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sexta-feira, 29 de março de 2013

OSP - Capítulo XXIX - A Prisão e o Julgamento de Jesus - Parte 1

(O Sublime Peregrino - pelo Espírito Ramatís - Psicografado por Hercílio Maes)

PERGUNTA: - Em face da ligação histórica do Horto das Oliveiras à vida de Jesus, poderíeis dar-nos algumas particularidades a esse respeito?

RAMATÍS: - O Horto das Oliveiras, também conhecido como o Bosque das Oliveiras, ou Jardim de Getsêmani, em Jerusalém, era um pequeno estabelecimento agrícola, onde se faziam as plantações experimentais dos mais variados tipos de flores e vegetais para o consumo caseiro e aplicações terapêuticas, além do cultivo de especiarias para o condimento industrial e consumo caseiro. Ali se desenvolviam sementes, mudas e espécies de vegetais provindos de quase todas as partes do mundo, desde Ceilão, Egito, Armênia, Pérsia, Índia, Gália, Síria, Grécia e até de Roma. Mas  a espécie mais cultivada era a oliveira, que produzia a oliva ou azeitona, da qual se extraía o azeite de oliva pelo processo das prensas primitivas. As oliveiras davam bom resultado para os arrendatários do Horto de Getsêmani, e que na época de Jesus era atributo da família de Jeziel, seus conterrâneos e velhos amigos da Galiléia.

Ambas as encostas do Horto eram cobertas de um pequeno bosque dessas árvores, de sombra agradável a muitos forasteiros que acampavam pelas suas imediações. Desde a granja, distante um tiro de pedra da entrada do bosque, todo o terreno disponível estava criado de caminhos e canteiros, onde desabrochavam mudas e sementes de flores e vegetais, separadas das especiarias picantes, aromáticas e amargosas.

A partir do sopé do Jardim das Oliveiras, do lado oposto de Jerusalém, nascia o vale de Cedron, para onde corria o sangue dos animais sacrificados no Templo, em direção ao rio Siloé, através de valas repugnantes. O terreno era fértil e de bom adubo para os canteiros muito bem cuidados pelos servos de Jeziel, que os faziam quase ao sopé do Horto. Ali semeavam-se e cultivavam-se as flores mais preferidas pela aristocracia judaica e romana, assim como as espécies destinadas para as oferendas do Templo. Cresciam ranúnculos, lírios do vale, íris violáceos e íris de açafrão; papoulas como cálices de fogo vivo, jacintos azuis e sonhadores, pendendo de formosos cachos; cravos vermelhos como rubis e brancos como o linho de Tiro; narcisos do brejo nutridos pelo lodo do Jordão ou do campo, brotados sob o afago da brisa e da vitalidade do Sol. As azaléias coloridas, procedentes da China, pintalgavam os canteiros de belos matizes em afrontosa promiscuidade com os jasmins azuis, amarelos ou róseos, que exsudavam um perfume embriagante.

Na ala que se inclinava formando a encosta das oliveiras voltadas para Jerusalém, alinhavam-se os canteiros de especiarias repletos de sementeiras, plantas, bulbos, palmas, gavinhas, hastes e cipós estranhos. Havia arbustos de açafrão amarelo-citrino ou vermelho-púrpura, abrindo-se em folhas compridas e arroxeadas, aconselhadas para os males da asma, melancolia ou histeria; a hortelã da Grécia, de sabor apimentado, própria para acalmar os vermes, ou de cheiro, trazida da Gália longínqua, e que fornecia medicação para o estômago, o cérebro e o coração. À distância, rescendia a fortidão do cominho da Armênia, da Índia e mesmo de Roma, tão odiada; aqui, dominava a alfazema cheirosa; ali, a noz-moscada ou a canela de Ceilão; acolá, dedos de vegetais retorcidos exalavam o aroma do gengibre picante. Eram perfumes doces, cheiros, fortes e excitantes, que se misturavam aos sabores agrestes e amargosos, acasalando-se ao odor estranho da pimenta da Índia e aroma atraente, mas queimante, da pimenta negra da Pérsia.

Do cimo do Jardim das Oliveiras, podia-se ver o rio Jordão coleando como preguiçosa serpente prateada entre o verde claro e macio da planície; à distância repousava o Mar Morto emoldurado pelas clinas da Galiléia, ou cintilavam os lagos beijados pelo Sol caricioso. Entre as flores formosas e os canteiros de especiarias exóticas e odorantes, Jesus descansou seus últimos dias no mundo, quer preparando-se para o arremate trágico e messiânico de sua obra, como a despedir-se da própria Natureza que ele tanto amou. O Senhor concedeu-lhe o ensejo de gravar na sua retina espiritual e antes da crucificação, os contornos familiares das montanhas, dos caminhos e dos lagos, que lhe serviram de tribuna para a prédica do Evangelho da redenção humana.

PERGUNTA: - Como se sucederam os últimos dias de Jesus no Jardim das Oliveiras? Quais as semelhanças com a narrativa dos evangelistas?

RAMATÍS: - Na quinta-feira, Jesus foi beneficiado com a presença de alguns amigos fiéis, que o visitaram apreensivos e pesarosos, pelo que poderia lhe acontecer de grave, pois as notícias na cidade eram bem desagradáveis. Entre eles vieram Simão de Betânia e o seu parente Eleazar, mensageiros fraternos de Maria Sara, Maria de Magdala, Verônica, Joana, Salomé e outra mulheres que desejavam visitá-lo no seu retiro de Getsêmani, ansiosas para acalmarem seus corações aflitos ante os boatos assustadores. O Mestre então pediu a Simão para explicar que ele se retraía a qualquer contato muito emotivo e sentimental, pois sentia-se debilitado em suas forças psíquicas e se preparava para os acontecimentos vindouros.

Simão procurou animá-lo com argumentos otimistas, mas Jesus insistiu que a sua hora era chegada, pois em breve seria levado diante do tribunal da justiça do mundo para dar testemunho de sua vida e confirmação de sua obra pela salvação da humanidade. Recomendava lembranças a Maria, fiel e querida companheira que se achava gravemente enferma em Betânia; despedia-se de todos os amigos por intermédio de Simão e predizia um feliz encontro para mais tarde no Reino de Deus. Simão tinha os olhos rasos de lágrimas fitando Jesus com pesarosa ternura, pois bebia-lhe os gestos e as palavras. Era criatura de coração magnânimo e de elevada condição espiritual, certo de que se despedia para sempre do seu benfeitor e generoso amigo.

Jesus não quis prolongar aquele encontro terno e pesaroso; enlaçou afetuosamente Simão e Eleazar, e puseram-se a caminhar em direção ao portão da granja, o qual se abria para os lados do vale do Cedron. Após sentidos abraços de que também participaram Pedro, João, Tiago e tomé, então separaram-se os velhos amigos de Betânia. Ao longe, Simão e Eleazar ainda acenaram mais uma vez e depois desapareceram rumo a Jerusalém. À tarde, inesperadamente, chegaram Nicodemus e José de Arimatéia, cujas fisionomias preocupadas revelavam más notícias. Sem esconderem o seu estado aflitivo, comunicaram ao Mestre que a sua prisão estava por horas, e se até aquele momento não o haviam prendido, fora devido ao receio do Sumo Sacerdote, que temia a reação pública da multidão, que muito o estimava (1). Ademais, todos os membros componentes da pequena corte do Sinédrio haviam sido substituídos e acrescidos de suplentes jovens, juízes de simpatia de Caifás, que assim eliminava quaisquer adesões a Jesus, na probabilidade do seu julgamento. O velho Hanan e Caifás, seu genro, dispunham de farta messe de provas contra ele, colhida dos falsos testemunhos comprados a peso de ouro e fruto das delações obtidas sob terríveis ameaças. Jesus devia afastar-se de Jerusalém o mais rápido possível, pois apesar da lisura e do decoro dos juízes do Sinédrio, o julgamento seria efetuado sob a influência matreira e aguçada da família de Caifás. Ninguém mais poderia salvar o rabi da Galiléia, a não ser o Sumo Sacerdote, cousa impossível, pois este desejava-lhe a morte a qualquer preço! Fontes oficiais haviam informado que Pôncio Pilatos já estava se convencendo de que o fracassado movimento sedicioso dos galileus teria sido contra as autoridades romanas.

Jesus ouvia as trágicas notícias de José e Nicodemus, ambos juízes íntegros do Sinédrio, que lamentavam a impossibilidade de votar, e agradeceu pelo seu afetuoso interesse. Sem demonstrar qualquer pesar ou ressentimento por aqueles que o queriam matar, exclamou numa voz terna e de compreensivo perdão.

- "Obrigado, amigos meus! Não temo a morte, nem como ela me venha; porque vejo que passarão os homens, mas as minhas palavras permanecerão. É preciso que o filho do homem dê o sangue pela salvação do próprio homem; que a submissão à morte seja o preço e a força da própria vida, pois a luz do Espírito ilumina a sombra do corpo. Minha hora é chegada pela vontade do Pai que está nos céus; mas não se fará pela obstinação dos homens!"

Súbito cerrou de falar, como se ouvisse algo do imponderável; Nicodemus e José de Arimatéia baixaram os olhos para o solo ante aquele silêncio respeitoso. Em seguida, numa decisão em que não pôde esconder a dor pungente da despedida, Jesus arrematou:

- "Ainda que vos separei de mim pela carne, eu permanecerei convosco em espírito, porque o templo do Senhor estará por toda a Terra e o seu altar em todos os corações. Quando qualquer um de vós me buscar, eu ali estarei, porque eu vou em nome de meu Pai e em Seu nome eu voltarei."

Achegaram-se ao portão da granja, enquanto os demais apóstolos ficavam à distância, e ali se abraçaram na mais terna despedida entre corações amigos.

PERGUNTA: - Qual é a realidade dos "momentos aflitivos" de Jesus no Horto das Oliveiras, segundo os relatos dos Evangelistas?

RAMATÍS: - Quando Jesus foi crucificado, a sua auréola messiânica quase apagou-se, pois naqueles dias trágicos sumiram-se parentes, amigos e discípulos, ante o terror de serem crucificados. Mas, à medida que foram decorrendo os dias, a figura do Mestre Amado foi-se avultando, emergindo do seu martírio, assim como a planta renasce das próprias raízes depois de cortada. Em breve, sua vida e sua morte eram motivos que centralizavam os sonhos de seus adeptos e amigos, fazendo-os cultuar-lhe a memória consagrada pelas bênçãos dos seus ensinos e fidelidade de suas idéias. Os compiladores dos evangelhos, segundo os apóstolos, então cercaram-lhe a personalidade de reformador moral e religioso, de fatos e acontecimentos melodramáticos, além dos prodígios, para adaptarem sua vida às predições exaltadas do Velho Testamento. Reviram-lhe a vida e o que era singelo se tornou altiloquente; o natural, humano e lógico transformou-se em cenas milagreiras, divinas e insensatas. Acrescentaram à vida de Jesus tanto os sentimentalismos humanos e infantis, como as suas concepções fantasistas e a crença no miraculoso! Criaram o mito e eliminaram o homem; fizeram um Deus e o distanciaram da humanidade!

No Horto das Oliveiras, o Mestre Amado realmente viveu os seus últimos instantes de liberdade física no mundo e as angústias de um espírito que se elegia para o holocausto em favor do gênero humano, mas ainda temia não poder cumpri-lo de modo a firmar as bases sólidas de sua doutrina. Em verdade, ali ocorreram fenômenos de alta excelsitude com respeito a Jesus, dos quais ele saiu combalido e mal suportando o desgaste humano!

PERGUNTA: - Podeis dizer-nos o que ocorreu na quinta-feira a Jesus e seus apóstolos?

RAMATÍS: - Conforme dissemos, durante o dia diversos amigos, adeptos e parentes de Jesus o visitaram na granja de Gethsemani, trazendo-lhe  notícias alarmantes e alguns se propondo a tirá-lo de Jerusalém. Após a oração das seis horas e frugal refeição, em que Jesus mal tocou nos alimentos, ele deliberou subir ao Horto, e de lá usufruir um pouco da beleza da noite estrelada, que chegava silenciosamente. Estava quente e um forte mormaço prenunciava chuva para a madrugada; os apóstolos, além de aflitos e atemorizados, estavam cansados. O Mestre saiu do seu pequeno aposento; e, ao passar diante do celeiro grande, viu-os recostados pelos fardos de feno, deitados sobre as mantas e peles de carneiro; suas fisionomias atribuladas traíam as reflexões mais dolorosas. Bartolomeu e Filipe, que haviam dito os mais lúgubres vaticínios para o movimento cristão, ali se encontravam pálidos e arrasados; Simão Cananeu não controlava os seus movimentos nervosos; Tomé, crente sincero na obra do homem e descrente da revelação divina, parecia conformado com aquele final bem humano; Tadeu e André tinham o olhar absorto e seus espíritos deviam vagar pela Galiléia, revendo paisagens de infância e sonhando com o lar pacífico e amigo. Mateus, homem organizado e sensato, parecia alheio ao perigo iminente, pois ouvia, sorridente, a prosa ingênua e jovial de Tiago, filho de Alfeu. Judas havia desaparecido desde as primeiras horas da manhã de quinta-feira, e ninguém mais o viu, causando estranheza o fato de ele vagar por toda a cidade sem qualquer impedimento, embora alegasse que ninguém o reconhecia como discípulos de Jesus. João, Tiago e Pedro, à vista de Jesus, levantaram-se precipites para companhá-lo a qualquer lugar. Mas o Mestre achegou-se aos seus apóstolos e o seu olhar compassivo, mas enérgico, terno e estimulante, percorreu-os um a um, ali, à sua frente. Havia um fardo de feno a seu lado, que por curiosa coincidência era o extremo do círculo daquela fila de homens sentados, recostados e vencidos pela fraqueza espiritual e pela exaustão corporal. Sentou-se à frente dos mesmos, condoído de suas debilidades humanas e mal preparados para os embates gigantescos do espírito imortal; eles haviam agravado a sua situação devido à imprudência de darem ouvidos à voz das sereias subversivas, que nutriram no seio do movimentos cristão as exaltações perigosas, arruaças e tentativas violentas contra os poderes públicos.

Jesus então compreendeu que era preciso animá-los, vitalizando-lhes as forças abatidas, e contagiá-los de modo a não subestimarem a mensagem do Evangelho salvador do homem. Precisaria transmitir-lhes forças espirituais para ajudá-los a enfrentarem os seus destinos duros e suportarem as misérias e defecções humanas, no futuro. Sentiu-se enlevado por generoso bálsamo em sua alma; uma voz amiga ciciava-lhe nos ouvidos os termos de conforto e esperança àquela gente. Tocado por essa inspiração superior, ergueu-se, e num tom profético e vibrante, assim lhes disse:

- "Não vos desespereis; eis chegada a hora em que o filho do Homem será entregue nas mãos dos pecadores; mas dormi e descansai, pois só o Pastor será motivo de escândalo; as ovelhas do rebanho não perderão o seu redil. Não vos será tirada a Galiléia, porque o vosso testemunho ainda não pede a prova do sangue do corpo, mas apenas o tributo sagrado do espírito. Dei-vos as palavras que Deus me deu; o Pai glorifica-me a mim e em vós mesmos, na manifestação do Seu nome entre os homens. Eu acabarei a obra que o Pai me encarregou e não temo deixar o mundo a que vim porque torno outra vez ao reino de Deus que está nos céus!"

Aguardando o efeito otimista e confortador das suas palavras dirigidas aos discípulos, que então se mostraram animados e esperançoso, Jesus arrematou, consolidando-lhes aquele estado de confiança:

- "Vós me credes? Pois é chegada hora em que sereis espalhados, cada um para sua parte; eu ficarei só, mas o Pai estará comigo! Tende confiança no que vos digo; vós haveis de ter aflições no mundo; porém, ainda não é chegada a vossa hora e vereis os que são da vossa carne, pois com eles ainda vivereis."

Os apóstolos se entreolharam, surpresos, mas confiantes; súbito, deram por si, que Jesus se encaminhava, como de costume, para orar no cimo do Horto. Então ergueram-se, num só gesto, para acompanhá-lo; mas ele os susteve, dizendo afetuosamente:

- "Assentai-vos aqui, enquanto eu vou acolá e faço oração" (2).

Mas Pedro, João e Tiago não se deram por vencidos e seguiram o Mestre subindo pelo caminho florido do Horto, enquanto os demais companheiros, algo fatigados, continuaram à frente do celeiro, alguns acendendo lanternas e outros, archotes. Mas o Mestre jesus, que havia fornecido tanto ânimo e esperanças, subitamente, passou a angustiar-se sob a tensão oculta de pesada responsabilidade. Não era o medo do homem ante a perspectiva da morte, pois ele sentir-se-ia ditoso em retornar ao seu mundo paradisíaco. Também não se entristecia de deixar a Terra, na qual não possuía outros vínculos além de sua renúncia e o seu amor ao gênero humano. Mas apesar de sua resignação e conformação, pressentia que o seu próximo testemunho seria de grandiosa influência para a redenção do homem. Sábio, Justo e Bom, mas submerso na matéria, Jesus ignorava como se portaria nessa prova excepcional de cujas consequências dependeriam o êxito e a sobrevivência de sua obra evangélica.

Deixando João, Tiago e Pedro a meio caminho, pois desejava orar a sós, alcançou o cimo do monte das Oliveiras, e ali descansou alguns minutos na mais santa comunhão espiritual com a Natureza. Sob a excelsa vibração que lhe influenciava a alma, pôs-se a reviver todos os seus passos assinalados no mundo material. Recordava os seus sonhos grandiosos de amor pela humanidade e a sua paixão ardente pelo Senhor da Vida, agasalhados desde a mais tenra infância e alentados até aquele profético momento. Jamais alguém no mundo consumiu-se anto no fogo do amor ao próximo e no sacrifício pela Verdade. O Mestre Jesus foi arrebatado por tão grandiosa e indefinida emoção, que prostrou-se de rosto na terra, como se desejasse fundir a sua natureza espiritual com a substância do mundo que lhe compunha o próprio corpo carnal. Depois, abriu os olhos para a noite quente e estrelada, envolto por infinita paz. Mas, de súbito, sentiu-se, pouco a pouco, transformado num frondoso arvoredo pejado de ramos carregados de folhas e frutos, que amparavam todos os infelizes e injustiçados do mundo ali chegados em busca de sua sombra dadivosa. Sob a assistência do Alto, Jesus reviu nessa ideoplastia mediúnica o "motivo fundamental" de sua própria vida na matéria, ante o compromisso fabuloso que assumira antes de descer à carne, pois essa árvore protetora nutria-se com o adubo fértil do seu próprio sangue vertido no martírio.

Embora angustiado, sentiu-se extremamente feliz ao comprovar que sobreviveria a sua obra evangélica redentora da humanidade, malgrado isso lhe exigisse o holocausto da vida e a doação de seu sangue. Represando as próprias emoções de anjo exilado na carne, Jesus, então, sentia-se como um "canal vivo" ou o "élan" da salvação dos homens, enquanto crescia-lhe a imensa dor espiritual ante a dúvida angustiada de não corresponder integralmente à vontade do Senhor. Prosternando-se novamente no solo, de mãos postas, exclamou com todo o fervor de sua alma: "Pai meu! Que se cumpra a vossa vontade; eu não temo o martírio e a morte, porém, ajuda-me a conhecê-los para saber enfrentá-los".

Novamente, sublime vibração sideral tomou-lhe a alma e o seu espírito parecia libertar-se cada vez mais das formas agrilhoantes da carne; súbito, sua mente foi atingida por repentino fulgor ou rápido relâmpago, enquanto se clarificava na sua consciência física a silhueta trágica de três cruzes erguidas no cimo de uma colina. Envolto por augusto silêncio, ele percebia nesse novo transe, a forma da Terra e os contornos das cidades, onde os homens dormiam tranquilamente; mas ele, Jesus, é quem realmente velava por esse sono ditoso dos terrícolas, suspenso entre o reino do espírito e o mundo da matéria, com seus braços abertos e atados sobre uma cruz. Porém, ultrapassando aquela dor extrema e inumana, que o desprendia da carne, e vibrando sob o elevado impacto de voltagem sideral, ele sentia, então, na própria alma, estranho fenômeno que absorvia toda a vivência interna. Num extremo, a pulsação e o rodopiar dos astros, das constelações e galáxias; e, noutro extremo, o vibrar dos átomos no seio das moléculas das flores, dos vegetais e da substância terrena. Ouvia o estranho turbilhão dos mundos pejados de civilizações, rodopiando em torno dos seus sóis, e, ao mesmo tempo, o ruído estranho da seiva a subir no caule dos vegetais. Jesus, num átimo de segundo, abrangeu o macrocosmo e o microcosmo, consciente de sua força e do seu poder, da sua sabedoria e da sua glória.

Esse fenômeno acontecido com Jesus, conhecido entre os hindus como o "samadhi" e entre os ocidentais como o "Êxtase!, é um rápido fulgor da verdadeira vida espiritual do ser quando atinge o Nirvana, a comunhão com o Pai, embora sem perder sua individualidade sidérea. Em tal momento, fundem-se as distâncias, o tempo e o espaço convencional da mente humana limitada, enquanto a alma abrange consciente perceptível, tanto a vida do macrocosmo, como a do microcosmo, fundindo-se na sua intimidade as constelações dos astros com as constelações dos átomos, pois a matéria é o "Maya", a Ilusão, e só o Espírito é a Verdade!

Mas a composição ideoplástica da visão das cruzes no Calvário, quase sustou a vida carnal de Jesus, devido ao potencial de força espiritual que foi mobilizado para transformar as idéias próprias do mundo do Espírito, nas imagens que pudessem ser reconhecidas na tela do seu cérebro físico. O cérebro ardia-lhe pelo impacto sidéreo, além da sua capacidade humana de resistência, enquanto os nervos estavam frouxos, desgastados e o sangue superativado pela alta pressão que ameaçava romper os vasos cerebrais. Súbito, num esforço heróico empreendido pela própria natureza carnal, a corrente sanguínea efervescente foi drenada pelas glândulas sudoríparas; e grossas bagas de suor e sangue caíram ao solo, deixando o Mestre frontalmente exaurido em suas forças vitais (3).

Voltou a si completamente debilitado, pois consumira naquele momento alguns anos de sua existência física, exaurindo o comando do cérebro esgotado. Deli por diante, só se manteria vivo à custa de recursos vitais fornecidos pelos seus amigos habitantes do reino espiritual. Ergueu-se, levando a mão ao peito, cambaleante; em seguida, pôs-se a descer lentamente o caminho da granja, chegando junto a Pedro, que ressonava alto, recostado num tronco de oliveira, enquanto João e Tiago, cabeça apoiada nos braços, também dormiam a sono solto. Devia passar das oito horas; então sentiu-se inquieto, certo de que sua noite seria de insônia; por isso resolveu retornar mais uma vez ao cimo do Bosque sem acordar Pedro, Tiago e João. Uma leve aragem levantou o perfume das azaléias, narcisos e jacintos dos canteiros a seu lado, afagando-lhe as faces úmidas; de mãos postas, pôs-se a orar outra vez ao Pai.

Finalmente, decidiu repousar, achegando-se outra vez junto dos três discípulos que ainda dormiam pesadamente; então os acordou suavemente, dizendo-lhes: "Dormistes e descansastes; agora acordai, que é chegada a hora da despedida, pois o Filho do Homem será entregue nas mãos dos pecadores! Levantai-vos, porque já vêm chegando aqueles que hão de me levar para o cumprimento da vontade do Senhor! (4).

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(1) "E quando procuravam prendê-lo, tiveram medo do povo, porque este o tinha na estimação de um profeta." (Mateus, cap. XXI, v. 46).
(2) Mateus, XXVI - 36.
(3) "E posto em agonia, orava Jesus com maior instância. E veio-lhe um suor, como que gotas de sangue, que corria sobre a terra." (Lucas, XXII - 43 e 44).
(4) Mateus, cap. XXVI - 45 e 46.

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