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sábado, 30 de março de 2013

OSP - Capítulo XXIX - A Prisão e o Julgamento de Jesus, - Parte 2

(O Sublime Peregrino - pelo Espírito Ramatís - Psicografado por Hercílio Maes)

PERGUNTA: - Que nos dizeis quanto às palavras de Jesus, que Lucas e Mateus lhe atribuem na cena da recusa do cálice de amargura, no Horto das Oliveiras, assim expressas: "Pai, afastai de mim este cálice". Segundo alguns estudiosos dos evangelistas, isso se refere a um momento de vacilação do Amado Mestre?

RAMATÍS: - É óbvio que se isso ocorreu assim como narram os evangelistas, então só Jesus poderia ter explicado o acontecimento, uma vez que João, Tiago e Pedro, que se achavam ali perto, dormiam a sono solto e não poderiam ter ouvido tais palavras. Quanto aos demais apóstolos, achavam-se no celeiro da granja de Getsêmani, ao sopé da colina das Oliveiras.

Em verdade, a recusa do cálice de amargura, que a tradição religiosa atribui a Jesus, trata-se apenas de um rito iniciático dos velhos ocultistas, com referência à vacilação ou ao temor de toda alma consciente, quando, no espaço, se prepara para envergar o fardo doloroso da vida carnal. O "cálice da amargura" representa o corpo com o sangue da vida humana; é a cruz de carne, que liberta o espírito de suas mazelas cármicas no calvário das existências planetárias, sob os cravos da maldade, do sarcasmo e do sofrimento. Só a pobreza da imaginação humana poderia ajustar as angústias de um anjo, como Jesus, à versatilidade das emoções do mundo da carne. O espírito que já tem consciência de "ser" ou "existir", também está credenciado para decidir e optar quanto à sua descida à carne, podendo aceitar ou recusar o "cálice da amargura", ou seja, o vaso de carne humana. Quantas almas, depois de insistente preparo no mundo espiritual para encarnar-se na Terra, acovardam-se à última hora o obrigam os técnicos siderais a tomar medidas urgentes, para não se perder o ensejo daquela encarnação?

PERGUNTA: - Como ocorreu a prisão de Jesus?

RAMATÍS: - Jesus havia acordado os apóstolos Tiago, João e Pedro, quando ouviu o alarido que se fazia no sopé do Horto, em direção à granja de Jeziel. Em breve, surgiram diversos discípulos agitados e aos gritos, no encalço de um grupo de dez homens, que pararam à frente de Jesus. Eram oito soldados romanos armados de lanças e espadins e dois esbirros do Sinédrio, empunhando fortes bastões. O Mestre entrecerrou os olhos, certo de que era o início de sua paixão, mas, também, isso assinalava a abertura da senda para a sua mais breve libertação espiritual. Decidido e sem temor, deu um passo à frente, indagando:

- A que vistes, amigos?

Um dos esbirros judeus avançou e apontando Jesus, disse:

- Esse aí, é o rabi da Galiléia!

Os soldados então lançaram-se a ele e o manietaram com cordas, ante o protesto dos seus apóstolos e o desespero de Pedro, que, apanhando o espadim de um dos soldados romanos, irado, caiu sobre o mastim que apontara o Mestre, quase lhe decepando a orelha. Jesus, num esforço supremo, ainda interpôs-se, dizendo a Pedro:

- Devolve a tua espada, homem! Todos os que tomarem a espada, morrerão pela espada! Não somos culpados; mas devemos sofrer a injustiça humana com resignação!

Os soldados se entreolharam, fazendo o gesto de prender Pedro; mas o ferido era judeu; e, por isso, pouco importava. João, a mando de Jesus, ali mesmo colheu ervas anti-hemorrágicas e de um pedaço de linho fez uma venda eficiente em torno da orelha sangrante do esbirro. Bruscamente, os soldados empurraram Jesus à sua frente e o ladearam depois, levando-o manietado pelas cordas, cuja ponta um deles segurava. Desceram o caminho do Horto em direção à granja, esmagando azaléias, íris, jacintos e cravos. O Mestre seguia cabisbaixo, à luz dos archotes e das lanternas da patrulha sinistra; ao passar diante do varandão da casa de Getsêmani, acenou resignado para Jeziel e parentes e hóspedes que ali o esperavam. Todos tinham os olhos marejados de lágrimas, sentindo profundamente a prisão daquele amigo terno, pacífico e humilde, que, durante sua estada na granja, oferecera as mais formosas lições de elevação espiritual.

João tentou enlaçar Jesus e seguir com ele entre os soldados; mas estes o impediram disso empurrando-o para trás; Tiago, irmão de Maria, num momento de desespero, caiu de joelhos, implorando socorro a Deus; e o jovem Tiago, irmão do Mestre, desceu a encosta em desabalada carreira, em direção à cidade. Os demais apóstolos seguiam à distância, num estado de espírito arrasador e bastante surpresos de ainda não terem sido presos. Havia dois dias não se alimentavam a contento, agitados e assustados, toda vez que o portão da granja se abria para dar passagem a alguém. Refaziam-se, pouco a pouco, do incidente doloroso com o Mestre e o instinto conservador da carne começou a predominar-lhes no espírito. O fatal calculismo humano foi-lhes tomando conta, pois refletiam que nada poderiam fazer por Jesus; e que, ao contrário, talvez até o comprometessem num momento de perturbação diante dos astutos juízes do Sinédrio! Os sofismas do homem enchiam-lhes a alma numa justificativa capciosa, enquanto as vozes das sombras lhes aconselhavam a fuga imediata!

Quando Jesus chegou à cidade, diante da casa do Sumo Sacerdote, apenas Tiago, irmão de João, Tomé, Tadeu e Mateus ainda se conservavam a certa distância, enquanto os demais apóstolos, aterrorizados, haviam voltado para Getsêmani, ou se dispersado pelo caminho. Pedro saíra a correr, em busca de José de Arimatéia, a fim de comunicar-lhe o sucedido e pedir-lhe socorro.

PERGUNTA: - Porventura, Judas não se achava presente durante a prisão de Jesus?

RAMATÍS: - Judas não retornou mais para o Getsêmani, nem teve coragem de enfrentar o seu Mestre, pois já havia concorrido para a sua prisão, embora a sua famigerada traição não tenha se sucedido conforme narram os evangelistas. Depois do fracasso da marcha a Jerusalém, em que ele fora um dos mais entusiastas organizadores, aliando-se estupidamente aos próprios esbirros do Sinédrio, ali distribuídos para fomentarem a perda de Jesus, ainda continuou a gozar da amizade dos mesmos sacerdotes que ele vivia tentando aliciar para o movimento cristão. O Sumo Sacerdote Caifás conhecia todos os passos de Judas e o acalentava nas suas ingênuas pretensões. Ele possuía "passe-livre" do Sinédrio para transitar por Jerusalém sem ser incomodado, fato que, havia dias, vinha lançando desconfianças aos demais apóstolos, pois eles não se aventuravam a se por muito a descoberto, pelas ruas. Alguns dissídios já haviam sido acalmados por Jesus, entre os seus discípulos, em face de Judas não dar satisfações de suas saídas estranhas e frequentes.

Na quinta-feira, pela manhã, Judas recebeu um amável convite do sacerdote Esdras, para comparecer à casa de Caifás e prestar-lhe o favor de alguns esclarecimentos. Adorador incondicional dos poderosos, e sentindo-se lisonjeado por essa deferência do Sumo Sacerdote, o que muito satisfazia à vaidade, apressou-se em atender ao privilegiado convite. Quando penetrou no vasto salão, onde naquela mesma noite Jesus seria julgado, estranhou que Hanan e Caifás também estivessem cercados de toda a família sacerdotal e mais alguns parentes, que se entreolharam significativamente. Convidado a sentar-se, o velho Hanan, ex-Sumo Sacerdote, mas o cérebro de todas as tramas sacerdotais, sem muitos rodeios, historiou a Judas a situação irremediável de Jesus e fez-lhe ver a ordem de prisão, já exarada pelo Sinédrio, que só dependia de uma guarda romana para ser efetivada, conforme era de praxe. Em seguida, insinuou-lhe que os asseclas mais implicados junto ao subversivo rabino da Galiléia, poderiam ser crucificados pela lei romana, como sediciosos, não escapando a Judas o tom de advertência quanto a ele mesmo. Judas mostrou-se inquieto, atemorizado e sumamente nervoso, como era próprio do seu temperamento indócil, e começou a perder o controle emotivo ante aquela inquirição macia à superfície, mas agudamente espinhosa na sua profundidade. Então, foi convidado a dizer tudo o que sabia sobre Jesus, desde o início das suas pregações na Galiléia, a sua influência no povo, o contato com os pagãos, a marcha sobre Jerusalém, a pretensa tentativa de depredações no Templo e, principalmente, a extensão da animosidade contra os sacerdotes jerusalemitas.

Em seguida, Hanan oferecia-lhe os meios de Judas sair da Judéia, fornecendo-lhe provisões e pequena fortuna, protegendo-o até a fronteira do Egito, assim que satisfizesse todas as inquirições e assinasse aquela investigação de rotina. De princípio, o infeliz apóstolo negaceou e fugiu de qualquer resposta que pudesse comprometer Jesus; mas era um temperamento incontrolável, pusilânime e de pouca resistência moral. Acossado por todos os lados e sob o turbilhão de perguntas capciosas dos membros da família de Hanan, apanhado em contradições perigosas e traindo-se cada vez mais diante daqueles homens sabidos e espertos, astutos e implacáveis em seus desígnios, Judas perdia terreno facilmente. Enfim, aterrado pela ameaça de imediata lapidação como profanador e perjuro, quando deu por si já havia fornecido dados comprometedores, embora falsos, e assinado uma confissão, onde a inverdade e a infâmia forjadas por aqueles homens vingativos transformaram-se na peça acusatória mais eficiente para eliminar o generoso rabi da Galiléia. A confissão de judas, mais tarde, impressionou e convenceu profundamente o juízes do Sinédrio e causou espécie ao próprio Pôncio Pilatos. Em seguida, o Sumo Sacerdote mandou um beleguim dar a Judas uma bolsa de moedas, capciosamente oferecida como prêmio ao seu "testemunho" de livre e espontânea vontade, dado à justiça do Sinédrio. Judas, pálido, olhos febris e terrivelmente angustiado pelas acusações que já se avivavam na sua própria consciência, mirou aquelas criaturas astutas, que o fitavam de modo desprezível pela sua delação. E quase inconsciente do que fazia, apanhou a bolsa de moedas; mas, num gesto alucinado e num grito cruciante da própria alma, atirou-a com horror aos pés do esbirro, fugindo loucamente por entre a luxuosa cortina de veludo do salão de Caifás.

A prova mais evidente de que Judas não premeditou a sua traição a Jesus, tendo sido vítima das circunstâncias adversas criadas pela sua imprudência, está no fato de ele não ter resistido mais de três dias ao seu pavoroso remorso e terminando por enforcar-se. Uma alma vil, daninha e maldosa, que agisse por pura ambição, ciúme ou vingança, também seria suficientemente insensível para continuar a viver depois da sua traição. Ele traiu o seu querido Mestre por medo, estupidez, ignorância e ingenuidade, além do seu infeliz equívoco de adorar os poderosos e confiar nos velhacos!


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