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domingo, 8 de junho de 2014

A Sabedoria Antiga - Introdução - Parte 09 - Filosofia Grega

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Dirigindo-nos ao Ocidente, para a Grécia, encontramos o sistema órfico, do qual o Sr. G. R. S. Mead (a) nos fala em sua obra intitulada Orpheus. A Inefável Obscuridade Três Vezes Desconhecida, tal era o nome dado à Existência Una.

"Segundo a teologia de Orfeu, todas as coisas têm sua origem em um princípio infinito, ao qual a débil e pobre concepção humana nos obriga a dar um nome, embora ele seja perfeitamente inefável.

Este princípio é, de acordo com a linguagem reverente dos egípcios, uma obscuridade três vezes desconhecida, na contemplação da qual toda a ciência se sente ignorante." (Thomas
Taylor (b) citado em Orpheus, pág. 93)

Do todo procede a "Tríade Primordial"; o Bem Universal, a Alma Universal e a Inteligência Universal. Eis, pois, novamente, a Trindade Logóica. Mead fala-nos dela nos termos seguintes:

"A primeira Tríade que se manifesta ao intelecto é apenas uma reflexão ou uma representação do que não pode ser manifestado. Suas hipóstases são: a) o Bem, que é superessencial; b) a Alma (a alma do mundo), essência autodeterminante; d) a Inteligência (ou a Mente), que é uma essência indivisível, imutável." (Ibid, pág. 94)

Vem depois uma série de Tríades sempre descendentes, reproduzindo com um esplendor decrescente as características da primeira, ate chegar ao homem, que "contém em si potencialmente a soma e a substância do Universo... A raça dos homens e dos deuses é uma única". (Píndaro, que era pitagórico, citado por S. Clemente. Stromata, v. 709)"... Eis por que o homem foi chamado o microcosmo ou pequeno mundo, para distingui-lo do Universo ou grande mundo." (Ibid, pág. 271)

"Ele tem o Nous, ou mente real; o Logos ou parte racional; o Alogos ou parte irracional (as duas últimas, novamente formando uma Tríade), assim apresentando a mais elaborada divisão setenária. O homem era também considerado como tendo três veículos, o corpo físico, o corpo sutil, e o corpo "luciforme" ou augoeides. Este é o "corpo causal" ou vestimenta kármica da alma, onde se acumulam seu destino e todos os germes da casualidade. E esta "alma-fio" é o corpo que passa de encarnação em encarnação." (Ibid, pág. 284)

Quanto à reencarnação:

"Tal que todos os filiados aos mistérios em todos os países, os órficos acreditavam na reencarnação." (Ibid,. pág. 292)

Mead cita em apoio de sua asserção numerosos testemunhos, e mostra que esta doutrina foi ensinada por Platão, Empédocles, Pitágoras e outros. Somente pela virtude poderia os homens libertar-se da "roda das vidas".

Taylor, em notas de seu 'Select Works of Plotinus', cita uma passagem de Damascus com relação aos ensinamentos de Platão sobre além do Uno, a Existência Não-Manifestada:

"Na verdade, Platão talvez nos conduza docemente através do Uno como intermediário até ao Inefável que fica além do Uno, que é agora objeto da nossa discussão, aí chegando por uma oblação do Uno, assim como ele foi conduzido a Este por um sacrifício das outras coisas... O que está além do Uno deve ser honrado no mais perfeito silêncio... Na verdade, o Uno quer existir por Si mesmo, sem mais ninguém. Mas o desconhecido que está além do Uno, é perfeitamente inefável, e confessamos que não podemos conhecê-lO, pois que para nós está coberto dum véu de superignorância. Por isto, estando próximo d'Aquele, o Uno é obscurecido, pois estando próximo do princípio infinito, se assim me for permitido exprimir, permanece no santuário deste silêncio verdadeiramente místico... O princípio está acima do Uno e de todas as coisas, porque é mais simples que cada uma destas coisas." (pág. 341-343)

As escolas pitagóricas, platônica e neoplatônica têm tantos pontos de contato com o pensamento hinduísta e budista que sua origem de uma fonte única parece evidente. R. Garbe, em sua obre Die Sankhya Philosophie (III, pág. 85-105) (c), faz ressaltar inúmeros desses pontos e sua opinião pode ser resumida no seguinte:

"O que há de mais notável é a semelhança - ou melhor, a identidade - da doutrina do Uno nos Upanishads e na Escola de Eléa. O ensinamento de Xenófanes sobre a unidade de Deus e do Cosmos, sobre a imutabilidade do Uno, e também o de ser Parmênides, que considerava a realidade como não podendo ser atribuída senão ao único incriado, indestrutível e onipresente, enquanto tudo que era múltiplo e sujeito a transformação não era senão aparência, e que também ensinava que ser e pensar são a mesma coisa - estas doutrinas são completamente idênticas ao conteu´dio essencial dos Upanishads (d) e da filosofia "Vedanta" (e) que deles deriva. E uma ainda mais remota opinião de Tales (f), de que tudo quanto existe saiu da água, assemelha-se extraordinariamente à doutrina védica, segundo a qual o Universo surgiu do seio das águas. Mais tarde, Anaximandro (g) adotou como base de todas as coisas uma substância esterna, indefinnida, donde procedem todas as substâncias definidas, e para onde voltam - hipótese idêntica à que se encontra como raiz da filosofia sankhya, isto é, a Prakriti (h), da qual se desenvolveu todo o aspecto material do Universo."

E a palavra célebre "panta rhei" (i) exprime a opinião característica da Sankhya, de que todas as coisas se modificam continuamente sob a incessante atividade das três "gunas" (j). Por sua vez, Empédocles ensina um sistema de transmigração e de evolução idêntico em tudo ao dos Sankhyas e sua teoria, de que nada pode vir à existência sem que já tenha existido antes, e que apresenta uma identidade ainda mais estreita com uma das doutrinas características da filosofia sankhya.

As doutrinas de Anaxágoras (k) e de Demócrito são, em muitos pontos, rigorosamente idênticas às doutrinas hinduístas - especialmente as idéias de Demócrito sobre a natureza e o papel dos deuses. Podemos dizer a mesma coisa de Epicuro, notadamente em alguns curiosos pontos de detalhe. Mas é sobretudo nas doutrinas de Pitágoras que encontramos a mais estreita e a mais frequente identidade de ensino e de argumentação. E a tradição explica estas analogias dizendo que Pitágoras visitou a Índia e aí aprendeu sua filosofia.

Em séculos mais recentes, vemos certas idéias verdadeiramente sankhyanas e budistas representarem um papel preponderante no pensamento gnóstico. O extrato seguinte de Lassen, citado por Garbe (pág. 97), apresenta-nos claramente um exemplo:

"O budismo em geral estabelece uma distinção muito nítida entre o Espírito e a Luz, e não considera absolutamente esta última como imaterial. Encontra-se também nesta religião um ensinamento que muito se aproxima da doutrina gnóstica. Segundo este ensinamento, a Luz é a manifestação do Espírito na Matéria; a Inteligência, assim revestida de Luz, entra em relações com a Matéria, na qual a Luz pode ser amortecida e até totalmente obscurecida. Neste último caso, a Inteligência acaba por cair na inconsciência completa. A Suprema Inteligência não é nem Luz nem Não-Luz, nem Obscuridade nem Não-Obscuridade, pois que todas estas expressões indicam relações da Inteligência para a Luz, relações que não existem no começo. Foi somente mais tarde que a Luz envolveu a Inteligência e veio servir-lhe de intermediário em suas relações com a Matéria. Daí se conclui que a teoria budista atribui à Suprema Inteligência o poder de gerar de si mesma a Luz e, a este respeito, também vemos acordo entre o budismo e o gnosticismo."

Garbe aqui demonstra que, nos pontos referidos, a concordância entre o gnosticismo e a filosofia sankhya é ainda mais completa do que com o budismo. Porque, enquanto esta maneira de encarar as relações entre a Luz e o Espírito pertence a uma fase mais recente do budismo e não constitui um seu caráter essencial, ao contrário a filosofia sankhya ensinou com clareza e precisão que o Espírito é a Luz. Mais recentemente ainda, a influência do pensamento sankhya se encontra nitidamente assinalada nos neoplatônicos, ao passo que a doutrina do Logos ou do Verbo, embora não sendo de origem sankhyana, mostra em seus detalhes que ela foi proveniente da Índia, onde a concepção de Vach (l), o Divino Verbo, goza um papel tão preponderante no sistema bramânico.


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Minhas notas:

(a) G. R. S. Mead: George Robert Stowe Mead, escritor, editor e tradutor inglês, membro da Sociedade Teosófica. Foi secretário pessoal de Helena Petrovna Blavatski.

(b) Thomas Taylor foi um tradutor inglês do Neoplatonismo. Foi o primeiro a traduzir para o inglês os trabalhos completos de Aristóteles e de Platão assim como alguns fragmentos do orfismo.

(c) Richard von Garber (ou Richard Kral Garber): indologista alemão.

(d) Upanishads: os Upanixades são textos hindus que remontam dos séculos XVI a VII a.C. e que se constituem de ensinamentos de cunho filosófico, baseados nos Vedas, textos sagrados do hinduísmo. Existem 123 Upanixades.

(e) Vedanta: uma das mais antigas filosofias religiosas do mundo. Preocupa-se com a auto-realização através da vivência de um estado transcendente no qual o indivíduo poderia conhecer a Verdade.

(f) Tales de Mileto: filósofo grego.

(g) Anaximandro: discípulo de Tales de Mileto.

(h) Prakriti, tanto na filosofia Vedanta quanto na Teosofia, corresponde ao mundo material, à natureza objetiva, ou seja, a que ambas as filosofias consideram como ilusória.

(i) Panta rhei, palaras atribuídas a Heráclito, significando "tudo flui".

(j) "Gunas" são as três qualidades inerentes à matéria. Para maior esclarecimento, segue texto do Bhagavad~Gîtâ:

"Tudo o que tem lugar na Matéria e na Consciência é consequente de três qualidades, as quais são o motivo de todos os atos materiais de sentir, querer, pensar e agir. Estas três qualidades, forças ou "gunas" chamam-se, em termos sânscritos: "Sattwa", "Rajas" e "Tamas"

"Sattwa" designa Equilíbrio, Ritmo, Harmonia; "Rajas", Atividade, Movimento, Emoção, Ambição; "Tamas", Estabilidade, Resistência, Inércia, Obscuridade."

(k) Anaxágoras: filósofo grego do período pré-socrático.

(l) Vach, em sânscrito significa literalmente "Palavra" ou "Som"


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