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terça-feira, 15 de setembro de 2015

A Sabedoria Antiga - Capítulo 3 - Kamaloka - Parte 02

Capítulo III - Kamaloka - Parte 02

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Podemos agora considerar uma a uma as subdivisões do Kamaloka (a), para formarmos uma ideia das condições que o homem prepara para si, neste estado intermediário, pelos desejos que alimenta durante sua vida física. Porque devemos recordar-nos que a soma da vitalidade em uma qualquer das "camadas", e por conseguinte a sua duração correspondente, depende da soma de energia comunicada durante a vida terrestre ao gênero de matéria astral que forma a natureza desta camada. Se as paixões mais baixas foram as mais ativas, a matéria astral mais grosseira está muito vitalizada, e predomina pela quantidade. Este princípio aplica-se através de todas as regiões do Kamaloka, de forma que o homem, durante sua própria vida, pode facilmente conceber previamente o futuro que o espera no dia seguinte à sua morte.

A primeira divisão, a mais inferior, encerra as condições que respondem aos diferentes gêneros de "infernos" descritos em tantos livros santos, hindus e budistas. É preciso compreender bem que o homem, ao passar de um a outro destes estados purgatórios, não fica realmente desembaraçado das paixões e dos desejos vis que o conduziram lá. Semelhantes elementos persistem, porque são parte integrante de seu caráter, mas ficarão latentes, em estado de germes, no mental, para surgirem e formarem sua natureza passional quando ele novamente estiver prestes a renascer no mundo físico (1).

A sua permanência na mais baixa região do Kamaloka deve-se exclusivamente à presença em seu corpo kâmico (b) de uma grande proporção de matéria pertencente a esta região, e aí fica prisioneiro até que a camada que se compõe dessas matérias esteja suficientemente desagregada para permitir-lhe entrar em contato com a região imediatamente superior.

A atmosfera deste lugar é sombria, pesada, triste, deprimente em grau inconcebível. Parece impregnada de todas as influências mais opostas ao bem. Tal é o seu caráter essencial gerado por males, triste lugar (2) aonde são conduzidos aqueles que se deixaram guiar por suas más paixões. Todos os desejos, todos os sentimentos hórridos encontram ali materiais apropriados à sua expressão. Ali nada falta do que pode existir no lugar mais infecto, onde, entretanto, não se levam em conta todos os horrores que se ocultam à vista física e que ali se mostram em sua hedionda nudez.

O caráter repelente desta região é largamente acrescido pelo fato de a forma, no mundo astral, se adaptar ao caráter. O homem, presa de paixões repugnantes, mostra, portanto o aspecto exato do que é. Os apetites bestiais dão ao corpo astral um aspecto bestial, e as formas hediondas e terríveis, semi-humanas e semi-animais, são a expressão mais própria das almas que se tornam semelhantes aos brutos.

Ninguém, no mundo astral, pode ser hipócrita, nem dissimular seus maus pensamentos sob o véu de aparências virtuosas. Tudo que o homem é, manifesta em sua forma e seu aspecto exterior; irradiando beleza quando seus pensamentos são nobres; asqueroso e repelente, quando sua natureza é vil. Compreender-se-á facilmente por que os Mestres, tais como Buda, de visão infalível, para quem todos os mundos estão abertos, puderam descrever o que viam nestes infernos numa linguagem de um realismo terrível, que, por vezes, parece incrível aos leitores de hoje, porque esquecem que as almas, uma vez libertadas da matéria pesada e pouco plástica do mundo físico, aparecem sob a forma que lhes corresponde, tendo exatamente o aspecto do que na verdade são. Mesmo neste baixo mundo, um facínora vil apresenta um aspecto repugnante. Que devemos, pois, esperar com a matéria astral mais plástica, que se adapta à maior impulsão dos desejos criminosos?

Convém recordar que a população desses abismos do Kamaloka se compõe da escória da humanidade: assassinos, bandidos, criminosos de toda espécie, libertinos; em uma palavra, tudo o que há de mais vil no gênero humano.

Tudo o que aqui se encontra, com a consciência exata do que o rodeia, é culpado de algum crime brutal, de alguma crueldade persistente e deliberada. As únicas pessoas de caráter mais elevado que se encontram ali são os suicidas, homens que, pondo fim aos seus dias, quiseram escapar à punição terrestre dos seus crimes. Assim agindo, não fizeram senão agravar a situação.

Nem todos os suicidas, porém, aí se encontram, porque o suicídio pode ser cometido por motivos bem diversos. Aí não se encontram senão os que covardemente se matam para evitar as consequências de suas próprias ações.

Independentemente do ambiente lúgubre e dos companheiros abjetos que ali existem, o homem é por si mesmo o criador imediato de sua própria miséria. Não tendo sofrido outra mudança senão a perda de seu véu corpóreo, manifesta suas paixões com toda a sua faculdade original e sua brutal nudez. Cheias de apetites ferozes e insaciáveis, inflamadas pela vingança, pelo ódio, pela concupiscência, que não podem satisfazer, por falta dos respectivos órgãos, as almas erram, furiosas e ávidas, através dessa morada sombria. Elas se reúnem em torno dos piores lugares da terra, nas casas de deboche onde campeia o vício, a embriaguez, excitando os concorrentes destes lugares aos atos mais vergonhosos e ações violentas, procurando a ocasião favorável para obsedá-los e conduzi-los aos piores excessos. A atmosfera sufocante que existe em torno destes lugares é em grande parte devida à presença destas entidades ligadas à terra, possuídas de paixões abjetas e desejos infames. Os médiuns, a não ser que eles tenham um caráter puro e nobre, são principalmente objeto de seus ataques. Frequentemente, falhos de vontade, debilitados pelo abandono passivo de seu corpo à ocupação temporária de outras entidades desencarnadas, são facilmente obsedados por estes seres maus e arrastados à intemperança e à loucura. Os assassinos executados, possuídos de terror, de ódio, de vingança insaciável, renovam sem cessar seu crime por impulso maquinal, reproduzindo mentalmente os acontecimentos terríveis que o seguiram, envolvendo-se numa atmosfera de formas-pensamentos do crime. Estas, atraídas para quem alimente tais sentimentos de ódio ou vingança, incitam a cometer o crime em que o morto pensava. Ver-se-á, às vezes, nesta região, um assassino constantemente seguido de sua vítima, a cuja angustiosa presença não pode subtrair-se, forma inerte que persegue seus passos com uma persistência inelutável, apesar dos esforços que faz para desembaraçar-se dela. A vítima, a menos que não seja dum caráter vil, é inconsciente do fato, e esta inconsciência mesmo parece aumentar, para o culpado, o horror desta perseguição infernal.

É aqui que também encontramos o inferno do vivissector, porque a crueldade atrai ao corpo astral os materiais mais grosseiros e as mais repugnantes combinações de matéria astral... E a alma vive cercada pelas formas de suas vítimas mutiladas, gemedoras, trementes, lançando gritos, vivificados não pelas mesmas almas dos animais, mas pela vida elemental fremente de ódio contra os sacrificadores. E ele repete suas pobres experiências com uma regularidade automática, consciente do seu horror, imperiosamente levado a infligir de novo este tormento pelo hábito em sua vida terrestre,

Antes de deixar a região sombria, recordemos mais uma vez que não há aqui punição arbitrariamente infligida pelo exterior, mas unicamente o efeito inevitável de causas postas em ação pela própria ação.

Durante sua vida física, estes homens cederam aos impulsos mais vis; atraíram e assimilaram em seu corpo astral materiais que unicamente podiam vibrar em resposta a estes impulsos. Agora, este corpo que eles mesmos construíram torna-se a prisão de sua alma, e deve cair em ruínas antes que ela possa evadir-se.

O bêbado não é forçado a viver, aqui embaixo, em seu corpo físico repelente, abrasado pelo álcool? A mesma lei o forçará a viver, no Kamaloka, em seu corpo astral não menos repelente. Tudo o que se semeia, se colhe segundo sua espécie - tal é a lei, em todos os mundos, e nada pode a isso escapar. Na verdade, o corpo astral não é nem mais horrível nem mais nauseabundo que no tempo em que o homem vivia ainda na Terra, onde tornava a atmosfera fétida em torno de si, por suas emanações astrais. Mas na Terra as pessoas não percebem esta fealdade porque astralmente são cegas.

E quando consideramos estes infelizes que são nossos irmãos, podemos consolar-nos pensando que seus sofrimentos são apenas temporários e dão à vida da alma uma lição de que ela tem necessidade. Sob a reação terrível das leis da natureza que violou, aprende que estas leis existem e aprende também a conduta do homem. A natureza nada nos poupa, mas, no final de tudo, suas lições são excelentes, porque asseguram nossa evolução e conduzem a alma à conquista de imortalidade.


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Notas da Autora:

(1) Ver capítulo VII: A reencarnação.
(2) A "selva escura", Dante. V. L'inferno, canto primeiro.

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Minhas Notas:

(a) Kamaloka: região do plano astral onde vivem os desencarnados que ainda não se desembaraçaram de sua natureza animal. Ficam aí retidos até a desagregação de seu corpo astral inferior.
(b) corpo kâmico: o mesmo que corpo astral.


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