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sexta-feira, 21 de abril de 2017

O Céu e o Inferno - Segunda Parte - Capítulo V - Suicidas

MÃE E FILHO 


Em março de 1865, o Sr. M. C..., negociante em pequena cidade dos arredores de Paris, tinha em sua casa, gravemente enfermo, o mais velho dos seus filhos, que contava 21 anos de idade. Este moço, prevendo o desenlace, chamou sua mãe e teve forças ainda para abraçá-­la. Esta, vertendo copiosas lágrimas, disse-­lhe: “Vai, meu  filho, precede­-me, que não  tardarei a seguir-­te.” Dito isto, retirou-­se, escondendo o rosto entre as mãos. 

As pessoas presentes a essa cena desoladora consideravam simples explosão de dor as palavras da Sra. C..., dor que o tempo acalmaria. Morto o doente, procuraram-­na por toda a casa e foram encontrá-­la enforcada num celeiro. O enterro  da suicida foi juntamente feito com o do filho. 

Evocação deste, muitos dias depois do fato.


— P. Sabeis do suicídio de vossa mãe, em conseqüência do desespero que lhe causou a vossa perda? 

— R. Sim, e, sem o pesar causado por essa fatal resolução da parte dela, julgar­-me­-ia completamente feliz. Pobre, excelente mãe! Não pôde suportar a prova dessa separação momentânea, e tomou, para se unir ao filho, o caminho que dele mais deveria afastá­-la. E por quanto tempo! Assim, retardou indefinidamente uma reunião que tão pronta teria sido se sua alma se conformasse submissa às vontades do Senhor; se fosse resignada, humilde, arrependida diante da provação que se lhe impunha, da expiação  que deveria purificá­-la!  Orai, oh!  Orai por ela!... E sobretudo não a imiteis, vós outras, mães que vos comoveis com a narrativa da sua morte. — Não acrediteis que ela amasse mais que as outras mães, a esse filho que era o seu orgulho, não; é que lhe faltaram a coragem e a resignação. Mães, que me ouvis, quando  a agonia empanar o  olhar dos vossos filhos, lembrai­-vos de que, como o Cristo, eles sobem ao cimo do Calvário, donde deverão alçar­-se à glória eterna.  

Benjamin C...  

Evocação da mãe.


—  R. Quero  ver meu  filho. Tendes o  poder de dar-­mo? Cruéis!... Tomaram­-mo para levá-­lo à luz, e a mim me deixaram em trevas. Quero-­o... Quero-o  porque me pertence!... Nada vale então  o amor materno? Pois quê! tê-­lo  carregado no  ventre por nove meses; tê-­lo  amamentado; nutrido  a carne da sua carne, sangue do  seu  sangue; guiado  os seus primeiros passos; ensinado a balbuciar o sagrado nome de Deus e o doce nome de mãe; ter feito dele um homem cheio  de atividade, de inteligência, de probidade, de amor filial, para perdê-­lo  quando realizava as esperanças concebidas a seu respeito, quando brilhante futuro  se lhe antolhava!  Não, Deus não  é justo; não é o  Deus das mães, não  lhes compreende as dores e desesperos... E quando  me dava a morte para me não  separar de meu filho, eis que novamente mo roubam!... Meu filho! meu filho, onde estás?  

Evocador. 

— Pobre mãe, compartilhamos da vossa dor. Buscastes, no entanto, um triste recurso para vos reunirdes ao vosso filho: — O suicídio é um crime aos olhos de Deus, e deveis saber que Deus pune toda infração das suas leis. A ausência do  vosso filho é a vossa punição.  

Ela.

— Não; eu julgava Deus melhor que os homens; não acreditava no  seu  inferno, porém cria na reunião  das almas que se amaram como  nós nos amávamos... Enganei-­me... Deus não é justo nem bom, por isso que não compreende a grandeza da minha dor como do meu amor!... Oh! Quem me dará meu filho? Tê­-lo-­ei perdido para sempre? Piedade! Piedade, meu Deus!  

Evocador. 

— Vamos, acalmai o vosso desespero; considerai que, se há um meio de rever vosso filho, não é blasfemando de Deus, como ora o fazeis. Com isso, em vez de atrairdes a sua misericórdia, fazeis jus a maior severidade.  

Ela. 

— Disseram-­me que não mais o tornaria a ver, e compreendi que o  haviam levado ao paraíso. E eu estarei, acaso, no inferno? no inferno das mães? Ele existe, demais o vejo...  

Evocador. 

— Vosso filho não está perdido para sempre; certo tornareis a vê-­lo, mas é preciso merecê-­lo pela submissão  à vontade de Deus, ao passo que a revolta poderá retardar indefinidamente esse momento. Ouvi­-me: Deus é infinitamente bom, mas é também infinitamente justo. Assim, ninguém é punido sem causa, e se sobre a Terra Ele vos infligiu grandes dores, é porque as merecestes. A morte de vosso filho  era uma prova à vossa resignação; infelizmente, a ela sucumbistes quando em vida, e eis que após a morte de novo sucumbis; como pretendeis que Deus recompense os filhos rebeldes? A sentença não é, porém, inexorável, e o arrependimento do culpado  é sempre acolhido. Se tivésseis aceito a provação com humildade; se houvésseis esperado com paciência o momento da vossa desencarnação, ao entrardes no mundo espiritual, em que vos achais, teríeis imediatamente avistado vosso filho, o qual vos receberia de braços abertos. Depois da ausência, vê-­lo-­íeis radiante. Mas, o  que fizestes e ainda agora fazeis, coloca entre vós e ele uma barreira. Não o julgueis perdido nas profundezas do Espaço, antes mais perto do que supondes — é que véu  impenetrável o subtrai à vossa vista. Ele vos vê e ama sempre, deplorando a triste condição em que caístes pela falta de confiança em Deus e aguardando ansioso o  momento feliz de se vos apresentar. De vós, somente, depende abreviar ou retardar  esse momento. Orai a Deus e dizei comigo: “Meu Deus, perdoai­-me o ter duvidado  da vossa justiça e bondade; se me punistes, reconheço tê­-lo merecido. Dignai­-vos aceitar meu arrependimento e submissão à vossa santa vontade.”  

Ela. 

— Que luz de esperança acabais de fazer despontar em minha alma!  É um como relâmpago em a noite que me cerca. Obrigada, vou orar... Adeus. 

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A morte, mesmo pelo suicídio, não produziu  neste Espírito a  ilusão de se julgar ainda vivo. Ele apresenta­-se consciente do seu estado: — é que para outros o castigo consiste  naquela ilusão, pelos laços que os prendem ao corpo. Esta mulher quis deixar a Terra para  seguir o filho na outra vida: era, pois, necessário que soubesse aí estar realmente, na certeza  da desencarnação, no conhecimento exato da sua situação. Assim é que cada falta é punida de  acordo com as circunstâncias  que  a determinam, e  que  não há  punições uniformes para as  faltas do mesmo gênero. 

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