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quinta-feira, 16 de outubro de 2014

A Sabedoria Antiga - Capítulo 1 - O Plano Físico

Acabamos de ver que a Fonte da qual todo o Universo procede é um Ser Divino manifestado, a quem a Sabedoria Antiga em sua forma moderna atribui o nome de Logos ou Verbo. Este nome é tirado da filosofia grega, mas exprime perfeitamente a ideia antiga, a Palavra saída do Silêncio, a Voz, o Som que faz com que os mundos venham à existência.

Primeiramente lancemos um golpe de vista de conjunto sobre a evolução do "espírito-matéria" (1) a fim de melhor compreender a natureza dos materiais que o plano físico ou mundo físico nos apresenta. Porque a possibilidade da evolução jaz nas potencialidades ocultas ou imersas no espírito-matéria deste mundo físico. O processo de evolução, em sua totalidade, é um desenvolvimento gradual, amadurecido por uma espontaneidade interior e solicitado exteriormente por seres inteligentes que podem retardar ou acelerar a evolução, sem jamais ultrapassar a norma das capacidades inerentes aos materiais. É, pois, necessário que façamos uma ideia destas etapas primordiais do universal "movimento progressivo e periódico pelo qual as coisas se transformam". Mas como uma tentativa de elucidação detalhada nos levaria muito além dos limites que um tratado elementar impõe, devemos contentar-nos com um esboço rápido.

Saindo das profundezas da Existência Una, do Uno inconcebível e inefável, um Logos impondo-se um limite a si mesmo, circunscrevendo voluntariamente a extensão de seu próprio Ser, torna-se o Deus manifestado. Ao traçar a esfera limite de sua atividade, Ele delimita ao mesmo tempo a área de seu Universo. É nesta esfera que o Universo nasce, evolui e morre. É n'Ele que tudo vive e se move, que tudo encontra seu próprio ser. A matéria do Universo são as correntes de Sua vida. Ele reside oculto em cada átomo, imanente em tudo, tudo penetrando e sustentando tudo, desenvolvendo todas as coisas. É a fonte e o fim, a causa e o objeto, o centro e a circunferência. É o fundamento inabalável sobre o qual tudo está construído, é o espaço-ambiente no qual tudo respira. Está em todas as coisas, e todas as coisas estão n'Ele. Eis o que os guardiões da Sabedoria Antiga nos ensinam sobre a origem dos mundos manifestados. (a)

Nesta mesma fonte aprendemos que o Logos se desenvolve em uma tríplice forma:

O Primeiro Logos, a fonte de todo Ser.

Deste procede o Segundo Logos, manifestando um duplo aspecto, Vida e Forma, princípio de dualidade. São estes os dois polos da natureza, entre os quais será tecida a trama do Universo: Vida-Forma, Espírito-matéria, Positivo-Negativo, Ativo-Receptivo, Pai-mâe dos mundos.

Finalmente, o Terceiro Logos, a Mente Universal em que existe o arquétipo de todas as coisas, fonte dos seres, causa das energias construtoras, tesouro onde estão guardadas todas as formas ideais que vão ser manifestadas e elaboradas na matéria dos planos inferiores durante a evolução do Universo. Estes arquétipos são o fruto dos universos passados, transmitidos para servir de germes ao Universo presente. (a)

O espírito e a matéria, manifestação fenomenal dum universo qualquer (b), são, em extensão, finitos, e, em duração, transitórios. Um profundo escritor disse que a raiz da matéria (mulaprakriti) é percebida pelo Logos como um véu cobrindo a Existência Una, o Supremo Brama (Parabrahman) (c), segundo a denominação antiga.

O Logos reveste-se deste "véu" para produzir a manifestação. Serve-se dele como dum limite voluntariamente auto-imposto, tornando assim possível Sua atividade. É aí que ele adquire a matéria com que elabora seu universo, sendo Ele próprio a vida criadora que anima, guia e rege todas as formas. (2)

Do que se passa nos dois planos mais elevados do Universo, o sétimo e o sexto, não podemos fazer senão uma ideia muito vaga. A energia do Logos, movimento turbilhonário duma inconcebível rapidez, "abre buracos no espaço" nesta matéria-raiz (mulaprakriti) (c) de que já falamos; e este turbilhão de vida, limitado por uma superfície envoltória pertencente à mulaprakriti, forma o átomo primordial. Os átomos primordiais, em seus diversos grupamentos, espalhados pelo Universo inteiro, formam todas as subdivisões do "espírito-matéria" do sétimo plano, uma parte destes inumeráveis átomos primordiais produz turbilhões no seio dos agregados mais densos de seu próprio plano. O átomo primordial assim revestido dum envoltório espiral constituído pelas combinações mais densas do sétimo plano torna-se o último elemento do espírito-matéria, isto é, o átomo do sexto plano. Os átomos do sexto plano, com a infinita variedade de combinações que formam entre si, constituem as diversas subdivisões do espírito-matéria do sexto plano cósmico. O átomo do sexto plano, por sua vez, determina um movimento turbilhonário no seio dos agregados mais densos de seu próprio plano e, com estes agregados formando uma superfície envoltória, torna-se o elemento mais sutil do espírito-matéria do quinto plano, isto é, o átomo deste plano.

Os átomos do quinto plano em suas múltiplas combinações formam as subdivisões do espírito-matéria do quinto plano. O mesmo processo se repete em seguida para formar sucessivamente o espírito-matéria dos planos quarto, terceiro, segundo e primeiro. Tais são as sete grandes regiões do Universo, pelo menos no relativo à constituição material Poderemos melhor compreender isto e ter, por analogia, uma ideia mais nítida, quando concebermos as modificações do espírito-matéria do nosso próprio mundo físico. (3)

O termo "espírito-matéria” é propositalmente empregado. Significa que não existe matéria morta. Toda a matéria é viva; as partículas mais infinitesimais são vidas. A ciência diz uma verdade quando afirma: "Não há força sem matéria, nem matéria sem força". Força e matéria estão fundidas por uma indissolúvel união através de todas as idades da vida dum Universo, e nada pode separá-las. A matéria é a forma e não há forma que não expresse uma vida; o espírito é vida e não há vida que não seja limitada, ou melhor, condicionada por uma forma. O próprio Logos, o Senhor Supremo, tem para Sua forma o Universo (e), enquanto durar sua manifestação e assim para todas as vidas até o minúsculo átomo.

Esta involução da vida do Logos, como força animadora em cada partícula, e seu encerramento sucessivo no espírito-matéria dos diferentes planos - de maneira que os materiais de cada plano, além das energias que lhe são próprias, guardam em estado latente todas as possibilidades de forma e de força pertencentes aos planos superiores - estes dois fatos tornam certa a evolução e dão às partículas ínfimas as potencialidades que, gradualmente transformadas em poderes ativos, as tornarão aptas para penetrarem nas formas dos seres mais excelsos. De fato, a evolução pode ser resumida em uma única frase: "Não é senão uma passagem de potencialidades latentes ao estado de poderes ativos.".

A segunda grande vaga de evolução, evolução da forma, e a terceira, evolução do "eu-consciência", serão consideradas mais tarde. Estas três correntes de evolução podem ser observadas na Terra em relação à humanidade: fabricação do material, construção da casa, desenvolvimento do ser que aí reside; ou melhor, segundo os termos empregados um pouco antes: evolução do espírito-matéria; evolução da forma; evolução do "eu-consciência".

Se o leitor pode perceber e guardar esta ideia, será para ele uma indicação preciosa destinada e guiá-lo através do labirinto dos fatos.

Podemos agora passar ao exame detalhado do plano físico no qual existe nosso mundo e ao qual pertencem nossos corpos.

O que nos impressiona, antes de tudo, quando examinamos os materiais deste plano, é sua imensa diversidade. Os objetos que nos rodeiam são de uma infinita variedade: minerais, vegetais, animais, todos diferentes em constituição. Ainda mais: uns são duros, outros moles, transparentes ou opacos, quebradiços ou maleáveis, doces ou amargos, agradáveis ao paladar ou nauseabundos, coloridos ou não. Desta confusão surgem, como classificação fundamental, os três estados da matéria, os sólidos, os líquidos e os gases. Um exame mais completo nos mostra que estes sólidos, líquidos ou gases são constituídos por combinações de corpos muito mais simples, chamados pelos químicos "elementos", e estes mesmos elementos podem existir em estado sólido, líquido ou gasoso, sem mudarem de natureza. Assim, o elemento químico oxigênio entra na composição da madeira, formando com outros elementos as fibras lenhosas sólidas; existe igualmente na seiva, formando com outro elemento uma combinação líquida, a água; finalmente, ainda se manifesta como gás.

Sob estas três condições, permanece sempre como oxigênio.

Ainda mais, o oxigênio puro pode ser reduzido ao estado gasoso, ao estado líquido e deste ao estado sólido, sem cessar de ser oxigênio puro. Da mesma forma para os demais elementos.

Obtemos assim três subdivisões ou estados da matéria no plano físico: os sólidos, os líquidos e os gases. Levando ainda mais longe nossas investigações, deparamos com um quarto estado da matéria: o éter; e experiências ainda mais minuciosas ensinam que este mesmo éter existe sob quatro estados, tão perfeitamente definidos como os três estados, sólido, líquido e gasoso. Consideremos ainda o oxigênio. Assim como pode ser reduzido de gasoso ao líquido e de líquido ao sólido, também pode ser elevado, partindo do estado gasoso, por todos os estados etéricos cujo último é constituído pelo último átomo físico. Quando este átomo é decomposto, a matéria sai completamente do plano físico e passa ao plano imediatamente superior. Representando-se três corpos no estado gasoso e nos quatro estados etéricos, observa-se que a diversidade dos "elementos químicos" é devida à diversidade das combinações que entre si formam estes últimos átomos físicos. Assim a sétima subdivisão do "espírito-matéria" física é formada de átomos homogêneos. A sexta é formada de combinações heterogêneas muito simples destes átomos; cada combinação comportando-se como uma unidade nova. A quinta e a quarta são formadas de uma complexidade cada vez mais crescente, cada combinação apresentando-se sempre como uma unidade. A terceira, enfim, se compõe de organizações ainda mais complicadas, consideradas pelos químicos como os átomos gasosos dos elementos. Nesta subdivisão, um grande número de combinações tem recebido nomes especiais: oxigênio, hidrogênio, azoto, cloro, etc. e cada combinação que se descobre recebe igualmente um nome. A segunda subdivisão se compõe de combinações no estado líquido: umas consideradas como elementos, de que se tem exemplo o bromo; outras, como compostos, de que se tem exemplo a água. Enfim, a primeira subdivisão encerra os sólidos que têm elementos como iodo, ouro, chumbo ou compostos; madeira, pedra, giz, etc. (f)

O plano físico pode servir de modelo ao estudante. De acordo com este tipo geral, pode-se fazer, por analogia, uma ideia das subdivisões do "espírito-matéria" dos outros planos.

Quando um teósofo fala dum plano, quer significar com isto uma região inteiramente composta dum "espírito-matéria" cujas combinações derivam dum átomo pertencendo a um tipo especial. Estes átomos fundamentais são, por sua vez, unidades complexas, organizadas de uma maneira análoga. A sua vida nada mais é que a vida do Logos, velada por certo número de envoltórios conforme o plano considerado. Sua forma se compõe da matéria mais grosseira ou matéria "sólida" do plano imediatamente superior. Um plano não é somente uma ideia metafísica, é também uma subdivisão da natureza.

Até agora estudamos os resultados da evolução do "espírito-matéria" no nosso mundo físico, subdivisão mais baixa do nosso sistema. Por idades sem conta a evolução do "espírito-matéria" modelou a substância cósmica, e vemos atualmente, nos materiais do nosso globo, o resultado deste trabalho de elaboração. Mas quando tivermos que estudar os seres que habitam este mundo físico, devemos tratar da evolução da forma que constrói os organismos com auxílio de materiais já preparados pela evolução do "espírito-matéria".

Quando a evolução dos materiais atingiu um grau suficientemente avançado, a segunda grande vaga de vida, saída do Logos, deu impulso à evolução da forma, e Ele se fez a força organizadora de Seu Universo, e teve como auxílio na construção das formas, combinações do "espírito-matéria", construindo inumeráveis coortes de seres chamados "construtores" (4).

A vida do Logos, que reside no coração de cada forma (g), é a energia central, que tudo regula e anima.

Impossível nos é estudar aqui, em detalhe, a construção das formas nos planos superiores. Basta apenas dizer que todas as formas existem como ideias na Mente do logos, e que essas ideias entram em manifestação para servir de modelos aos Construtores.

No terceiro e segundo planos (h), as primeiras combinações do "espírito-matéria" são organizadas de maneira a poderem facilmente ser agrupadas em formas, representando momentaneamente o papel de unidades independentes, destinadas a dar pouco a pouco o hábito da estabilidade ao "espírito-matéria" quando este se apresenta como um organismo. Este processo determina nos planos terceiro e segundo a existência de três reinos chamados elementais, e as combinações das substâncias que aí se formam recebem o nome de "essência elemental". Essa essência, por agregação, molda-se em formas que subsistem certo tempo para, em seguida, se dispersarem. A vida que flui do logos, ou Mônada, desce através destes reinos e atinge finalmente o plano físico, onde começa a agrupar, em torno de si, partículas do éter que se mantêm em formas diáfanas, atravessadas por correntes de vida. Nestas formas vão-se reunindo os materiais mais densos que constituem os primeiros minerais. Estes põem em evidência, de modo admirável (consulte-se qualquer obra de cristalografia), os dados numéricos e geométricos que servem para a construção das formas. Proclamam propor inúmeros testemunhos de que a vida circula em todos os corpos minerais, conquanto ela aí esteja em seu maior grau de aprisionamento e limitação.

O fenômeno da "fadiga dos metais" mostra-nos que eles são seres vivos - e é assim que a doutrina oculta os considera, pois ela sabe que neles a vida se encontra em estado de evolução. (i)

Tendo, os minerais, adquirido uma grande estabilidade na forma, a Mônada, sempre evoluindo, elaborou uma maior plasticidade no reino vegetal, combinando esta plasticidade com uma suficiente estabilidade de organização. Estes caracteres (estabilidade e plasticidade combinadas) encontraram uma expressão de equilíbrio, ainda mais perfeita, no reino animal e enfim atingiram seu completo equilíbrio no homem, cujo corpo físico é composto de princípios muito instáveis, permitindo uma grande adaptabilidade, e mantidos, em seu conjunto, por uma força central de combinação que resiste à desagregação geral, embora o corpo esteja sob as mais diversas condições.

O corpo físico do homem comporta duas divisões essenciais: o corpo grosseiro, cujos elementos são tirados das três subdivisões inferiores do plano físico: sólidos, líquidos e gases; e o duplo etérico, dum cinzento-violeta ou azulado (para a divisão superior), que interpenetra o corpo grosseiro e é composto de materiais tirados das quatro divisões superiores do mesmo plano.

A função geral do corpo físico consiste em receber os contatos do mundo exterior e transmitir ao interior os efeitos desses contatos a fim de que o ser consciente que reside no corpo os elabore e deles extraia o conhecimento. O duplo etérico faz também o papel especial de intermediário, de agente transformador, graças ao qual a energia vital irradiada pelo Sol pode ser adaptada ao uso das partículas mais grosseiras. O Sol é para o nosso sistema o grande reservatório de forças elétricas, magnéticas e vitais, que as derrama em abundância. Estas correntes vivificadoras são assimiladas pelo duplo etérico dos minerais, dos vegetais e dos homens, e transformadas nas diversas energias vitais necessárias a cada ser (1). O duplo etérico as absorve, especializando-as e distribuindo-as depois pelo corpo grosseiro. Já se observou que, no estado de saúde perfeita, o duplo etérico transmuta uma quantidade de energia vital muito maior que a necessária para a manutenção do corpo físico.

Este excesso irradia em volta do corpo e pode ser utilizado por organismos mais fracos. Atribui-se o nome técnico de aura de saúde (“health” aura) à porção do duplo etérico que ultrapassa em alguns centímetros, e em todos os sentidos, o corpo físico. Podemos então observar, sobre toda a superfície do corpo, linhas que irradiam semelhantes aos raios de uma esfera.

Estas linhas se inclinam para o solo quando a vitalidade diminui e a saúde enfraquece. Mas quando as forças voltam, irradiam novamente no sentido perpendicular à superfície do corpo. É esta energia vital, especializada pelo duplo etérico, que o magnetizador emprega para reconstituir as forças e curar as doenças (Há também muitas vezes a intercorrência doutras correntes de um gênero mais sutil). (j)

Tal é a causa da depressão de energia vital que o esgotamento do magnetizador testemunha quando seu trabalho se prolonga em excesso.

O corpo humano é mais sutil ou mais grosseiro em sua contextura, conforme os materiais tomados ao plano físico para sua composição. Cada subdivisão da matéria fornece substâncias mais sutis ou mais densas. Comparai o corpo de um açougueiro ao corpo delicado de um sábio: ambos contêm sólidos, mas como diferem suas qualidades! Demais, sabemos que um corpo grosseiro pode ser purificado e que um corpo delicado pode ser bestializado, tornando-se grosseiro. O corpo se transforma incessantemente. Cada partícula é uma vida, e as vidas vêm e vão. São atraídas por um corpo quando este vibra no mesmo diapasão que elas, e são repelidas por corpos de natureza oposta. Todas as coisas vivem em vibrações rítmicas; todas são atraídas pela harmonia e repelidas pela dissonância. Um corpo puro repele as partículas impuras, porque estas têm um modo de vibração incompatível com o seu. Um corpo grosseiro, ao contrário, as atrai pela concordância de suas vibrações. Daí se conclui que se um corpo muda seu modo de vibração, expele gradualmente para fora de seu âmbito os elementos constituintes que não podem vibrar em uníssono com ele, e os substitui tomando à natureza exterior novos elementos em harmonia consigo mesmo. A natureza fornece materiais que vibram de todos os modos possíveis, e cada corpo exerce sua própria ação selecionadora.

Na primitiva constituição dos corpos humanos, esta ação selecionadora era devida à Mônada da Forma (k). Mas o homem é agora um ser de consciência própria (autoconsciente) e preside por si mesmo a sua própria construção. É pelo seu pensamento que faz ressoar a tônica de sua harmonia individual e que determina os ritmos que são os fatores mais poderosos nas modificações contínuas, pelas quais passam não só o corpo físico, como todos os outros corpos. À medida que aumenta seu conhecimento, aprende a edificar seu corpo físico por meio de uma alimentação pura, e assim facilita sua disposição para uma perfeita harmonia. Aprende a viver de acordo com o axioma da purificação: "Alimentação pura, mente pura e um constante pensamento em Deus." O homem, a mais elevada das criaturas que vivem no plano físico, é neste plano o vice-rei do Logos, responsável, na amplitude de seus poderes, pela ordem, pela paz e pela boa harmonia que aí devem reinar. Dever este de que não pode desobrigar-se se não preencher a tríplice condição que acabamos de enunciar.

O corpo físico, tomando seus elementos em todas as subdivisões do plano físico, está apto a receber dele impressões de toda espécie e a responder a estas impressões.

Primeiramente, afetam-no os contatos mais simples e grosseiros. A vibração emitida por via interior em resposta a uma excitação de fora desperta, entre as moléculas do corpo, movimentos correspondentes. Pouco a pouco, em toda a superfície do organismo, vai-se desenvolvendo o sentido do tato que permite reconhecer, pelo contato, a presença dos objetos. À medida que órgãos especializados se formam, destinados a receberem vibrações dum gênero determinado, o valor do corpo aumenta; torna-se mais apto a ser, um dia, no plano físico, o veículo duma entidade de consciência própria. Quanto mais facilmente receber impressões diversas, maior será sua utilidade, porque as impressões às quais pode responder atingirão a consciência de ser encarnado. Ainda hoje há, em torno de nós, na natureza física, uma infinidade de vibrações que nos escapam totalmente, porque nosso corpo físico é incapaz de as receber, isto é, vibrar com elas em uníssono. Belezas inimagináveis, sons delicados, harmonias sublimes vêm chocar-se contra os muros da nossa prisão e passam despercebidos. Ainda não está desenvolvido o corpo perfeito que vibrará em harmonia com todos os frêmitos e comoções da natureza, à semelhança de uma harpa eólia ao sopro da brisa.

As vibrações que o corpo pode receber são transmitidas aos centros físicos pertencentes ao seu sistema nervoso altamente complexo. Assim também as vibrações etéricas, que acompanham todas as vibrações dos materiais mais densos, são recebidas pelo duplo etérico e levadas aos centros correspondentes. A maior parte das vibrações da matéria densa é transformada em energia química, em calor ou em outras formas de energia física. As vibrações etéricas dão lugar às ações magnéticas e elétricas, e ainda as transmitem ao corpo astral de onde elas atingem a mente, como mais tarde veremos. É assim que as informações concernentes ao mundo exterior chegam ao ser consciente que habita o corpo ou ao "senhor do corpo", como por vezes o chamam. À medida que as vias de informação se aperfeiçoam pelo exercício, o ser consciente se desenvolve, graças aos materiais que elas fornecem ao pensamento. Mas o homem, em nossa época, está ainda tão pouco evoluído, que seu duplo etérico ainda não apresenta a necessária perfeição para transmitir regularmente impressões recebidas independentemente do corpo grosseiro, ou mesmo para impressionar o cérebro.

Muitas vezes, entretanto, a transmissão se dá e temos assim a clarividência em sua forma mais inferior, visão do duplo etérico de objetos físicos, e visão dos objetos cujo invólucro mais denso é um corpo etérico.

Como veremos, o homem mora em uma série de veículos, físico, astral e mental, e é importante saber e lembrar que em nossa evolução ascendente o veículo inferior, o corpo físico grosseiro, é o primeiro a ser "racionalizado", dirigido pela consciência. O cérebro físico é instrumento de consciência no estado de vigília sobre o plano físico, e no homem pouco evoluído a consciência funciona duma maneira mais efetiva que em qualquer outro veículo. Suas potencialidades são inferiores às dos outros veículos mais sutis, porém suas realizações são maiores e o homem se reconhece como um "eu" no corpo físico, antes de se descobrir como tal nos outros. Mesmo quando mais evoluído que a média de sua raça, não se revelará aqui senão nos limites permitidos por seu organismo físico, porque a consciência somente pode manifestar no plano físico aquilo que o veículo físico é capaz de receber.

Em geral, o corpo grosseiro e o corpo etérico não se separam nunca durante a vida terrestre. Funcionam em conjunto, no estado normal, como as cordas baixas e altas dum mesmo instrumento quando se produz um acorde; mas exercem funções distintas, conquanto coordenadas.

Nas condições de saúde fraca ou de superexcitação nervosa, o duplo etérico pode ser anormalmente projetado, em grande parte, para fora do corpo grosseiro. Este fica então muito vagamente consciente, ou mesmo em estado de transe, conforme a maior ou menor substância etérica, de forma que a consciência não pode nem alterar seu veículo grosseiro, nem ser afetada por ele, estando interrompido o laço de comunicação. Nas pessoas de organização anormal chamada "médiuns", a separação do corpo etérico e do corpo grosseiro se produz facilmente, e o duplo etérico exteriorizado fornece em grande parte a base física necessária às "materializações" (l).

Durante o sono, quando a consciência abandona o veículo físico, que utiliza no estado de vigília, o corpo grosseiro e o duplo etérico permanecem juntos. Mas na vida do sonho físico funcionam independentemente um do outro até certo ponto. Impressões recebidas em vigília são reduzidas pela ação automática do corpo, e o cérebro grosseiro e o etérico ficam ambos povoados de imagens fragmentárias e incoerentes, onde as vibrações se confundem desordenadamente, produzindo as mais grotescas combinações.

Vibrações exteriores vêm igualmente afetar os dois veículos e as combinações frequentemente repetidas no estado de vigília são facilmente trazidas à atividade por correntes astrais de natureza análoga. As imagens produzidas em nossos sonhos, quer geradas espontaneamente, quer suscitadas por uma força exterior, são em grande parte determinadas pela pureza ou impureza dos nossos pensamentos no estado de vigília.

Quando sobrevém o fenômeno chamado morte, a consciência, ao libertar-se, extrai o corpo etérico de seu encaixe grosseiro. Rompe assim o laço magnético que prendia estas duas partes durante a vida terrestre, e o ser consciente permanece, durante algumas horas, envolto em suas roupagens etéricas. Algumas vezes, neste estado, ele se manifesta às pessoas que lhe estão próximas, sob uma forma nebulosa, vagamente consciente e muda - o "fantasma". O duplo pode igualmente ser visto depois que o ser consciente dele se escapou, flutuando acima do túmulo onde o cadáver grosseiro está sepultado, e com o tempo vai lentamente se desagregando.

Quando se aproxima o momento de renascer, o corpo grosseiro, em seu desenvolvimento pré-natal, segue, passo a passo, o duplo etérico que vai sendo construído gradualmente, antecipadamente. Pode-se dizer que esses dois corpos determinam as limitações entre as quais o ser consciente será constrangido a viver e a trabalhar, durante sua vida terrestre. Mas esta questão será melhor elucidada no capítulo IX, tendo por assunto o "Karma".

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Notas da Autora

(1) Ler a explicação deste termo mais adiante.
(2) Eis por que certos livros sagrados do Oriente o chamam o "Senhor de Maya". Maya, ou ilusão, sendo o princípio da forma. A forma é considerada como ilusória por causa de sua natureza transitória e de suas transformações perpétuas. A vida, que se oculta sob o véu da forma, é a única realidade.
(3) O estudante poderá compreender melhor esta concepção se admitir os átomos do quinto plano como Atma, os do quarto como Atma envolvida na substância de Budhi, os do terceiro como Atma envolvido nas substâncias Budhi, Manas e Kama. os do plano mais inferior como Atma encerrado nas substâncias Budhi, Manas, Kama  e Sthula. Só o invólucro exterior é ativo em cada caso, mas os princípios interiores, embora latentes, não deixam de estar presentes, prontos a manifestações na vida ativa no arco ascendente do ciclo da evolução. (d)
(4) Alguns entre os Construtores são inteligências espirituais de ordem muito elevada, mas este nome se estende aos simples elementais construtores da natureza. Este é o assunto do Capítulo XII.
(5) A vida solar assim apropriada recebe o nome de Prana e torna-se o corpo de vida de cada criatura. Prana é um nome que serve para designar a vida universal, quando é assimilada por uma entidade cuja vida mantém.

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Minhas notas

(a) o conceito expresso nesse parágrafo em muito se assemelha ao panenteísmo, mas difere do panteísmo.
(b) subentende-se, aqui, a existência de múltiplos universos.
(c) mulaprakriti: termo sânscrito de origem vedantina, que designa a substância primordial da matéria do universo manifesto.
     Parabrahman: também um termo sânscrito. Designa a consciência imaterial que permeia todo o Universo.

(d) Atma, Buddhi, Manas, Kama e Sthula são designações dos envoltórios corporais humanos, com a seguinte correspondência:

Atma: corpo espiritual, da bem-aventurança.
Buddhi: corpo causal
Manas: corpo mental (Manas superior) e astral (Manas Inferior)
Kama: duplo etérico
Sthula: corpo físico.

(e) aqui, Annie Besant refere-se, por certo, ao segundo ou terceiro Logos, não ao Logos primordial, donde procedem os diferentes universos.
(f) Nesse parágrafo, um tanto confuso, em que Annie Besant acaba sendo generalista demais ao referir-se a “madeira” e “pedra” como “compostos”, é útil abstrair um sentido geral. A autora nos está dizendo, embora sem utilizar essa terminologia, que a matéria é composta de partículas muitíssimo sutis (a nível subatômico) que vão se agregando e condensando cada vez mais, a partir de um estado altamente fluídico e maleável (ao qual ela denomina, etérico), até formarem os sólidos mais rígidos.
(g) “A vida do Logos que reside no coração de cada forma”. Também damos a essa vida, na atualidade, a denominação de “Centelha Divina”.
(h) A autora refere-se, aqui, aos planos conhecidos como “astral” (segundo plano) e “mental” (terceiro plano), sendo o plano “físico”, o primeiro plano.
(i) Esse conceito, não é diferente do adotado por outras filosofias, segundo as quais o princípio inteligente, habita minerais, vegetais e animais, evoluindo paulatinamente. Na atualidade, o Espiritismo é uma doutrina que adota essa premissa.
(j) Os três parágrafos anteriores fornecem um embasamento para a utilização dos chamados “passes magnéticos”, tão utilizados em casas espíritas, na atualidade.
(k) Mônada da Forma: conjunto dos princípios Atma e Buddhi, ainda desvinculados de Manas, Kama e Sthula.
(l) Annie Besant fala aqui apenas de um tipo de mediunidade, um tipo específico de mediunidade de efeitos físicos, caracterizado pelas materializações. Notar que, na ocasião em que foi publicado este livro (1897), a Doutrina Espírita, que viria a estudar profundamente os fenômenos mediúnicos era um fato histórico absolutamente recente.



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