou de modo arrogante:

- Que desejais a este homem? A liberdade ou a morte?

Houve um breve silêncio no seio da multidão que se juntava diante das grades do muro do Pretório. Pôncio Pilatos supôs que uma onda de simpatia envolvia aquelas criaturas a favor do acusado. Um sorriso irônico já lhe tomava os lábios, na certeza da próxima absolvição de Jesus e a consequente frustração do ardil do Sumo Sacerdote, quando estourou dos quatro cantos da praça um clamor disciplinado e num só diapasão de voz: "Crucifica-o! crucifica-o!" Era um grito ondulante, mas coerente, que estrugia numa certa ordem, abafando as vozes que provavelmente estariam pedindo a absolvição do rabi galileu.

- Morte ao Rei de Israel! Morte ao falso Filho de Deus! À cruz com o Messias! Crucifica-o! Crucifica-o! - berravam dezenas de criaturas num tom ameaçador!

Pôncio Pilatos mordeu os lábios e ficou congesto; estufou o peito e parecia explodir. Não se sentia apiedado de Jesus, mas o que o encolerizava era a frustração quanto ao objetivo de forçar os judeus a absolver o prisioneiro, para então glosar o logro de Caifás e seus sequazes.

- Cães!... - bradou ele num assomo de raiva. - Cães vendidos e mercenários!

Realmente, não era o povo, que ainda simpatizava com Jesus, que gritava o "crucifica-o", mas isso provinha da "claque" infame recrutada a peso de ouro pelo Sumo Sacerdócio, com a finalidade de pedir a morte de um justo, assim como também lhe pediria a absolvição, caso fosse bem paga para isso.

- Crucifique-se o impostor! Crucifique-se o Rei de Israel! - prosseguiam os agentes mercenários do Sinédrio, impedindo qualquer demonstração em favor do Mestre Jesus. Entre eles misturavam-se alguns sacerdotes de absoluta confiança de Caifás, e que vigiavam o infame clamor da morte. Pôncio Pilatos, receoso de contrariar a vontade daqueles astutos chefes do Sinédrio, que poderiam prejudicá-lo em Roma, comunicando a Tibério que, apesar de o povo de Jerusalém ter exigido a morte do sedicioso rabino galileu, ele o havia indultado, então exclamou irado, num desabafo de desforra:

- Quereis a morte do rabi da Galiléia? Pois seja; eu o entrego ao juízo do dia! Se ele for condenado, vós mesmos o condenastes, porque eu lavo as minhas mãos deste julgamento.

Rodopiou sobre os calcanhares, acenando para que encaminhassem Jesus à ante-sala onde se reunia a corte do juízo sumário. Diante das provas acusatórias, da confissão de judas, da condenação do Tribunal Sagrado e do interrogatório que lhe foi feito por crime de subversão, o Mestre manteve-se em absoluto silêncio, agravando ainda mais a sua situação desfavorável. Após alguns momentos de confabulações e sucinto exame das peças acusatórias enviadas pelo Sinédrio, os juízes romanos condenaram Jesus à crucificação.

PERGUNTA: - Certos autores objetam que é um absurdo a narrativa evangélica de que a crucificação de Jesus foi efetuada apenas algumas horas depois da sentença! Que dizeis?

RAMATÍS: - A justiça romana exercida nas províncias cativas contra os sediciosos, conspiradores e escravos rebeldes procedia-se de modo sumário; a condenação era imediata e a execução logo em seguida. Os romanos eram práticos e sem sentimentalismos; provada a culpa do acusado, ninguém jamais o salvaria. Embora se deva assinalar a ética avançada do Direito Romano para a época, a sua aplicação justa e racional só se referia aos patrícios e cidadãos de Roma, pois outro era o tratamento concedido aos povos cativos. Jamais contemporizavam com as tentativas sediciosas ou conspirações  contra o poder público, mas arrasavam cruelmente qualquer movimento ou objetivos insurretos, a fim de atemorizarem futuros levantes. Durante o seu domínio despótico, os romanos semearam milhares de cruzes na Palestina. onde também apodreceram milhares de rebeldes, conspiradores e até imprudentes criatura, que foram capturadas na proximidade das sedições. Os romanos endurecidos não consideravam os povos vendidos além de matéria-prima para garantir os seus feitos orgulhosos e manter as suas instituições econômicas.

Apesar da tentativa de Pôncio Pilatos em salvar Jesus para contrariar os objetivos do Sumo Sacerdócio e sua família, nem por isso ele manifestava qualquer sentimento piedoso ou de simpatia pelo acusado. A verdade é que, tivesse de sacrificar os seus interesses e suas ambições para salvar Jesus, sempre terminaria optando pelo sacrifício do rabi da Galiléia.

Cumpria-lhe atender as tradições dos judeus, pois no sábado e domingo de Páscoa não deveria haver execuções, cerimônias fúnebre ou crucificações, para não ensombrar as festividades da "cidade santa". Então a sentença de crucificação de jesus deveria ser cumprida na própria sexta-feira de sua condenação. Isso fez a "claque" do Sinédrio prorromper em aplausos, enquanto, alguns momentos depois, uma delegação de sacerdotes, adrede preparada, comparecia ao átrio do Pretório e um dos seus agentes oficiais lia, em voz untuosa, a saudação lisonjeira que o Sumo Sacerdote fazia a Pôncio Pilatos, na qual o cumprimentava pela sua "lisura" e retidão no desempenho do honroso cargo que lhe fora confiado pelo Augusto Imperador Tibério". Pilatos ainda se mostrava despeitado e irascível, tememdo a astúcia de Caifás; mas, ao ouvir a hipócrita cantilena de elogio, não pôde deixar de envaidecer-se ante a perspectiva de que seriam enviadas excelentes notícias a Roma. Alguns momentos depois, Jesus já não lhe ocupava o pensamento; nem mesmo procurou saber-lhe o destino, após assinar-lhe a sentença de morte, assunto que dali por diante ficaria a cargo do preposto do centurião Quinto Cornélio. A verdade é que o seu falso sentimentalismo de alguns minutos fora superado rapidamente pelos seus interesses e pela vaidade do mundo.

PERGUNTA: - Contam as narrativas evangélicas que Pôncio Pilatos tudo fez para salvar Jesus e o reconheceu inocente, chegando a desesperar-se porque os próprios judeus optaram pela crucificação. No entanto, dizeis que Pilatos apenas tentou desforrar-se do Sumo Sacerdote, na sua preocupação de absolver Jesus?

RAMATÍS: - O certo é que diante da severidade das provas que lhe foram entregues, Pôncio Pilatos não só considerou o rabi galileu um líder de rebeldes perigosos, como ainda reconheceu a necessidade de sua eliminação imediata em favor da segurança do seu governo. Ele não considerava inocente ou inofensivo um homem que se intitulava "Rei de Israel", mas chefiava um bando de galileu belicosos.

Não seria tão tolo a ponto de sacrificar a sua segurança administrativa na província da Judéia, só para salvar um judeu rebelde e desconhecido, já condenado pelos seus próprios compatriotas. Pôncio Pilatos não era peça de fácil engodo, pois, apesar do seu temperamento hesitante, ele se mostrava altivo, orgulhoso e déspota, nos momento em que entravam em jogo a sua ambição, vaidade e seus interesses.  Malgrado o seu caráter indeciso, a c´loera sempre o fazia decidir a seu favor, coisa em que ele jamais se enganava.

Também não escondia o seu desprezo pela religião e pelo fanatismo dos judeus, pois, quando não se ria das intrigas e aflições da crença infantil daquele povo, chegava a ameaçá-los de um dia penetrar no Templo em afrontoso desafio. É certo que os judeus também eram insolentes e não escondiam o seu desprezo pelo "magnânimo e supremo Tibério, Imperador de Roma", cuja provocação eles faziam através do seu próprio Procônsul, tão orgulhoso.

Em consequência, Jesus de Nazaré também não passava de um judeu rebelde que tanto merecia a chibata como a crucificação, embora até lhe fosse aliado na sua resistência contra o astuto Clero Judeu.  É evidente que, se Pilatos tivesse reconhecido a inocência de Jesus e lhe fosse amigo sincero, pelo menos o teria livrado da flagelação e recomendado a "bebida da morte", para logo depois da crucificação (1).

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(1) A "bebida da morte" só era ministrada por autorização superior a certos condenados à crucificação, que então gozavam de alguma consideração entre os romanos, ou tinham amigos influentes, que poderiam apelar para esse recurso da morte piedosa. Trata-se de uma bebida feita de um vinho vinagroso, da Índia, que liquidava o condenado dentro de uma ou duas horas após a crucificação, livrando-o dos padecimentos atrozes, que podiam se prolongar por dias e noites.


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