Pesquisar

Se quiser, digite seu e-mail para receber atualizações deste blogue:

Se quiser, digite seu e-mail para receber atualizações:

domingo, 31 de março de 2013

OSP - Capítulo XXIX - A Prisão e o Julgamento de Jesus, - Parte 3

(O Sublime Peregrino - pelo Espírito Ramatís - Psicografado por Hercílio Maes)

PERGUNTA: - Que aconteceu a Jesus, após a sua prisão no Horto das Oliveiras?

RAMATÍS: - Durante o trajeto do Jardim de Getsêmani até a residência faustosa de Caifás, Jesus teve desfalecimentos, pois diversas vezes os soldados tiveram de reduzir o passo para ele recuperar-se sem ser arrastado. A perda de sangue que tivera no Horto das Oliveiras deixara-o pálido, febril e abatido.

A noite ia alta quando chegaram à casa do Sumo Sacerdote; e ali já se achava reunido um conselho composto de vinte e seis membros, conhecido na época como a "pequena corte" ou "pequeno conselho", que podia ser rapidamente convocado para julgar casos de reconhecida emergência religiosa, de cujo adiamento pudessem advir prejuízos ou consequências graves no futuro. O Sumo Sacerdote, ao convocar a "pequena corte", podia fazê-lo de imediato, cabendo-lhe apresentar posteriormente as razões de tal deliberação. O Grande Conselho, composto de setenta anciãos e o Sumo Sacerdote, podia decidir quanto às sentenças proferidas pela "pequena corte", desde que os acusados conseguissem apresentar as provas cabíveis numa apelação, ou não houvesse unanimidade no julgamento. Apenas um voto contra os demais vinte e cinco votos restantes do "pequeno conselho" era suficiente para derribar ou reformar as suas sentenças, que ficariam a cargo da "corte maior".

Caifás possuía mil razões para depois justificar a convocação da "pequena corte", naquela noite; mas ainda temia algum voto favorável a Jesus, o que então deixaria em "suspenso" qualquer decisão ou sentença proferida até isso ser discutido na "alta corte". Se isso acontecesse, o rabi da Galiléia escaparia de morrer antes da Páscoa e dificilmente seria sentenciado à morte, pois ainda gozava de grande prestígio entre o povo e a simpatia geral terminaria amolecendo aqueles velhos senis do Grande Conselho. Por isso, Caifás, Hanan e a demais parentela mobilizaram todas as suas forças, manhas e fortuna, para incriminar Jesus por unanimidade; e, depois, enquadrá-lo como infrator civil, sujeito à morte sob as leis romanas.

Caifás convocara a reunião da "pequena corte" em sua própria residência, em vez de fazê-la na Câmara do Rochedo Partido, porque isso era permitido, desde que houvesse unanimidade de assinaturas dos juízes participantes. Ademais, ele queria efetuar o julgamento mesmo à noite, pois, conforme era da ética religiosa, o Tribunal não podia se reunir antes do sacrifício matinal no Templo, o que então só seria possível no dia seguinte, à tarde, sem a possibilidade de Jesus ainda ser julgado, em tempo, por Pilatos. Jamais qualquer judeu, por mais ínfimo em sua condição social ou pervertido de moral, admitiria qualquer julgamento ou punição no sábado, grande véspera da Páscoa, ou no domingo, na plenitude da festividade.

Já haviam sido tomadas todas as deliberações possíveis para sacrificar o perigoso rabi da Galiléia, embora tudo isso se processasse dentro dos ditames retos e dignos da Lei. Caifás substituíra todos os juízes que haviam demonstrado a mais sutil simpatia por Jesus, nomeando dez suplentes jovens, de sua inteira confiança, aos quais ele vinha paraninfando a carreira jurídica. O julgamento deveria obedecer a todas as regras e preceitos da mais alta dignidade tradicional daquele "Tribunal Sagrado", cujo respeito ainda não fora posto em dúvida. Mas o Sumo Sacerdote tinha certeza de que as provas e os testemunhos colhidos e a peça acusatória da confissão de Judas, seriam suficientes para forçar aqueles juízes dignos e probos a culparem o rabi galileu como "sedutor, profanador do Templo, inimigo da Lei, falso "rei de Israel" e sacrílego "Filho de Deus"!

Jamais alguém foi mais ardiloso e pródigo de talento na empreitada destruidora de uma vida, como o fizeram Caifás, Hanan e sua parentela, temerosa de perder o comando da negociata religiosa. Eles semearam espiões no seio do próprio movimento cristão, incentivando a "marcha" a Jerusalém, sob as aclamações sediciosas que foram o arremate para incriminar o ingênuo rabi da Galiléia; distribuíram bolsas de moedas aos seus agentes mercenários, transformando o incidente do Templo numa grave sublevação que, posteriormente, apresentou prejuízos vultosos aos cofres sagrados. Abriram as arcas do tesouro do Templo para subornar e obter falsos testemunhos e delações comprometedoras; compraram servos das famílias dos juízes do Sinédrio, fazendo-os distribuir notícias tendenciosas contra o rabi da Galiléia, a fim de influírem na decisão dos mesmos no ato de julgar. Em seguida, auscultaram a tendência ou a opinião pessoal de cada juiz ancião; e só depois de plenamente seguros de seu êxito é que armaram o espetáculo pomposo de julgar Jesus "pro forma", satisfazendo as aparências dignas e respeitáveis da Lei.

PERGUNTA: - Qual foi, enfim, a realidade do julgamento de Jesus, em comparação com os relatos dos evangelistas?

RAMATÍS: - Em verdade, não ocorreram aquelas cenas demasiadamente degradantes para um Tribunal de tanta dignidade e respeito como era o Sinédrio, que além de ser uma corte com funções legislativas, influía em todas as atividades dos hebreus como um cérebro coordenador da religião, educação, saúde, relações públicas e do governo. Os seus membros eram escolhidos entre os principais partidos políticos e entre as melhores famílias e academias religiosas; deviam ser homens sem vícios, íntegros e de um passado respeitoso, além de hábeis linguistas e de abalizada cultura. Mas o astuto Hanan e seu genro Caifás, em romper o verniz da casta de homens probos e dignos, conseguiram os seus intentos, ao fazerem aqueles juízes julgar sem que vislumbrassem qualquer injustiça, desforra ou matreirice no seu julgamento contra o acusado. Jesus foi julgado sob um clima de respeito e retidão, pois, afora algumas expressões iradas de um ou outro juiz mais novo, que protestou contra o silêncio dele, como se fora uma atitude insultuosa, não lhe foram negligenciados os recursos de defesa ou do critério moral do "Tribunal Sagrado".

Não foram os juízes do Sinédrio que condenaram um Jesus inocente dos crimes que lhe imputavam, mas decorreu da prodigalidade de provas que o Sumo Sacerdote conseguiu aliciar para convencer aquela corte. Convictos de que o Sinédrio condenaria Jesus, em face do sumário de culpa vultoso, Nicodemus e José de Arimatéia, que tinham sido substituídos à última hora, ainda tentaram rápida audiência com Pilatos, na noite de quinta-feira, fazendo-lhe reverente apelo para que interferisse naquele julgamento que eles consideravam desfavorável ao acusado. Mas o Procurador de Roma, que jamais colocava as solicitações alheias sobre os seus próprios interesses, alegou que não poderia influir nos negócios religiosos do Clero Judeu, e fazia votos para que tais coisas fossem resolvidas satisfatoriamente sem a sua interferência. Ele não queria comprometer as relações algo turbadas entre romanos e hebreus, e deixava o assunto para ser resolvido estritamente pelo Sumo Sacerdote. Aliás, as provas contra Jesus eram sumamente comprometedoras e a sua situação ainda mais se agravara nos últimos momentos, ante a confissão de natureza muitíssimo grave, por parte de um dos seus discípulos mais íntimos, chamado Judas, filho de Simão Iscariotes! José de Arimatéia e Nicodemus ficaram estupefatos ante a notícia da terrível delação de Judas, e partiram desalentados, reconhecendo que a situação de Jesus começava a periclitar perante o próprio Procônsul de Roma!

PERGUNTA: - Podereis descrever-nos alguns dos principais acontecimentos ocorridos durante o julgamento de Jesus pela "pequena corte" do Sinédrio?

RAMATÍS: - Diante de uma sessão solene do "Tribunal Sagrado", depois de cumpridas todas as providências legais e asseguradas as prerrogativas de defesa e de direito do réu, Jesus seria então acusado por quem de direito e de justiça, com provas, testemunhos escritos e verbais, para ser absolvido, encarcerado ou sentenciado à morte, conforme os votos de culpa, de indulgência ou de piedade dos juízes.

Mas a corte de juízes não se mostrava muito interessada em julgar aquele homem pálido, febril e cambaleante, que fizeram sentar no banco dos réus e o faziam levantar, cada vez que lhe dirigiam a palavra. A noite estava sufocante e aqueles juízes haviam deixado o aconchego do seu lar para atender à convocação de "emergência" do Sumo Sacerdote, cujo poder e prestígio não convinha enfrentar. O Sumo Sacerdote Caifás, ostentando pomposamente as vestes sacerdotais, próprias das altas funções que ali ocupava, sentava-se no centro do espaço semicircular, para o qual convergiam ambas as bancadas dos juízes. Sob o traje de seda azul-claro, via-se-lhe a túnica do mais puro linho branco, cingida à cintura por um cinto de cor vermelho-escarlate e ornamentada por botões resplandecentes de pedra de ônix. Um vistoso turbante, também azul, encimava-lhe a cabeça, cujos bordados eram finamente trabalhados a fios de ouro; no peito fulguravam doze pedras preciosas, símbolo tradicional do poder e da glória das doze tribos de Israel. Finalmente, todo esse traje esplendoroso e rico de cores e adereços, completava-se por um par de sandálias de um vermelho-púrpura, onde se viam bordados com fios delicados de prata, que lhe corriam do peito do pé aos calcanhares. Estava cercado por 13 juízes de cada lado, os que deviam julgar; mais além, sentavam-se alguns discípulos dos Conselheiros, que também se versavam no conhecimento da Lei e aprendiam retórica, muito atentos às palavras e às opiniões dos maiorais. Abaixo, quase à frente do Sumo Sacerdote, sentavam-se os escreventes da corte; o da esquerda devia anotar todos os testemunhos contra o acusado e o da direita, para assentar o que lhe fosse favorável.

O acusado tinha o direito de se defender por suas próprias palavras; e, se não o fazia, era nomeado um defensor "ad hoc", que o próprio acusado podia aceitar ou recusar até que lhe fosse do agrado. No decorrer do julgamento, os juízes trocavam idéias, discutiam as fases do processo, buscavam opiniões e procuravam conclusões sólidas, lógicas, dignas e benevolentes; pediam aos escribas para lerem as acusações e as defesas. Examinavam e reexaminavam provas, testemunhos e argumentos; e, quando ainda havia dúvidas, não se procedia a votação!

PERGUNTA: - Como decorreu o julgamento de Jesus, que dizeis muito diferente do que nos relatam os evangelhos?

RAMATÍS: - Jesus não estava atado e lhe haviam oferecido um banco tosco, próprio de qualquer acusado por Lei. O suor escorria-lhe pela barba e sofria terrivelmente o efeito do profundo desgaste ocorrido no Jardim de Getsêmani, durante o transe mediúnico e a pródiga vertência de sangue. Febril e exausto, ele orava ao Pai rogando-lhe a graça de apressar aquele cerimonial da justiça humana para julgá-lo, pois bem sabia que ninguém tentaria absolvê-lo em face do acúmulo de provas contra si.

Seguindo o decoro exigido para aquele Tribunal, o Sumo Sacerdote, em voz oleosa e depois de ter dardejado felino olhar a Jesus, deu início ao julgamento, no qual era expressamente proibido se iniciar com qualquer acusação ao réu, pois tudo deveria ser feito na forma de inquirição tolerante e esclarecedora. Como era de praxe, o acusado devia se primeiramente favorecido com a opinião formal de qualquer um dos juízes presentes. Então, Caifás exclamou:

- Que se argumente em favor do acusado!

Satisfeito, reconheceu que Jesus seria julgado com a máxima indiferença, pois fizera o propósito de reunir a pequena corte àquela hora, para julgar um caso que bem poderia ser enquadrado como infração civil e ser então da alçada do tribunal ordinário e não religioso. Percebia a ansiedade dos juízes em terminar o mais breve possível a tediosa reunião; isso lhe daria o excelente ensejo de pouca argumentação na autópsia jurídica do caso, e maior positividade de culpa pelo efeito material das provas. Após alguns momentos de silêncio, um dos juízes anciãos formulou a sua opinião favorável ao acusado, como era de praxe, dizendo numa voz quase alheia ao motivo daquele tribunal:

- Declaro que a aparência, o estado físico e a angústia do acusado recomendam a este tribunal o mais alto princípio de comiseração e benevolência. O acusado não se revela o sarcasta, o cínico ou orgulhoso, mas treme febril à frente deste juízo sagrado! - Indulgência! - Rogo indulgência no julgamento!

Caifás mordeu os lábios, algo despeitado, mas depois verificou que o juiz autor da proposição recolhia-se a si mesmo, como se já estivesse a cochilar. Percorreu a fisionomia dos demais juízes e assinalou pequenas modificações nas fisionomias dos mais novos, enquanto os anciãos se mostravam impassíveis. Então, com repugnante doçura, mandou ler a peça acusatória e os relatos verbais, o que foi feito por um dos discípulos dos Conselheiros, espécie de promotor-relator sem interferência direta no julgamento, e que enunciou as provas e os testemunhos. Encerrada a peroração acusatória, Caifás, num tom solene e grave, assim se expressou a Jesus (5):

- Jesus de Nazaré, antes que esta corte te absolva ou te castigue, depois de esgotados todos os recursos de Lei em teu favor, conforme os testemunhos de amigos, asseclas e conterrâneos, feitos sob a lisura do Santo Ofício e por vontade dos que preferiram a verdade, o certo e o acontecido, sois acusado de sacrilégio, práticas maléficas, falsas curas, mistificações de milagres, inimigo da Lei mosaica, sacrílega intitulação de "Filho de Deus" e abominável de "Rei de Israel". Comprovou-se, e este Juízo investigou, que condenas publicamente as taxas, as oblatas e os sacrifícios a Jeová e tentas empobrecer a arca sagrada do Templo, pelos desmandos dos teus discípulos pisoteando vendeiros, bens e oferendas num dos maiores insultos contra o Clero Hebreu! Apresentas-te como o Messias Salvador, iludindo o povo com imposturas e promessas do Reino de Deus, pregando a verdade com a aparência do sobrenatural e de atos impossíveis, usas o entorpecente da fascinação para atrair as herdades das viúvas e dos órfãos e dos fanáticos; da sedução, para o domínio das donzelas!

Após breve hiato, para verificar o efeito candente de suas palavras nos demais juízes, tendo-os realmente despertado ante as enunciações gravíssimas, Caifás apanhou uma lâmina de cera, à sua frente, e passou-a para o promotor-relator, acrescentando sibilinamente:

- Que se dê conhecimento desta peça acusatória de suma importância no julgamento!

Pausadamente e num tom de voz impessoal, o relator leu o mais terrível testemunho que o Sumo Sacerdote havia adjudicado à culpa de Jesus, assim exprimindo:

- Declaro e confirmo que convivi e ainda convivo com Jesus de Nazaré, rabino galileu, chefe sedicioso do movimento dos "homens do caminho", e que ele pretende arrasar o Templo, tomar o poder de Israel, destruir os príncipes dos sacerdotes e os fariseus, extinguir o culto mosaico, abrir as portas de Jerusalém aos pagãos de Tiro e Sidon e expulsar os romanos!

Enquanto o próprio Jesus parecia despertar de sua letargia e erguia a cabeça em direção ao acólito de Caifás, então foi lido, sob acurada atenção de todos os juízes, o seguinte:

- Eu o disse e confirmo pela minha vontade e estado de espírito são: Judas, filho de Simão Iscariotes.

Jesus cerrou os olhos, um momento, enquanto doloroso suspiro romou-lhe o peito ante a infamante delação. Mas não era de ressentimento, nem de aflição, pois o próprio Caifás estremeceu, açoitado por um rápido vislumbre de remorso, ao ouvir Jesus dizer:

- Pobre Judas! Tu és o mais digno de piedade!

Caifás não deixou a exclamação do Mestre influir naquele juízo, pois, rápido, dirigiu-se a ele, proferindo num tom de suprema autoridade:

- Jesus de Nazaré; antes de se expor a Lei que te castigue ou te absolva, por força dos testemunhos e da confirmação de dignidade dos juízes desta casa, devemos ouvir tua defesa pessoal ou facilitar tua confissão!...

Jesus manteve-se silencioso, olhos baixos, orando mentalmente ao Pai e rogando-lhe forças para resistir até o fim à desfaçatez daquele homem afogueado pelo mais alto índice de hipocrisia. No entanto, o seu silêncio obstinado e a sua atitude humilde, mas serena, que antes fora motivo para um intercessão favorável, agora mexia com aqueles homens de boas intenções, porém humanos, imperfeitos e algo feridos no seu amor próprio pela indiferença do acusado. Eram peças de uma organização religiosa onde funcionavam sob uma influência oculta que não percebiam. Não tardaram os murmúrios de insatisfações e os comentários a meia voz, pelo desrespeito de Jesus ao tribunal; os juízes novos deixavam escapar exclamações abafadas de "provocador", "fátuo galileu" e que Caifás conseguia ouvir, satisfeito como a raposa experiente que aprecia o êxito de sua própria maquinação.

Súbito, Hanan cruzou um olhar com o genro Caifás, que lhe anuiu; e num tom de indignidade ofendida, assim exclamou:

- Embora o acusado insulte este Tribunal Sagrado por um silêncio orgulhoso, aprovando tacitamente os testemunhos acusadores e as provas da investigação de suas culpas, manda a Lei que seja defendido por quem de direito e não ser julgado sem defesa.

Escolhido o defensor pelo Tribunal e mantendo-se Jesus em silêncio, sem aprovar ou desaprovar a sua designação, então ele fez uma peroração, algo irritado, muitíssimo preocupado com os efeitos da retórica nos membros do júri e não com a substância da causa. Considerou que Jesus não passava de um maníaco religioso, espécie de homem demente e frustrado nas suas ambições messiânicas e extravagantes, que devia ser execrado e banido da Judéia, mas não sentenciado. O promotor e relator achou que o rabi da Galiléia era homem de bom tino, um caráter perigoso e dissimulador, bastante capaz de arregimentar seres insatisfeitos e sem vocação devocional, para causar distúrbios e prejuízos à santa causa de Moisés! O julgamento atingia a madrugada e a dissertação do defensor em nada mudou a situação de Jesus, mas a sua deliberada indiferença e mutismo selaram-lhe o destino naquele Tribunal. Feita a votação e exposto o resultado do escrutínio, "Jesus de Nazaré", rabi galileu e sedicioso inimigo da Lei", fora condenado por unanimidade, pela "pequena corte" do Sinédrio, e não lhe cabia apelação para recorrer ao Grande Conselho, uma vez que não tivera um só testemunho favorável e a votação fora unânime!

Hanan e Caifás desanuviaram a fisionomia, sem mesmo esconder a satisfação que lhes invadia a alma ante o êxito perfeito de sua maquinação, a serviço de outros poderosos de Jerusalém, a cuja atividade o Mestre Cristão lhes trazia sérios incômodos e prejuízos. Num arremate cínico, o Sumo Sacerdote exclamou:

- Levai-o! Jeová que se apiade do culpado!

Era regra acatada pelo Tribunal do Sinédrio que a sentença só fosse pronunciada no dia seguinte pelo Sumo Sacerdote. Aliás, os judeus tudo faziam para não executar um patrício, mesmo quando fosse condenado por cousas abomináveis; isso era sempre uma injúria à "cidade santa", embora, naquele caso, Caifás jamais se preocupasse com tal tradição, mas apenas em destruir o seu perigoso adversário!

Esse prazo poderia ser aproveitado pelos parentes, amigos ou interessados em inocentar o culpado, assim como as próprias testemunhas ainda poderiam retificar ou reconsiderar os seus testemunhos, caso admitissem terem-se equivocado. No entanto, Jesus não gozaria dessa regalia, pois a família do Sumo Sacerdote estava atenta para impedir ou desviar qualquer manifestação de solidariedade. No dia seguinte, sem dúvida, ele estaria defronte a Pilatos para ser julgado por sedicioso contra os poderes públicos. O seu destino estava selado; seria lapidado pelos judeus, ou crucificado pelos romanos!

PERGUNTA: - Que se passou com Jesus no dia de sexta-feira?

RAMATÍS: - Pela manhã de sexta-feira, ainda cedo, o chefe dos esbirros do Sumo Sacerdote mandou retirar Jesus do edifício de segregação pública, uma quadra adiante da casa onde ele fora julgado. Ataram-lhe as mãos e o levaram apressadamente à presença do Procurador Romano. Quase todos os apóstolos haviam desaparecido e temiam aproximar-se da prisão hebraica, onde ele estava retido. No entanto, Marcos, Tomé, Tiago e o tio de Jesus, quando interrogados pelos esbirros do Sinédrio, jamais negaram a sua condição de discípulos. Acompanharam-no à distância, seriamente preocupados com o que lhe iria acontecer.

Embora o motivo real que levou Jesus à morte fosse de natureza religiosa, além de julgado pelo Tribunal Sagrado do Sinédrio, a verdade é que o Sumo Sacerdócio colheu provas e material suficiente para culpá-lo sob as leis romanas e assim crucificá-lo por um crime de Estado! A lapidação, o estrangulamento ou sacrifício na fogueira eram os processos de punição aos que se rebelavam contra a Lei mosaica; mas a cruz era um suplício romano destinado a punir escravos, rebeldes, criminosos, ladrões ou conspiradores, o que lançava a ignomínia sobre a vítima. O Sinédrio poderia sentenciar quanto à lapidação e depois conseguir a confirmação do Pretório de Roma para executá-la; mas os procuradores romanos, em geral, fechavam os olhos a essas questões religiosas dos judeus, deixando-os algo livres para agirem conforme sua lei. Era um assunto particular e Roma saía mais beneficiada ignorando a morte de mais um judeu; mesmo por que isso era providência dos próprios patrícios.

Aliás, algum tempo depois da morte de Jesus, foi lapidado Estêvão, um dos seus seguidores, sob a custódia de Saulo de Tarso; e isso fora feito sem qualquer consulta à Procuradoria de Roma. Porventura, não havia o paradoxo de se lapidar as mulheres adúlteras, na rua, o que se fazia de imediato e sem autorização dos romanos? Mas Hanan, o verdadeiro mentor da tragédia do Gólgota, alma vil e vingativa, demonstrou a Caifás que Jesus, rabi da Galiléia, era um fascinador de multidões, aceito e reverenciado como um "reformador religioso", judeu; em consequência, se ele fosse lapidado pela sentença do Sinédrio, deixaria um rasto de encanto sentimental entre o povo e forte motivo para a reação no seio dos seus próprios asseclas. Era perigoso e desaconselhável cometer tal imprudência de atear-se um rastilho de vingança na Galiléia tão espezinhada por Jerusalém! Isso poderia arregimentar os galileus em uma força coesa e decidida contra o Poder Religioso, o que não seria muito desagradável ao Procurador de Roma, sempre deliciando-se com as lutas e os problemas religiosos dos hebreus. Assim como tantas vezes já tem acontecido na história do mundo, ponderava Hanan, em breve Jesus seria transformado num mártir para execração dos seus patrícios algozes! Obviamente, se as multidões lhe iam no encalço, é porque também seguiam suas idéias famigeradas contra a pompa do Sacerdócio jerusalemita e o luxo do Templo! Em consequência, morto o chefe do movimento cristão, nem por isso seriam liquidadas suas idéias. Era preciso evitar a auréola messiânica que se formaria em torno do "Salvador" de Israel, pois a multidão é versátil e muda rapidamente por um simples gesto que a encanta ou por uma palavra que a comove! E ante a indagação muda de Caifás, Hanan, seu sogros, esboçou um sorriso cínico na face cruel, exclamando pausadamente:

- Jesus de Nazaré não deve ser punido pela Lei de Moisés, mas pela de Roma!...

E ainda glosou, através de um sorriso sardônico: - Ele não deve ser executado pelos seus próprios compatriotas; mas "vilmente assassinado" pelos inimigos de nossa raça!...

---------------
(5) Nota de Ramatís: - Seria muito fastidioso discriminar a longa peroração dos diversos personagens que participaram do julgamento de Jesus, inclusive Caifás, pois na época abusava-se da retórica, da verborragia e da altiloquência, para se enunciarem as coisas mais simples. Optamos apenas por um resumo essencial compatível com o espaço com que contamos nesta obra.


Nenhum comentário:

Postar um comentário