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quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Solidariedade de Companheiro

(Inácio Ferreira, em "Cartas do Dr. Inácio aos Espíritas", psicografado por Carlos A. Baccelli)

Meu amigo, recebi as suas palavras e pude avaliar a sinceridade do que me diz: - "Dr. Inácio, eu não sei o que acontece comigo, que sou tão frágil... Faço, todos os dias, propósito de não mais errar, para, quase todos os dias, cometer os mesmos erros. Sou espírita e tenho vergonha de mim. Como é difícil, meu Deus, vivenciar as lições do Evangelho! Tenho pensado em me afastar das tarefas, considerando que o Espiritismo é uma doutrina pura demais para mim. Por favor, envie-me uma palavra..."

As lutas que você enfrenta, no campo da renovação íntima, são semelhantes às nossas, espíritos que ainda não logramos superar a própria humanidade, nem além da vida no corpo físico. Não se sinta, pois, excluído, em situação pior que a dos outros.

Eu também, meu filho, quando encarnado, resvalava um sem-número de vezes em minhas próprias mazelas. No entanto, o que podia fazer de inteligente, a não ser continuar lutando para me superar?

Você fala em se afastar das atividades doutrinárias. Não faça isso - não faça o jogo daqueles, encarnados e desencarnados, que torcem pelo seu fracasso. O momento é de maior perseverança ainda. Continue, com a determinação possível, no cumprimento do dever e, aos poucos, você vencerá. Não estamos semeando para colher de imediato. A rigor, o nosso plantio diz respeito ao amanhã...

Permita-me transcrever parte de inesquecível preleção de Chico Xavier que, creio, tem a ver com a situação que me é exposta por você. Ele a proferiu em uma daquelas abençoadas reuniões "à sombra do abacateiro". "[...] Quando - disse na oportunidade - a Doutrina Espírita nos alcança, de certo modo, nos sentimos apreensivos e muito alegres ao mesmo tempo - o que parece um paradoxo.

"Começamos a pensar nas nossas inferioridades e começamos a exercer um controle muito grande sobre nós mesmos.

"A Doutrina Espírita pode ser comparada a uma luz que nos foi entregue. Imaginemos uma lâmpada acesa... Sentimos aquela alegria imensa no primeiro momento, uma felicidade muito grande; descobrimos que a vida continua; que estamos a caminho da perfeição... Daí a dois, três dias, a Luz vai nos iluminando e vamos nos conhecendo por dentro, à maneira de uma casa abandonada há séculos... Entramos, então, nesse estado de inquietação, de amargura que não devemos conservar... Precisamos manter a alegria de termos recebido aquela luz e devemos perseverar - ainda mesmo que as imperfeições se avolumem dentro de nós - como quem está reconstruindo a si mesmo...

"Muitos recebem a luz e se encolerizam, enraivecem, humilhados, porque aquela luz mostrou demais as qualidade menos felizes de que a pessoa é portadora. Alguns se entregam à inércia, cruzam os braços... Outros se deixam dominar por um espírito de tristeza, quando essa luz nos convida a trabalhar, mas a trabalhar intensamente por dentro de nós para que possamos, ao invés de apenas recebê-la, irradiá-la em benefício de todos...

"Já ouvimos alguém dizer que os espíritas são companheiros muito tristes, revoltados e que acabam desertando dos seus deveres... Isso acontece quando nós não sabemos acariciar essa luz e pedir a Deus forças para que essa luz nos penetre e nos renove com a nossa alegria da primeira hora, para que possamos prosseguir em frente, trabalhando e servindo sempre com a esperança viva no coração...". (os grifos são do original)

As palavras de nosso Chico têm ou não têm a ver com o conflito que você vivencia, ou melhor, que todo espírita sincero vivencia, objetivando a própria renovação? Qual vulgarmente se diz, ninguém se transforma a toque de caixa... Não fosse o conhecimento que a Doutrina nos faculta sobre nós mesmos - conhecimento superficial, é verdade -, prosseguiríamos ignorando a necessidade de mudança para melhor em nosso mundo interior. O conhecimento espírita é a nossa bênção, e o trabalho, a nossa oportunidade.

O Espiritismo, meu filho, até onde sei, não é uma doutrina para anjos, mas, sim, para as criaturas humanas que desejam, sinceramente, se empenhar em seu aperfeiçoamento. Assim, ainda que seja um único passo por dia, não deixe de caminhar adiante, embora, como nos solicita o Apóstolo, "de joelhos desconjuntados"...

Procure não cair com tanta frequência. Para tanto, agarre-se no que você puder. Mas, se, porventura, cair, não fique no chão se lamentando. Levante-se e retome a caminhada. Use a cabeça e responda-me: se você retroceder e se render de toda às inclinações infelizes, o que lhe sucederá? Tudo há de ficar pior, não é? Há espírito que se utiliza desse expediente, a fim de chantagear as Leis da Vida, na expectativa de que elas o poupem do esforço de ascensão. Ora, sejamos adultos, eu e você. O dinamismo do Universo não se compromete por conta dos que se recusam a acompanhá-lo! Quem fica para trás fica para trás até que, compreendendo a inutilidade de sua rebeldia, tome a decisão de apressar o passo. As coisas funcionam exatamente assim. O que podemos fazer para ajudar aquele que não quer ser ajudado?

Não me interprete mal. Com estas palavras, não estou contemporizando com os seus e os meus erros: estou me solidarizando com as suas lutas que, em essência, são igualmente minhas. A diferença entre elas está apenas na natureza das provas que enfrentamos.

Quanto às críticas, à maledicência, às insinuações, não se importe. A vida se encarregará de dar ocupação aos desocupados, que vivem com censura nos lábios. A seu tempo, haverão de ser requisitados neste ou naquele campo de enfrentamento, onde terão oportunidade de testemunhar os valores que exigem dos outros. Aí, segundo o ditado, eles verão com quantos paus se faz uma canoa...

Conheci um espírita de conduta exemplar, ilibada, mas que era excessivamente moralista. Não bebia, não fumava, não comia carne e não fazia outras coisas mais. Ele costumava dizer: - "Dr. Inácio, eu não entendo como um homem como o senhor pode ser tão agarrado ao vício do cigarro..." O tempo correu. Pai de dois filhos que, é claro, acabaram crescendo, eis que, infelizmente, aconteceu, quando ambos lhe escaparam à tutela: o primeiro, aos 21 anos, começou a beber e a usar maconha - tivemos que interná-lo diversas vezes no Sanatório; a segunda, uma jovem linda, ficou grávida do namorado que, acobertado pela família, fugira, indo morar no Rio de Janeiro... Um dia, eu me encontrei com ele no Mercado Municipal, com o netinho de quase 2 anos no colo. Em pouco mais de 3 anos a vida lhe aplicara uma rasteira fenomenal. Como ele havia mudado!

Então, meu filho, seja humilde, identifique as suas mazelas e nelas não se compraza. Lute, com todas as forças, para adequar-se aos ditames da consciência, mas, por outro lado, não fique se martirizando, como se você não fosse digno de ser espírita. Se ser espírita fosse uma questão de mérito ou elevação espiritual, eu desconfio que sobraria pouca gente...


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